Não faltam pesquisas mostrando que o dinheiro está no topo das razões pelas quais os casais se separam, superando ciúmes e desavenças com parentes. Mas o que fazer, então, quanto o problema bate à porta? O portal do Instituto de Longevidade ouviu especialistas em finanças e relacionamento e elencou cinco atitudes que podem ajudar a enfrentar uma crise financeira no casamento.

1. Refletir

“Primeiramente, é preciso entender que o ser humano é falho, estamos suscetíveis a erros todos os dias e em todos os momentos, inclusive no âmbito financeiro”, pontua Giovana Mota, diretora da Synergía Coaching e Medicina. “Uma coisa a se observar é se o prejuízo é inconsequente, se o erro vive se repetindo. Então, o casal precisa parar e entender: qual é o motivo, qual é a dor? Trazer essa consciência é de fato importante e necessária para entender o problema.”

Na faixa dos 50 anos de idade, uma crise financeira pode abalar bastante o casamento, “principalmente se a relação não contou com nenhum planejamento ou visão de futuro bem estruturada”, pondera a coach. “Essa é uma época em que o casal provavelmente já deve estar passando para uma outra fase, talvez a da aposentadoria, de um pouco mais de descanso ou apenas da diminuição do ritmo. E, se não foi feita uma reserva ou se não há uma estruturação de qualidade de vida bem definida entre os dois, pode haver muitos danos, principalmente emocionais.”

A crise financeira, complementa, “pode gerar frustração, sentimento de fracasso e isso pode, sim, se não houver autorresponsabilidade, ocasionar, inclusive, a transferência de responsabilidade de um para o outro, o que gera grande conflito no casamento”.

2. Conversar

“Conversar é a única alternativa”, sentencia a psicóloga Luisa Bauke, especialista em conflitos familiares. “Falar sobre dinheiro pode ser chato, mas não falar pode ser catastrófico. Porque, em uma eventual crise financeira, virão à tona sensações desagradáveis, como traição por não mostrar a realidade, falta de confiança no parceiro, baixa autoestima, insegurança com relação ao futuro.”

Quando a crise financeira no casamento já é uma realidade, entrar em um embate para definir o culpado não vai ajudar em nada, diz ela. As acusações só trazem mais desgaste, e é necessário que os dois estejam abertos ao diálogo e definam estratégias de como irão lidar com o tema, a partir desse momento.


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“Os homens maduros são de uma geração em que ainda eram vistos como os grandes provedores do lar – e é muito comum cuidarem das finanças da família sem que a esposa tenha a menor ideia do que acontece. Se uma crise financeira surge, ele tende a se sentir derrotado; afinal, sente que não deu conta de arcar com seu papel.”

crise financeira no casamento. Foto: Shutterstock

Nos seus 13 anos de consultório, Luisa revela que já ouviu muitas histórias de famílias só tomarem conhecimento de uma crise financeira quando a situação se torna insustentável. “Já atendi uma paciente que o marido, demitido, saia todos os dias como se fosse ir trabalhar. Ele só contou quando acabou o dinheiro da rescisão e não tinha conseguido outro emprego. Situações como esta falam de uma geração em que o homem foi educado para dar conta de tudo sozinho, mas também fala de um casal que não conseguiu desenvolver confiança e parceria.” 

“É preciso não pirar: respirar e fazer um exercício de validar o que de bom o casal já possui”, ensina Giovana. Quando só olhamos para o que não temos, só vemos as contas, as dívidas, os problemas e, principalmente, o erro do outro. “Isso não ajuda em nada o relacionamento.”

“Romper o padrão, pensar e agradecer tudo que o casal já tem, para poder entender que, se hoje está ruim, é possível sim mudar em pouco tempo”

Mas, para conversar sobre dinheiro, é preciso buscar maturidade emocional, “senão vai doer muito abordar o tema com o parceiro e diagnosticar a situação”. Há a necessidade, diz ela, de “romper o padrão, pensar e agradecer tudo que o casal já tem, para poder entender que, se hoje está ruim, é possível sim mudar em pouco tempo”.

E dá para reverter uma crise financeira no casamento sem muito abalo? “O que vejo é que casais que têm boa conexão nos outros aspectos do relacionamento tendem a superar esse abalo e criam estratégias para tratar do assunto e evitar novas crises. Já para aqueles que não estão bem em outros pontos, uma crise financeira pode ser a gota para transbordar o que já não estava bem, dificultando que encontrem soluções para lidar com a questão”, responde Luisa. 

3. Reorganizar

Com a crise financeira instalada, o casal tem de mergulhar naquilo que deixaram de fazer, ou seja, entender e reorganizar o orçamento familiar, ensinam as especialistas. “É nesse ponto que é possível perceber a sintonia ou não do casal. Se existe um laço forte, eles irão superar isso e se reorganizarão. Mas, se a relação está desgastada, é bem provável que não consigam ir para essa etapa e se manterão nas acusações”, diz a psicóloga.

É necessário listar todas as contas, definir cortes, criar regras, pensar nas alternativas para quitar dívidas e definir a forma como irão tratar do assunto, a partir deste momento. “Não existe uma forma única e ideal para gerenciar o orçamento doméstico ou para resolver uma crise financeira: cada casal precisa encontrar a forma que se adapta a eles. Mais uma vez, a comunicação é a ferramenta principal.”

Para a coach, é importante que o casal entenda, primeiro, quem tem mais habilidade para lidar com o dinheiro e então dívida as tarefas. “Se uma das partes tem mais experiência com números, com contas, sente prazer em planilhar e acompanhar tudo que tenha a ver com o financeiro, ótimo. Já a outra parte, que não tem essa habilidade, deve se flexibilizar, então, para receber as instruções do parceiro.”

“O casal precisa compreender que cuidar do [aspecto] financeiro da família é responsabilidade dos dois. Mesmo que um fique como líder dessa atividade, ambos precisam saber sobre receitas e despesas para decidirem, juntos, quais são as prioridades”, corrobora a coach em desenvolvimento humano Sabrina Espíndola.

Uma estratégia que pode ser interessante, sugere Luisa, é fazer tentativas. “Por exemplo, após definir que um vai cuidar das contas, podem experimentar por dois ou três meses e ir monitorando e conversando, nesse meio tempo, para chegarem a conclusão se funcionou ou não dessa forma. Se funcionou, ótimo; se não, precisam repensar e testar outra alternativa.”

Na hora de definir, nas despesas, o que sai e o que entra, tudo deve ser em comum acordo, respeitando a individualidade, o valor e o propósito da outra parte. “Deve estar muito claro para o casal o que é conta individual, o que é conta em conjunto, o que faz parte do sonho comum e juntos separarem e acordarem tudo isso. Acordos são extremamente importantes para o crescimento financeiro do casal – e respeitá-los também”, diz Giovana.

Dicas práticas para enfrentar a crise financeira no casamento

- Fazer uma planilha com todas as despesas, fixas e variáveis, e as receitas, alimentando com informações mensais;

- Definir quem vai gerenciar as contas;

- Ter uma conta conjunta para as despesas da casa e contas individuais para despesas pessoais;

- Definir a contribuição de cada um com base na renda individual;

- Acordar critérios para gastos pessoais;

- Estabelecer metas para fazer uma reserva financeira.
 

4. Controlar

As regras são importantes e precisam ser formalizadas, pontua Giovana. “Precisa haver acordos bem alinhados com a visão de futuro do casal”, diz. “Então, em uma situação em que somente um dos dois trabalha, é importante ficar claro qual o tipo de contribuição que o outro pode dar para alcançarem os objetivos e não caírem em declínio financeiro.”

Ao analisar as despesas, sugere Sabrina, o casal poderá identificar quais hábitos de consumo podem mudar para sair da crise: “Por exemplo, ao invés de todos os dias tomar café da manhã na rua, o casal pode se organizar para sair de casa com ele já tomado”. É fácil fazer essa mudança? “Nem sempre, mas, para que isso ocorra, é preciso olhar mais a longo prazo para o estilo de vida que se deseja ter e que parte disso pode ser construído a partir de pequenas economias.”

A dupla tem de acompanhar essa evolução semana a semana, planejar, cobrar, estar ciente das pequenas metas alcançadas e perceber o quão perto está do objetivo. “O casal precisa celebrar, inclusive validar o processo. É preciso saber tudo o que está funcionando, celebrar para seguir e enxergar o que não está dando certo para continuar, tanto emocionalmente, quanto cognitivamente”, diz Giovana.

5. Aprender

Os casais que passam por uma crise financeira no casamento devem entender que, “se continuarem agindo da mesma forma de antes, podem até resolver o problema financeiro que surgiu, mas outros virão, porque ações iguais geram problemas iguais”, lembra a psicóloga. A grande lição que deve ter sido aprendida, ressalta, “é que é necessário conversar, conversar, conversar”.

“Se o gerenciamento é bem feito, é muito rápido perceber possíveis problemas, e a comunicação clara leva a encontrar soluções. Colocando o tema como um assunto que faz parte do dia a dia, não vai virar briga ou bate-boca, mas uma conversa necessária e que vai trazer muito mais tranquilidade e parceria ao casal.”

Porém, tão importante quanto colocar em ordem as finanças, é necessário entender o que levou a esse descontrole. “Se foi somente desorganização e falta de comunicação ou se também pode estar relacionado a questões emocionais de um deles. Se é percebido que existe algum problema, incentive o parceiro a procurar ajuda. Uma terapia pode ajudar muito, proporcionando o entendimento das emoções e evitando outras situações difíceis.”

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