Aos 15 anos, o catarinense Walter Orthmann foi numa sexta-feira do mês de janeiro de 1938 pedir emprego na Renaux, na cidade de Brusque (SC). Na segunda-feira, começou a trabalhar. Nunca mais saiu de lá. “Quando a gente faz o que gosta nem vê o tempo passar”, diz o gerente comercial, hoje aos 94 anos, sendo 78 deles vividos ao lado de funcionários da indústria de tecidos, os quais considera “parte da família”.

Seu Walter é o funcionário com mais tempo de serviço em uma única empresa no país. Desde 2008, está no RankBrasil, o livro de recordes brasileiros, uma espécie de Guinness nacional. “Ainda quero uma vaga no Guinness porque acho que sou mesmo o mais antigo do mundo na mesma fábrica”, afirma, brincando.

Durante a carreira, ele mudou de cargo quatro vezes, teve 12 diretores como chefes e recebeu o salário em oito moedas diferentes. Até a empresa _ hoje RenauxView _ mudou de nome quatro vezes. Mas o carimbo do empregador na carteira de trabalho permaneceu o mesmo. “Sou o funcionário número 130”, pontua.

Do tempo em que começou na fábrica, como empregado da expedição, enrolando, etiquetando e separando os tecidos que mais tarde seriam vendidos aos clientes, ele guarda na memória o primeiro valor do salário: “Foram 100 mil réis e, na época, era um dinheirão”.

Até os 21 anos, o salário foi entregue ao pai, um tecelão descendente de alemães, que, segundo seu Walter, dava a ele uns “troquinhos” aos finais de semana para brincar com os amigos.

“Sempre gostei de trabalhar. Aos 8 anos, já ajudava a limpar o jardim da casa de meu professor para conseguir me manter na escola alemã, onde estudei. Depois, mais tarde, meu pai comprou uma bicicleta usada para eu percorrer o caminho de casa até a fábrica. Eram uns bons quilômetros.”

“Comecei a trabalhar antes mesmo de o presidente Getúlio Vargas criar as leis trabalhistas”

Com a magrela, seu Walter, assim que assumiu o cargo de office-boy, buscava, no correio da cidade, a correspondência dos diretores da empresa e, no banco, o dinheiro para pagar o salário de 400 empregados da empresa.

Walter Orthmann Walter Orthmann aos 15 anos, quando começou a trabalhar como office-boy na indústria de tecidos; crédito: Arquivo Pessoal

“Comecei a trabalhar antes mesmo de o presidente Getúlio Vargas criar as leis trabalhistas. Só depois é que veio a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho, criada por um decreto-lei em 1943).”

Do escritório ao setor de faturamento, mais alguns anos se passaram até ele descobriu sua vocação: gostava mesmo era de vender, de viajar, de conhecer de perto os clientes. “Sou um negociador muito bom.”

De 1955, quando começou a ir de ônibus atrás de clientes em São Paulo e no Rio, até quatro anos atrás, aos 90, ele ainda passava três meses e meio do ano viajando pelo Brasil, de norte a sul, para levar as novidades à clientela.

“Ainda hoje dou umas voltinhas por aí”, brinca, ao lembrar a última vinda para São Paulo em maio deste ano. “Atendo clientes que já estão na terceira geração. Negociei com o pai, com filho e agora trato com os netos. Gosto de viajar, mas agora dou assessoria aos gerentes mais novos, eles vão e eu fico. Muitos aprenderam comigo.”

É essa combinação de funcionários jovens e mais experientes que faz, na opinião de seu Walter, uma empresa crescer e proporcionar um ambiente de trabalho equilibrado, com a troca de conhecimento entre novos e velhos empregados.

“O ambiente de trabalho é tudo dentro de uma empresa. É preciso dar chance a todos, respeitar todos e todo tipo de trabalho, do faxineiro ao diretor. Todo trabalho é digno.” Ao chegar à fábrica, hoje com cerca de 700 empregados, ele conta que ainda faz questão de abraçar os que passam por sua sala ou cruzam seu caminho até o escritório.

Na sua sala, uma relíquia está sempre à mão: uma antiga máquina de escrever que ocupa o lugar do computador e ainda é usada para fazer relatórios se necessário. “Sou craque”, diz ele, sem falsa modéstia. Mas o que o seu Walter prefere mesmo é escrever, fazer anotações em cadernos, com uma “caligrafia de professor”, como faz questão de frisar. “Sei cada venda feita, o preço, o produto, o prazo. E localizo a informação mais rápido do que quem for procurar na internet. Tenho uma agenda para cada ano e guardo tudo.”

Walter Orthmann Walter Orthmann, que hoje assessora os gerentes mais novos; crédito: divulgação/Renaux

A internet, aliás, é para “de vez em quando”. “Senão fico louco. Só acesso se for preciso buscar alguma informação de estoque ou algo assim. Esse negócio de ficar conversando pela internet virou doença”, brinca.

“Não penso o que vai ser o futuro, prefiro viver o hoje. O futuro é agora.”

A rotina de trabalho começa às 6h30 da manhã, com exercícios feitos em casa, em aparelhos e em uma bicicleta ergométrica. “Cuido da saúde, faço constantemente exames e não abro mão de laranja lima, mamão, frutas, iogurte, pão e chá no café da manhã. Tem de se alimentar bem para ter saúde e trabalhar bem.”

O trajeto até a empresa, onde costuma chegar às 8h, é feito de carro. “Adoro dirigir.” A parada para o almoço é feita das 11h45 até às 13h, quando ele retorna para casa e almoça com a família. O expediente vai até 17h.

“É uma vida aqui dentro, com muito prazer. São quase oito décadas de uma rotina que me faz muito bem.” As férias, para ele, são quase forçadas, tiradas na marra. “Fiquei uns dez anos sem férias, mas agora o pessoal me obriga e tenho que respeitar. Fazer o quê?”

No período de descanso, que ele prefere passar em casa, diz se sentir até meio perdido. “Esse negócio de ficar em casa, ‘enchendo o saco’ da mulher, não é para mim, não”, diz, rindo de novo.

Ele tem apoio da família para continuar fazendo o que mais gosta: trabalhar. “Fiquei viúvo jovem, aos 55. Três anos depois, casei com uma moça de 27 (hoje com 63). Tenho oito filhos, oito netos e quatro bisnetos. Todos me apoiam e não me pedem para parar. Sabem que não vou atender mesmo...”

Walter Orthmann Carteira de trabalho de Walter Orthmann tem um único registro; crédito: Reprodução

Praticou vôlei, basquete e boliche por anos. Hoje, a canastra, jogada com os amigos nas noites de quinta, sexta e às vezes aos sábados, ajuda a exercitar a mente. “Tem de cuidar da saúde, do corpo e da cabeça.”

Aposentado desde 1978, ele conta que prefere a rotina do trabalho. “Se tivesse parado, acho que não estava vivo.” Os sonhos e o futuro dão lugar ao dia a dia. “Penso que amanhã é apenas mais um dia, em que você vai acordar, vai se levantar e vai viver. Não penso o que vai ser o futuro, prefiro viver o hoje. O futuro é agora.”

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