Tem gente que é tão obcecado por crescer profissionalmente que extrapola questões éticas em busca de uma posição de destaque no mercado de trabalho. Na maioria das vezes, no entanto, essa busca acaba em frustração e passa a prejudicar a saúde ou minar o próprio desenvolvimento da carreira, dizem especialistas.

"Muitas pessoas estão se consumindo de maneira totalmente mecânica, pouco contribuindo para a própria felicidade”, constata Vinicio Chechetto, sócio-diretor da Wisnet Consulting. “Vemos uma busca frenética por sucesso profissional. Pessoas literalmente voando de uma atividade para outra, de uma reunião para outra, todo dia, por anos. Com rostos crispados, sem ver, sentir, degustar outra coisa que não o celular, as planilhas, as metas, os resultados. Qual sucesso estão procurando estas verdadeiras 'máquinas'?", questiona.


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A consultora em desenvolvimento humano Cecília Barboza lembra a frase "O fracasso e o sucesso são impostores; Ninguém fracassa tanto quanto imagina; E ninguém tem tanto sucesso quanto imagina", do poeta britânico Rudyard Kipling, para alertar sobre a relevância das perspectivas que as pessoas carregam. Para ela, "o ser humano nutre muitas expectativas e, dependendo do ambiente no qual vive, há também grandes esperanças dos outros projetadas nele".

De acordo com ela, isso tende a gerar uma tremenda frustração, porque nem sempre se sabe o que se quer e o que se deseja, muito menos o que o outro quer ou deseja também. A solução, indica, é saber se comunicar e, sobretudo, saber escutar, sem se aprisionar em suposições que, muitas vezes, projetam suas próprias expectativas no outro.

Para Chechetto, todo mundo está em busca de segurança financeira, mas alguns ainda querem ter mais que o outro, ocupar melhor posição, ter impacto nas redes sociais ou a consideração dos outros, ser promovido e reconhecido.

“Tanto sonífero, drogas e ansiolíticos são resultado da frustração com a felicidade que se busca em ter sem ser. Acumular bens, prestígio, nome, celebridade, influência, admiração pelo corpo, pelos seguidores, pelo poder e pela posse não completam a pessoa, não a faz feliz”, diz. Para ele, a plenitude se conquista com propósito, legado, valores e sabedoria.

E dá um alerta: “Todo conforto e segurança que o trabalho pode oferecer tem sua importância, mas é apenas uma face da vida. Sacrificar sono, alimentação saudável, convívio satisfatório, exercícios físicos e outras necessidades causa desequilíbrio e impacta negativamente a concentração, o prazer, o aprendizado, o senso de segurança, a memória, enfim, a saúde”.

Crescer profissionalmente: qual o limite?

O limite se percebe quando a pessoa não tem mais tempo para conviver com amigos, para diálogos significativos, para contemplar a beleza, a poesia, a música. “Ela acaba por não mais dar importância à família, à saúde, a um lugar com tranquilidade para uma vida mais profunda, vertical e de valores. Perde-se a tranquilidade interior”, lamenta Chechetto.

A partir daí, podem surgir inúmeras patologias, geralmente síndromes como “do todo poderoso” (que esconde muita fragilidade do indivíduo) ou “do vitimizador” (que, no fundo, se sente excluído). “A sociedade atual tenta o tempo todo mostrar felicidade e sucesso no Facebook e no Instagram. Não é a verdade. Nossa história é muito mais de obstáculos do que de um caminho fluido. Superar isso é ter sabedoria”, ensina Cecília.

Muitas vezes, o obstinado pelo sucesso acaba contaminando o ambiente de trabalho e gerando improdutividade e ansiedade. Cecília pondera que muitos gestores incompetentes emocionalmente agem automaticamente assim a serviço do ego, gerando muita toxidade, com produtividade zero e engajamento totalmente mascarado. “Seu bando – nem podem se considerar liderados – acaba adoecendo ou dissimulando produtividade”, garante.

É preciso dizer não para ter mais tempo para viver. “O corpo fala, e o universo se encarrega disso, se você não parar. Por isso a dica é não permitir chegar a esse ponto. O melhor é dar um basta antes de entrar num pico de estresse”, pondera a consultora.

Segundo ela, o desafio de cada indivíduo é se aproximar de si mesmo e encontrar seu lado mais humano. "Estamos muito mercantis. Mas isso não adianta de nada sem encontrarmos paz de espírito", define. Cabe a cada um aprender com a inscrição de um santuário de Delphos, na Grécia, que diz: "Conheça-te a ti mesmo".

Para reverter essa obsessão por crescer profissionalmente, é preciso provocar o protagonismo, fustigando a análise sobre o que é possível fazer para alcançar melhores resultados. “Para isso é preciso estar inteiro, consciente e querer mudar, porque este processo vai precisar de muito trabalho”, afirma Cecília.

“Começa com uma 'parada', um breve intervalo. Escutam-se então os ‘sinais’, alguma insatisfação, um anseio por algo mais significativo. Se damos atenção, nos orientamos, buscamos, a consciência se expande”, ensina Chechetto.

Segundo os especialistas, não é nada fácil resolver tudo sozinho. Há necessidade de ter contato com outras pessoas. “Isso pode acontecer em mentorias, coaching, terapia, ioga – que ensina a fazer no seu limite, não no do outro – e voluntariado –que ajuda a entender como é possível servir o outro de modo prazeroso”, sugere.

A pressão das responsabilidades, lembra o consultor, vai existir sempre e é preciso assumi-las. “Mas não precisamos ser reféns daquela que é um peso, uma carga. Escolha não sofrer, assumindo outras formas de vida que não seja a obsessão pelo sucesso.”

crescer profissionalmente

Crédito: fizkesn/shutterstock

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