Há certa indignação no discurso do bacharel em ciências econômicas Walter Pennick Caetano, 74 anos, sobre aposentadoria compulsória, uma prática no serviço público. “Aos 65, 70 anos, a pessoa está no auge do conhecimento!”, diz, com a experiência de quem foi funcionário concursado, atuou em atendimento a órgãos públicos e viu vários amigos e colegas tendo de se afastar devido à idade.

Trata-se de uma imposição legal. Assim que completa uma determinada idade, que varia conforme a instituição, o profissional é obrigado a se aposentar. Questionada por alguns juristas, a prática seria uma espécie de etarismo, em que há preconceito em relação ao tempo de vida.

Para Walter, é um contrassenso. “A distância entre o conhecimento e a juventude é muito grande. Como é que você despreza o conhecimento de um sujeito que trabalhou 30 ou 40 anos?”, questiona.

Há 39 anos, fundou a Conam – Consultoria em Administração Municipal, que presta atendimento a entidades governamentais entre prefeituras, autarquias, fundações e câmaras municipais nos estados de São Paulo e Minas Gerais, onde hoje é diretor-geral. E colocou como diretriz a contratação de trabalhadores experientes, que tivessem décadas de bagagem profissional e hoje formam um time de consultores com mais de 70 anos de idade.

Hoje, a empresa tem 200 funcionários, dos quais 12 passaram dos 70 anos. Boa parte deles é de aposentados do serviço público, como a advogada Marizia de Lourdes Tardelli Lazzarini, 82 anos. Ex-procuradora, ela ingressou na Conam em 1991, convidada por um chefe, que foi “muito insistente”.

Das 9h às 12h, cabe a ela atender às demandas jurídicas de contratantes e avaliar pareceres do setor. É um trabalho coletivo, num “ótimo ambiente profissional”, considera.

“Ficar em casa da hora que acordo à hora em que vou dormir, sem ter obrigação, é muito desgastante”

Marizia diz não ter planos de parar – o trabalho é hoje seu único compromisso fixo. “É um período pequeno. Não atrapalhou meus planos de aposentadoria.” E completa: “Ficar em casa da hora que acordo à hora em que vou dormir, sem ter obrigação, é muito desgastante. Muito vazio”.

E qual é a hora de, na prática, se aposentar? A consultora Dyonne Stamato Leite Fernandes, 88 anos, responde: “Quando começar a trabalhar mal porque a cabeça não está ajudando. Espero que isso não aconteça... [risos]”. Para ela, é melhor envelhecer com uma atividade intelectual do que “sem fazer nada”.

Na Conam desde 2004, ela afirma que existe uma troca de gerações, com aprendizado por todos os lados. Mas, apesar de existirem laços de amizade no trabalho com os mais jovens, eles não se estendem para os horários de lazer. “São outros interesses”, diz ela, que também tem jornada reduzida, das 9h às 12h.


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Tchau, concurso

Outra parte dos profissionais com mais de 70 anos que integram o time da Conam, contudo, não veio em decorrência da aposentadoria compulsória. O consultor Yutaka Okazaki, 77 anos, por exemplo, pediu as contas do Tribunal de Contas do Estado para, há 39 anos, começar na empresa. “Sentia que o campo de atividade era maior”, justifica.

“Aqui se dá valor ao conhecimento da pessoa”, diz ele, explicando por que, mesmo aposentado, não quer abandonar a jornada das 9h às 18h. “Eu sinto prazer de não ficar parado. Não vejo a hora passar.” Começar a semana no trabalho, afirma, é ter a sensação de iniciar algo novo constantemente.

Há outro componente: no trabalho, ele diz aprender “coisas novas, principalmente computação” com a geração mais nova. “Esse celular, que impressionante o que ele faz...”, considera, acrescentando que se comunica com parte da equipe pelo WhatsApp.

“A empresa virou uma escola”

Walter destaca que essa troca é mútua. Os mais jovens contam com o apoio e o suporte dos mais experientes para, por exemplo, dar sequência aos estudos e engatar mestrado e doutorado. “A empresa virou uma escola”, afirma, listando uma série de nomes de funcionários com menos de 50 anos que investiram em pós-graduação motivados pelos seniores.

“Formam-se relações de amizade”, destaca o contador João Roberto di Domenico, 69 anos de idade e 30 de empresa. Com três cursos superiores – economia, ciências contábeis e administração – e duas pós, além de cursos livres, ele diz que os laços são motivadores para permanecer na Conam. “Enquanto eu estiver com o físico bom, não saio.”

Se todos fossem...

“Todos aqui são valorizados. Pelo vasto conhecimento que todos eles têm e pela generosidade em compartilhar com o restante da equipe, merecem ainda mais respeito”, completa o diretor-geral.

“Eu gostaria de ter mais gente assim, em razão do comprometimento. Isso falta na juventude, para quem pular de um emprego para o outro é a coisa mais fácil do mundo”, considera Walter. E finaliza: “Meus velhinhos... Devo tudo a eles”.

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