Por Cláudia lopes Carvalho*


O envelhecimento da pessoa com deficiência intelectual (DI) ocorre de maneira precoce em alguns casos, principalmente em pessoas com Síndrome de Down, Síndrome de Stocco e Autismo. 

Apesar da escassez de estudos sobre o processo de envelhecimento da pessoa com autismo no Brasil, sabe-se que o envelhecimento dessa população, assim como no cenário da pessoa com DI, é uma realidade cada dia mais presente.

Essa realidade não consta nos dados demográficos brasileiros, mas está presente nos espaços de convivência e em instituições que prestam atendimento especializado para este público. Esse aumento na expectativa de vida de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) torna-se um cenário de celebração da longevidade dessa população tão especial.

No entanto, o processo de envelhecimento da pessoa com TEA foi melhor compreendido e discutido em países da Europa e no Canadá, onde várias pesquisas foram realizadas visando a um melhor entendimento sobre essa temática, envolvendo as especificidades desse envelhecer.

Os dados oriundos desses países nos possibilitaram o levantamento do estado de saúde geral, condições de moradia, inclusão em espaços públicos, fatores de riscos nessa fase da vida e bem-estar.  

Entre os fatores de risco presentes no envelhecimento precoce em pessoas com TEA destacam-se: uso de medicamentos prolongados para tratamento de doenças pré-existentes, predisposição da pessoa com TEA para desenvolver comportamentos e condutas de riscos no dia a dia e declínio cognitivo subestimado (não avaliado).

No envelhecimento dessa população, além dos fatores de risco, é comum a permanência das doenças neurológicas e psiquiátricas adquiridas ainda na infância, sobrepondo às habilidades sociais e de comunicação, interesses restritos e comportamentos estereotipados.  

Apesar do panorama bem descrito da infância da pessoa com TEA, a velhice dessas pessoas é marcada pela prevalência de comorbidades associadas ao processo de senilidade, sendo estas: transtorno de linguagem, alterações sensoriais, déficits nas funções executivas e atenção, transtornos gastrointestinais, epilepsias, transtorno bipolar e ansiedade. Essas alterações impactam de maneira direta no envelhecimento da pessoa com autismo, requerendo planejamento no atendimento, avaliação e intervenção precoce.

A avaliação precoce dos sinais sugestivos de envelhecimento nessa população, torna-se um dos maiores desafios vivenciados por profissionais que realizam o diagnóstico diferencial. Entendemos que houve muitas conquistas em prol da pessoa com TEA na infância e adolescência. No entanto, percebe-se que a velhice dessa população ainda não foi descortinada.

Portanto, diante das conquistas obtidas nas áreas da inclusão, políticas, defesa e garantia de direitos para crianças e adolescentes com TEA, faz-se necessário um movimento de defensoria e busca de proteção, suporte, mediação e promoção da qualidade de vida da pessoa com TEA que envelhece.

O atendimento especializado com foco na promoção do envelhecimento ativo é recomendado para esses casos, principalmente o desenvolvimento de ações de identificação e prevenção do envelhecimento precoce ainda na fase adulta. Planejar o envelhecimento da pessoa com TEA é uma necessidade primária quando se pensa em longevidade com qualidade de vida.

Entre os desafios vivenciados pelas pessoas com TEA idosos e seus familiares, estão relacionados ao triplo estigma: autismo, deficiência intelectual e envelhecimento. Esse estigma precisa ser amenizado através da elaboração de programas de mediação e suporte especializado para conscientização da sociedade, familiares e cuidadores.

Além do triplo estigma, o idoso com TEA pode manter algumas alterações comportamentais desenvolvidas na infância. Essas alterações podem ser agravadas pelas dificuldades de comunicação e interação social, que por sua vez reforçam o isolamento social, impossibilitando um dos prazeres mais precisos da pessoa idosa: conversar, sentir-se aceito e amado.

O envelhecimento da pessoa com TEA precisa ser desmitificado, comentado e discutido entre a comunidade acadêmica, nas redes de serviços, nos equipamentos públicos e nas instituições de convivência especializadas. Além da desmistificação, algumas estratégias podem ser adotadas visando à promoção do envelhecimento das pessoas com TEA, entre elas: Rede de proteção de saúde e inclusão social. Essa estratégia foi adotada no País de Gales, França e na Dinamarca e revolucionaram a atendimento do idoso com TEA.

Enquanto nos espelhamos em estratégias bem sucedidas em países desenvolvidos, no tempo presente é possível promover o respeito pela dignidade inerente ao processo de envelhecimento, promoção da autonomia individual, incluindo a liberdade de fazer próprias escolhas, a não discriminação, a participação e inclusão plena, respeito pelas diferenças e aceitação destas pessoas como parte da diversidade humana, igualdade de oportunidades e acessibilidade. Só assim, celebraremos a longevidade da pessoa que envelhece com TEA.


*Cláudia Lopes Carvalho é graduada em Fonoaudiologia pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Tem MBA em Gestão Estratégica da Saúde, especialização em fonoaudiologia clínica com ênfase em Neurolinguística pela Universidade de São Paulo – USP; especialização em Reabilitação Neuropsicológica/Cognitiva pelo Departamento de Neurologia do Hospital das Clínicas – FMUSP; aprimoramento em Gerontologia pelo Hospital do Servidor de São Paulo. Tem experiência também na área de Fonoaudiologia, atuando principalmente nos seguintes temas: Deficiência Intelectual e Envelhecimento Humano; Reabilitação Neuropsicológica/Cognitiva; Reabilitação da Comunicação e da Linguagem no adulto e no idoso. Atua como fonoaudióloga no Serviço de Envelhecimento da APAE DE SÃO PAULO desde 2011.



Bibliografia:

Am J, Berkman KA & Perkins EA (2012). ‘Intellect Dev Disabil’, Into the unknown: aging with autism spectrum disorders 117(6);

Autism Ageing Writing Group, Baron M, Mukaetova-Ladinska EB, Parry E, Povey C (2012) ‘Ageing in people with autism spectrum disorder’. International Journal of Geriatric Psychiatry 27(2), 109-18.

Autism-in-Older-Adults Working Group, Piven J & Rabins P (2011) ‘Autism spectrum disorders in older adults: toward defining a research agenda’. Journal of the American Geriatrics Society 59(11), 2151-55.

Autism Canada, Autism Research Institute, and Pacific Autism Family Network. (2017, October). Aging and autism: A think tank round table. Bothwell, Ontario, Canada.

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