Quando se fala em transplante, geralmente pensamos em algum órgão, como rim, fígado, pulmão ou coração, executores de funções nobres no funcionamento do organismo humano. Porém, um novo tipo de procedimento surge com a missão igualmente sublime de aliviar um problema crônico de saúde – o transplante de fezes.

Calma, não torça o nariz para essa novidade. Ela surge para ajudar, e muito, pacientes que sofrem com infecções recorrentes causadas por uma bactéria chamada Clostridium difficile. Como o próprio nome sugere, esse micro-organismo é difícil de tão teimoso e resiste a tratamentos com antibióticos. Também tem sido estudado para o tratamento da obesidade.

A tal bactéria, que é patogênica – ou seja, provoca doenças –, está presente na microbiota, ou flora intestinal, de cerca de 20% dos adultos hospitalizados, causando diarreia em 5%, segundo a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). É um quadro clínico que pode até levar à morte.

Daí a importância do transplante. A cura que ele propicia segue a lógica da laranja podre no saco: são jogadas no intestino da pessoa doente um monte de laranjas boas para expulsar de lá as ruins e pacificar a flora. Explicando melhor: a infusão de uma solução composta de substrato fecal de pessoas sadias na região intestinal do paciente faz com que as bactérias do bem, presentes nas fezes doadas, expulsem a Clostridium difficile, recolonizando o local com microbiota saudável.

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O mesmo aconteceria no caso da obesidade. Uma dieta desequilibrada pode interferir nas bactérias do intestino, sugerem estudos. O transplante de fezes seria uma alternativa para recolonizar o intestino de pessoas obesas com a microbiota de pessoas saudáveis.

Banco de microbiota fecal

O procedimento, eficaz em 90% dos casos, é tão sério que existe até cocô na geladeira. O Hospital das Clínicas da UFMG criou o primeiro banco de fezes – ou, ainda, de microbiota fecal – do Brasil, que já conta com suprimento suficiente para cinco transplantes. As fezes são armazenadas em um ultrafreezer, a uma temperatura capaz de fazer congelar até o mais resistente dos siberianos: 80°C negativos, para aumentar o prazo de validade da “mistura”.

Há relatos de infusões pontuais realizadas no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, no Hospital Vera Cruz, em Campinas (SP), e em uma clínica de São José do Rio Preto (SP). Mas, segundo Luiz Gonzaga Vaz Coelho, chefe do Instituto Alfa de Gastroenterologia do Hospital das Clínicas da UFMG, foram casos isolados e conduzidos de forma experimental.

Saindo do forno

O transplante de fezes é uma técnica fresquinha a nível global: o primeiro banco de fezes do mundo surgiu em 2015, no norte de Cambridge, em Massachusetts, Estados Unidos. O país já tem algum know-how no assunto, uma vez que tem usado o método para curar infecções intestinais que matam milhares de pessoas todo ano por lá.

E não é preciso ter medo de se submeter ao transplante de fezes: não há contraindicações, e o paciente não sente nem cheiro de dor durante o processo, uma vez que é sedado.  A prática corresponde a uma colonoscopia, o tradicional exame de intestino, com uma diferença: há a infusão da microbiota saudável. Ela também pode ser introduzida por uma sonda pelo nariz ou por um endoscópio – equipamento usado em exames de estômago – pela boca. Não precisa perder a fome: o cocô é diluído em soro fisiológico e despejado diretamente no intestino delgado, seu habitat natural.

Com relação ao doador, não existem muitas exigências além da de um intestino saudável – e de não ter tomado antibiótico durante os últimos três meses, pois é justamente ele que abre caminho para que a Clostridium difficile marque seu território em solo intestinal. Para quem cede o cocô, é como se fosse fazer um exame de fezes – e de fato, pois ela é devidamente avaliada antes de aprovada –, com direito a potinho e tudo. E com a vantagem de dar um fim mais nobre a algo que iria parar no esgoto.

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