Nova York: difícil pensar em uma cidade mais cosmopolita. É para lá que as tendências mundiais em diversas áreas convergem. E, quando falamos de gastronomia nessa metrópole americana, logo nos vêm à mente chefs renomados e restaurantes estrelados. Porém, nem a modernidade nova-iorquina resistiu a um dos apelos mais tradicionais e irresistíveis para os estômagos mais exigentes: o da comida de vó.

Afinal, é em um distrito de Nova York que fica um restaurante especializado justamente nesse tipo de iguaria. Staten Island, assim, abriga a Enoteca Maria, estabelecimento famoso por sua comida italiana regada a vinho. Mas não só.

Lá, cerca de 30 avós de várias nacionalidades preparam as refeições, de forma rotativa. Dessa maneira, a comida de vó do lugar passa pela sabedoria culinária de senhoras de países como Argélia, Argentina, Libéria, Nigéria, Polônia, República Dominicana e Síria, entre outros.

comida de vó

Ala, vó ucraniana, preparou um prato típico de seu país, o vareniki, massa caseira recheada com batata; Crédito: Divulgação Enoteca Maria.

Tudo, aliás, começou com a inspiração de uma vó em particular: a do fundador do restaurante, Jody Scaravella, um descendente de italianos que nasceu e cresceu no distrito nova-iorquino do Brooklyn.

Scaravella conta, em depoimento no site da Enoteca Maria, sobre uma vívida lembrança de quando era criança: a de sua vó Domenica, mãe de sua mãe, indo com um carrinho de compras ao supermercado e, ao passar pelas mercearias, provando frutas diversas. Quando gostava de um pêssego ou cereja, levava o item para casa. Quando não aprovava seu sabor, cuspia o pedaço do alimento no chão, com cara de nojo. 


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As avós sabem o que é bom. E, na percepção de Scaravella, são elas que carregam e transmitem as tradições familiares dos sabores da cozinha. Assim, foi essa convicção que o levou a fundar seu restaurante, há dez anos.

No início, o revezamento na cozinha da casa se dava apenas entre “nonas” italianas, provenientes de diversas regiões daquele país. Em 2015, contudo, o proprietário resolveu que a experiência gustativa que proporcionava a seus clientes poderia ser estendida aos conhecimentos gastronômicos de outras nacionalidades, em uma verdadeira iniciativa de diversidade e confraternização entre os povos.

Comida de vó: receita mineira

Então, a cada noite, as “nonas” atuam em dupla: uma italiana e uma vó “estrangeira”. Nesse meio predominantemente feminino, há ainda espaço para um único homem: o cozinheiro Giuseppe Freya, nascido na região da Calábria, na Itália. Ele é o responsável pelo preparo das massas do lugar.

 Em paralelo à realidade deliciosamente tangível da cozinha da enoteca, Scaravella criou também um verdadeiro livro de receitas virtual, compilando a sapiência ancestral de vovós cozinheiras de todo o planeta.

Esse projeto surgiu em 2011, quatro anos antes da internacionalização “presencial” do restaurante.  Pela iniciativa, qualquer pessoa ao redor do mundo pode postar a biografia de sua avó, acompanhada de três fotos e uma receita dela, escrita em seu idioma nativo. Segundo Sacaravella, trata-se de um testamento da cultura culinária de pessoas comuns.

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A brasileiríssima vó Lucia e seu camarão na moranga; Crédito: Divulgação Enoteca Maria.

Nessa galeria, podemos ver, por exemplo, a sexagenária mineira Lucia Amaral Dutra, que dá um depoimento na página da Enoteca Maria. Lucia escreve que é proveniente de uma família que “gosta muito de cozinhar saborosos pratos simples e típicos da nossa região”. 


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O dono do restaurante de Staten Island comemora o sucesso do empreendimento que montou. Muitos dos frequentadores, diz, chegam de balsa de Manhattan. E ele também contabiliza clientes da Austrália, da Inglaterra e da própria Itália.

Contratam-se avós – e aqui no Brasil!

Ao que tudo indica, o projeto de Scaravella tem inspirado donos de restaurantes do Brasil, ao menos no que diz respeito à contratação de funcionárias que têm 50 anos ou mais.

É o caso do restaurante de cozinha mineira D’Lurdes, de Águas Claras, em Brasília (DF), que abriu duas vagas para recepcionista sênior. Na visão dos dirigentes da casa, os profissionais mais velhos possuem em geral a qualidade do bom trato na relação com os clientes.

A rede paulista de franquias Divino Fogão também investe em um programa de vagas para mulheres aposentadas.

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Reprodução Facebook/@dlurdesfanpage 

Em Curitiba (PR), por sua vez, o buffet de festas Mundo Kids lançou um anúncio para uma vaga com o seguinte título: “Contrata-se ‘avó’!”.

O marketing, segundo o proprietário da empresa, Paulo Pinheiro, visa justamente chamar a atenção para a dificuldade que profissionais mais velhos têm de se colocar no mercado de trabalho.

Então, resolveu abrir uma oportunidade exclusiva para mulheres com 55 anos ou mais de idade, perfil que considera adequado para entreter o público infantil. Afinal, vó é sinônimo de carinho e atenção – além de comidas que ninguém sabe fazer como ela.

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