Quem costuma se dar presentes durante o ano todo em geral tende a intensificar tal prática nesta época de festas e de férias – e gastar mais do que deveria ou poderia. Isso porque se trata de um período em que o marketing e a publicidade também potencializam suas ações para concretizar vendas.

Mas lembre-se: quem dá as caras com mais veemência no começo do ano são os boletos, como os do IPTU e do IPVA. Assim, maior que a felicidade de se presentear agora pode ser a de economizar recursos para as despesas que virão. Logo, surge a pergunta: como controlar gastos os por impulso?

A resposta não é tão simples quanto possa parecer. As explicações para a impulsividade gastadora são inclusive tema da neurociência, que estuda cientificamente o sistema nervoso. E esses estudos já ganharam até desdobramentos mais específicos como a neuroeconomia e o neuromarketing.

O primeiro termo se refere a um campo do conhecimento que busca entender os comportamentos nas tomadas de decisão das pessoas. Entre eles estão os gastos por impulso. Na esteira dessa especialidade vem o neuromarketing, que nada mais é do que a tentativa de compreender os fatores que influenciam o consumidor na decisão de compra para então incentivar a prática consumista.


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“Esse tipo de marketing tem sido muito explorado pelas empresas”, afirma a psicóloga Luciana Lima, pesquisadora e consultora na área de neurociência e estratégia de pessoas. “Afinal, muitos dos nossos padrões de comportamento e de tomada de decisão não são conscientes.”

Ela explica que o cérebro opera entre a consciência e a emocionalidade. As ações conscientes são processos cognitivos que planejam cenários para decisões ligadas a situações futuras. Aqui, quem fala mais alto é a razão. No entanto, o processamento das nossas emoções se dá mais rapidamente que o da racionalização de acontecimentos e perspectivas.

“O emocional chega antes”, sintetiza a pesquisadora. “Quando nossos sentidos captam determinado estímulo, já atribuímos a ele um valor positivo, negativo ou neutro. Raiva, tristeza, alegria, nojo, surpresa são imediatas, ninguém no mundo as controla.”

E, por falar em imediatismo, o cérebro também tende a buscar recompensas instantâneas, que provocam a liberação de hormônios do bem-estar e do prazer como a dopamina. Então, bingo: a compra por impulso proporciona essa satisfação imediata, sem que a decisão nem passe por um processo racional de análise. “Ele só vem depois, evidenciando o eventual estrago no orçamento e causando arrependimento”, diz Luciana Lima.

Mas, na verdade, cada pessoa tem um perfil consumista. Algumas são mais propensas aos gastos por impulso, e outras tendem mais a ser econômicas nessas horas. Segundo a especialista, tais características dependem tanto de fatores genéticos quanto de experiências vivenciadas na primeira infância, até os sete ou oito anos de idade, e também na adolescência, que é uma fase de transformações dos circuitos cerebrais.

“Se uma criança presenciou um momento de gastos por impulso do pai, por exemplo, e notou que eles deram a esse genitor um prazer imenso e o deixaram muito feliz, passa a identificar esse tipo de comportamento como positivo”, diz. “Por outro lado, se em uma circunstância parecida essa criança percebe mais na ocasião que tal gasto desmedido do pai causou sofrimento a sua mãe, carregará uma marca negativa em relação a esse tipo de atitude.”

Mecanismos de como controlar os gastos por impulso

Porém, ninguém está condenado a ser perdulário ou mão de vaca por toda a vida. E, já que estamos falando em conter os gastos por impulso, é hora de saber como criar mecanismos para reverter ímpetos consumistas que podem ser, literalmente, animalescos, segundo Luciana Lima. “Sabe quando um cachorro fica salivando em um churrasco só de ver as carnes? Pois acontece a mesma coisa quando determinada pessoa vê um comercial de uma bolsa Louis Vuitton”, compara.

O que nos faz "salivar"

Mas nem todo mundo “saliva” pelas mesmas coisas. Então, o primeiro passo de como controlar os gastos por impulso é identificar os próprios gatilhos – ou os estímulos que vão desencadear a vontade quase irrefreável de gastar. E, a partir desse autoentendimento, estabelecer ações que brequem tais fatores estimulantes.

Tomemos o exemplo de um comprador compulsivo de livros. Ele já sabe que uma visita à livraria ou a um site de vendas de obras literárias – em que o prazer pela aquisição de um volume estará a um clique de se concretizar – será uma tentação quase irresistível de comprar além da conta – ou mesmo da capacidade pessoal de leitura. Então, em um caso desses, a dica é mesmo evitar a ida frequente a esses ambientes, sejam eles reais ou virtuais.

Conscientização

A tomada de consciência dos gatilhos que levam aos gastos por impulso também é importante para o desenvolvimento de outra estratégia contra eles: a de ressignificar o valor de determinada compra, passando-o de positivo para negativo.

“Conscientização é a melhor arma contra as compras impulsivas”, avalia Juliana Inhasz, coordenadora dos cursos de graduação em economia do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa). “Saiba o que você realmente precisa comprar e mantenha o foco. Vá diretamente aos locais em que deve fazer essas compras, às gôndolas onde encontrará os produtos, e evite se perder com distrações pelo caminho.”

Mudanças de valor

Permanecendo no mesmo caso do comprador de livros, ele deve se condicionar a lembrar, a cada vez que se sentir tentado a comprar um novo volume, que essa aquisição se tornará um problema diante do estoque literário que já provoca dificuldades de armazenamento em sua casa.

Ou que, a médio ou longo prazos, a quantidade de livros comprados e ainda nem lidos que possui poderá equivaler a uma bela viagem para o exterior. Será um exercício frequente de contar até dez antes de se deixar levar pelo estímulo momentâneo e pensar em recompensas alternativas futuras, como a citada viagem ou mesmo a constituição de uma poupança para a longevidade financeira.

como controlar os gastos

Crédito: Pickingpok/Shutterstock 

“Faça planos com sua renda”, ensina Juliana. “Se você pretende comprar um sapato, uma roupa ou mesmo trocar de carro, pense em fazer isso sem criar endividamentos sem sentido. Faça uma lista de prioridades e siga à risca suas necessidades, pensando de forma estratégica a divisão de sua renda. Lembre-se de que é necessário fazer esforços para manter uma vida financeira saudável.”

Controle por escrito

Além disso, para cortar os supérfluos que são adquiridos por impulso e consomem o orçamento, a coordenadora do Insper sugere anotar tudo o que se gasta por dia em um caderno ou um aplicativo de controle financeiro. “Muitas vezes nós gastamos sem nem perceber”, afirma. “Saber onde e com o que estamos gastando é fundamental para identificar os gastos desnecessários e onde estão nossos impulsos consumistas.”

Contornando o impulso

Existem ainda maneiras de certa forma paliativas de contornar os gastos por impulso. Luciana menciona uma que ela própria utiliza. “Gosto muito de uma marca de roupas e descobri que não preciso adquirir suas peças, contento-me em ficar admirando as estampas, uma vez que são elas que me dão prazer”, conta. Depois de um tempo, dou-me por satisfeita mesmo sem possuir a vestimenta. Na verdade, tenho só uma roupa dessa marca.”

Então, não se esqueça. Não faça apenas a contagem regressiva para o Ano-Novo. Nem a do número de ondinhas puladas para ter um 2020 mais feliz. Conte também até dez antes de se entregar aos gastos por impulso. Quem vai festejar muito, nesse caso, é o seu bolso.


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