Terminar o mês com o saldo bancário no vermelho tem se tornado rotina na vida de milhares de brasileiros. Até mesmo os que se consideram mais controlados com os gastos têm reclamado das dificuldades de conseguir pagar todas as contas e não sabem mais como economizar dinheiro.

De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), neste ano, o percentual de famílias brasileiras endividadas passou de 64% em junho para 64,1% em julho. O número de inadimplentes também subiu, de 23,6% em junho para 23,9% em julho. Quando comparado a julho de 2018, o percentual é de 23,7%.

Paulo Roberto Marques Jr tem 46 anos e é agente de Propriedade Industrial. Nascido no Rio de Janeiro, ele conta que sempre teve como meta economizar 10% de seus ganhos líquidos, o que vinha conseguindo sem grandes dificuldades até o início de 2019.


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“De janeiro a maio deste ano, passei pelos cinco piores meses da minha vida, e em junho me vi obrigado a entrar no cheque especial”, lamenta Marques. Para ele, a situação que ele e milhares de cariocas estão passando é reflexo da crise que se instalou no estado do Rio. “O Rio de Janeiro está com dificuldades em encontrar uma saída para a crise que se instalou. Muitas empresas estão fechando, e o estado não tem uma política de reestruturação econômica”. E finaliza: “infelizmente, não vejo luz no fim do túnel”.

A professora e ilustradora Denise Silva também passou por um problema semelhante. Ela conta que sempre conseguiu guardar cerca de 30% de seus ganhos e com isso conseguiu comprar a casa onde mora, com um financiamento curto. O carro ela pagou à vista. Os problemas de Denise começaram no início dos anos 2000.

“Passei dez anos patinando sem conseguir sair do lugar até tomar consciência da situação em que eu me encontrava”, conta a professora. “A sensação é de que só cresci até os 30 anos. Conquistei várias coisas legais, carro, casa, cresci no emprego e depois estacionei”.

“Já não era consumista, mas diminuí bastante as comprinhas bestas que acabam passando despercebidas"

Endividada, sem consegui arcar com as despesas do dia a dia, Denise se viu obrigada a recorrer a empréstimos consignados. Ao todo, foram seis, todos de pequenos valores e prazos curtos.

Mas foi somente em 2015 que Denise se deu conta que teria que mudar alguns hábitos. “Já não era consumista, mas diminuí bastante as comprinhas bestas que acabam passando despercebidas. Também parei de assumir despesas que não eram minhas. Vendi meu carro, renegociei as dívidas dos cartões e quebrei todos, agora só fiquei com um cartão”, relata.

Hoje, Denise diz que já consegue guardar uma parte do que ganha e até realizar pequenos projetos. “O próximo passo é conseguir guardar para uma reserva financeira que me dê segurança futura”, revela.

Como economizar dinheiro é algo que se aprende na infância

Para o coordenador do MBA em Gestão Financeira da FGV, Ricardo Teixeira, educação financeira é algo que as pessoas devem receber na infância. “É importante saber que, do dinheiro que você ganha, seja uma mesada, seja um presente ou o que for, você deve guardar uma parte, 10%, 15% ou 20%. Esse é um aprendizado que deve ser passado às crianças pelos pais já na infância”, defende o coordenador.

Teixeira garante que, se a pessoa desenvolver o hábito de guardar uma parte do que ganha desde a infância, chegará a uma idade em que não tenha mais condições de produzir com um acúmulo de capital que permitirá manter um padrão médio daquilo que já teve.

“Vai haver momentos que você estará com mais dinheiro, vai haver momentos em que você estará com menos dinheiro, e o que você acumulou ao longo da vida vai permitir que você chegue àquela etapa da vida em que você já não tem mais tanta vontade de produzir ou, o que é mais grave, em que o mercado de trabalho já não o aceite mais ou não esteja mais tão ávido pela sua colaboração, e que você vai conseguir manter o seu padrão de vida”, destaca. Mesmo para quem ganha pouco, Teixeira garante que a adoção desse hábito trará benefícios a longo prazo.

E se a pessoa estiver passando por um momento de aperto? Ainda assim, uma parte dos ganhos deveria ser destinada a uma poupança. Segundo Teixeira, em vez de deixar de economizar uma quantia, o ideal nessas horas de aperto é cortar aqueles gastos que não são essenciais.

“Existem prazeres que você pode ter e que são diferentes daqueles que você rotineiramente tinha, mas que não exigem que você faça investimentos, nem gaste dinheiro”, conclui o coordenador.

Erros mais comuns 

O erro mais comum que as pessoas cometem com seus salários e benefícios, na opinião de Ricardo Teixeira, é não planejar. Para evitar problemas maiores, o professor orienta que as pessoas planejem seus gastos da seguinte forma:

  1. Elencar todas as suas despesas que são imprescindíveis e que você não tem como fugir;
  2. Elencar todas as despesas que você tem como fugir, mas que gostaria de manter;
  3. Elencar todas aquelas despesas que são efetivamente supérfluas e que você poderia deixar de lado.
  4. Faça um comparativo do que você está ganhando líquido, ou seja, o que efetivamente entra na sua mão, e o que você gostaria de estar gastando;
  5. Verifique se, dentro do que está vindo líquido para a sua mão, cabem suas despesas com alguma sobra. Se não, a solução é começar a cortar aqueles itens que são supérfluos, que você poderia abrir mão;
  6. Se por acaso, mesmo assim, você continuar sem conseguir fazer uma poupança, por menor que ela seja, comece a cortar aqueles itens os quais não gostaria de abrir mão, mas que você poderia. Até chegar ao ponto em que você não pode mais cortar.

Fazer esse tipo de planejamento é importantíssimo, na opinião de Ricardo Teixeira. E não é só para pessoas em uma idade mais avançada que a crise poderá chegar. “Em um período de desemprego, um período em que você fique sem renda, normalmente se torna traumático para as famílias, e muitas vezes leva à separação dos casais por conta de uma tensão que se estabelece”. Isso acontece porque, segundo o coordenador, as pessoas estavam acostumadas a viver com um outro tipo de comportamento. “E aí, num momento em que todo mundo está estressado, você exige uma mudança de comportamento. Se essa mudança tivesse acontecido ao longo do tempo, o casal nesse caso não se sentiria tão estressado”, reforça.

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