Ganhar mais, gastar bem, poupar certo e investir melhor são os quatro pilares da longevidade financeira. “Se você descuidar da base do ganhar mais, ficará sempre dependendo da sua capacidade de controlar gastos; se descuidar do gastar bem, jogará dinheiro fora com coisas que geram frustração e arrependimento”, afirma o especialista em finanças pessoais Hirbis Girolli.  

Além disso, “se não poupar na medida certa, sacrificará o seu presente em nome do futuro, ou vice-versa; e, se não investir melhor, terá que fazer um esforço extra de poupança, economizando mais do que seria necessário”, complementa o gestor de plataformas e serviços digitais da MAG Investimentos. 

Mas ele avalia que inúmeros métodos de finanças pessoais falham porque a recomendação padrão se resume a gaste menos do que você ganha. “Isso não está errado, mas não é o suficiente. Tão importante quanto respeitar os limites de gastos impostos por sua renda é fazer com que cada compra traga o maior retorno possível em bem-estar.” 

No desafio de gastar bem, observa Girolli, temos que ir além daquelas tradicionais perguntas “eu posso comprar isso?” e “eu devo comprar isso?” para “o que eu quero que esse pedaço do meu dinheiro faça por mim?”.  

“Elaborarmos perguntas a fim de termos mais respostas faz muito sentido para ter o retorno mais adequado, atingindo o que realmente desejamos”, complementa a psicóloga e neurocientista Anaclaudia Zani Ramos, pesquisadora na área de desenvolvimento humano. 

Em neurociência, explica, encontramos o estudo da evolução do cérebro humano dentro da evolução da espécie: “O cérebro primitivo reativo age espontaneamente, como lutar ou fugir da situação; o sistema límbico é a reação imediata do primitivo e eles trabalham juntos. Mas só na base de perguntas por geração de dúvidas é que conseguimos atingir o córtex, a racionalidade”. 

Mas como fazer isso? Aqui vai uma lista de providências que podem ajudar nesta tarefa.

5 passos para controlar gastos

Assumir que não somos seres racionais 100% do tempo 

“As compras são emocionais com justificativas racionais”, avalia o especialista em finanças. De modo geral, a publicidade joga iscas. Uma das mais conhecidas é a da escassez: seja de quantidade, seja de tempo para decidir. Nas plataformas de viagens, exemplifica, tem a famosa “última vaga disponível”. 

“Quando não aprendemos a reconhecer esses pequenos empurrões e nossa tomada de decisão é influenciada majoritariamente por eles, a frustração com os gastos tende a aumentar. Por isso as compras financiadas tendem a gerar gastos piores. Quando você poupa antes para gastar depois, as decisões amadurecem melhor e outros fatores, que não apenas as cutucadas publicitárias, são levados em conta.”  

Reconhecer que gastos começam por decisões emocionais 

Como consumidores, raramente temos certeza se um determinado bem trará para nós todo o retorno em utilidade e bem-estar que projetamos nele. “Até porque compramos, na imensa maioria das vezes, por razões emocionais. E usamos a razão apenas para justificar nossas escolhas”, diz Girolli. 

Um exemplo clássico – e até folclórico – é o da bicicleta ergométrica, “um dos cabides mais caros já inventados”, brinca. “Quando alguém decide comprar, projeta na bicicleta o desejo emocional de ter um corpo mais atlético. Na verdade, foi isso que ela comprou. Indo mais a fundo, talvez tenha tentado comprar aceitação e admiração. Ou ainda uma vida eventualmente menos sofrida por conta das doenças que o sobrepeso poderá trazer.” 

“Mas o que acontece com o uso? Ela descobre que a rotina com a bicicleta é chata, quase insuportável. Ela se apaixonou pela ideia de um corpo mais esbelto, mas odeia o método da bicicleta. O que acontece com o objeto? Vira um cabide e um símbolo de uma compra frustrada. Nossos armários, cozinhas, quartos, banheiros estão cheios de ‘bicicletas ergométricas’.” 

Em outra situação, acrescenta a neurocientista, “se alguém está triste – lembrando que tristeza é uma emoção vinda de uma reação a algo que aconteceu ou não e que às vezes pode ser até patológica – e, para sair desta emoção ou amenizá-la, resolve comprar algo para compensar – até porque a aquisição de algo gera prazer momentâneo –, e isso fica sem controle, ela pode gerar outros problemas a partir deste”. As soluções, segundo ela, passam pela racionalidade. 

Identificar gatilhos psicológicos que levam a gastos desequilibrados 

No seu Método das 4 Bases (clique aqui e baixe a nova versão do e-book), Girolli defende  um certo equilíbrio entre os gastos com “satisfação” (mais voltados ao lazer e às gratificações de curto prazo) e com “realização” (que são conquistas cujos resultados demoram mais a aparecer. 

 “Se eu priorizo um em detrimento do outro, esse tipo de desequilíbrio pode aparecer. Se compareço a todas as baladas e shows do calendário, sempre com aquele visual alinhado com a última tendência fashion, estou comprando muita satisfação”, explica. 

Mas e a realização, algo que é comprovadamente necessário para os seres humanos, do ponto de vista psicológico – e não tão facilmente obtido no curto prazo? “Então os anos passam e eu nunca fiz uma boa viagem, nunca conheci outras culturas ou nunca aprofundei meus estudos sob a justificativa de que ‘nunca tenho dinheiro’. Aí que as armadilhas das escolhas desequilibradas começam a aparecer.” 

“Os gatilhos”, explica a psicóloga, “estão atrelados às respostas por associação que às vezes vêm com memórias afetivas de experiências que promovem a manutenção do próprio gatilho”. As promoções são um exemplo. “É um gatilho para as pessoas, por representar a oportunidade de manter o consumo com justificativa: elas se sentem menos culpadas.” 

Desenvolver estratégias para bloquear ou dominar esses gatilhos 

Nosso cérebro é um imenso consumidor de energia e tomar decisões cansa. Portanto, criamos atalhos para tomá-las de forma mais fácil, gastando menos energia mental. Como nosso orçamento financeiro é limitado, todos os produtos competem entre si pela nossa atenção e pelo nosso dinheiro. 

“Vimos que um desses gatilhos é a escassez. Outro muito comum é o da autoridade ou da familiaridade. Se eu vejo que dada recomendação foi dada pelo dr. Fulano, antes mesmo de checar, eu tendo a tomar aquilo como verdade, porque acabei de ser impactado pelo gatilho da autoridade; afinal, se ele é doutor, deve conhecer aquilo muito bem.” 

De forma análoga, continua, “se a presença da imagem e da palavra de alguém é constante na minha vida, como um amigo de confiança ou mesmo uma celebridade que eu me identifico, fica muito mais fácil eu comprar algo depois que aquela pessoa indicou. Reconhecer essas influências é um passo importante para não permitir que elas nos influenciem em demasia nas nossas decisões de consumo”. 

A partir da autopercepção, que é a primeira ação para não ficar refém do que sentimos, podemos bloquear esses gatilhos, diz a neurocientista.  “Somente se percebendo é que a pessoa passa a ter controle e condições de manejar seus impulsos. A partir do treino, isto acaba virando um hábito.” 

Com o passar do tempo e treinando as perguntas para controlar gastos, “é possível estabelecer um diálogo na mente para planejar o consumo e se livrar de vez desse tipo de problema que gera além de prejuízos concretos, prejuízos emocionais sendo esses geração de desvalia, inconformidade e até mesmo pensamentos destrutivos”, diz Anamaria. E estes, alerta, são piores que os concretos, porque transbordam no corpo, gerando doenças somáticas. “Ter controle das próprias ações traz um prazer perpétuo, além de gerar autoconfiança, autorrealização, liberdade e paz de espírito.” 

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