No mês passado, um tema ganhou destaque nos noticiários: o suicídio. Foi trazido à tona primeiro pela estilista americana Kate Spade, 55 anos, encontrada morta em seu apartamento no dia 5. Depois, pelo escritor, chef e apresentador Anthony Bourdain, que morreu aos 61 anos, no dia 8, em um hotel parisiense.

Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, esse é um problema de saúde pública crescente. Lá, o índice de suicídios aumentou 25% em menos de duas décadas, segundo o CDC (Centro para o Controle e Prevenção de Doenças). Aqui, de 2011 a 2015, o crescimento foi de 11,9%, de acordo com o Ministério da Saúde.

Nesse período, no Brasil, um grupo despontou como mais vulnerável: o de pessoas com mais de 70 anos. Enquanto a média nacional foi de 5,5 por 100 mil habitantes, esse grupo teve taxa de 8,9, seguido por quem tem de 50 a 59 anos (8), 40 a 49 anos (7,9) e 60 a 69 anos (7,7).

“O suicídio possui causas multifatoriais que, em sua maioria, conversam entre si”, assinala Antônio Geraldo da Silva, diretor e superintendente técnico da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e presidente eleito da APAL (Associação Psiquiátrica da América Latina). Aspectos biológicos, como a presença de transtornos psiquiátricos, combinados a estressores, como separação conjugal ou problemas financeiros, são fatores de risco, bem como indicadores psicossociais e demográficos, tais como estado civil, idade e situação laboral.

Na população com 70 anos ou mais de idade, os fatores principais são doenças graves, luto e queda de renda, explica o psiquiatra Cláudio Duarte, do Hospital Santa Mônica. Antônio acrescenta ainda “sensação de estar dando muito trabalho aos familiares e de se sentir um ‘peso morto’ para os outros”.

Mas 90% dos casos poderiam ser evitados, segundo a Organização Mundial de Saúde. Para reduzir o número total em 10% até 2020, o Ministério da Saúde lançou, no ano passado, uma agenda estratégica. Entre as ações estão a capacitação de profissionais, a orientação à população e aos jornalistas, a expansão da rede de assistência em saúde mental nas áreas de maior risco, o monitoramento anual e a criação de um Plano Nacional de Prevenção ao Suicídio.


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“Todos deveriam saber oferecer o primeiro acolhimento [a quem corre risco de suicídio], não apenas os profissionais de saúde”, considera o psiquiatra. Se houver a desconfiança de que alguém próximo está em perigo, é preciso abordar o tema com delicadeza, sem julgamentos e sem receio, já que falar sobre isso não aumenta o desejo de cometer suicídio.

Sinais de alerta

Ainda que, isoladamente, possam não significar que uma pessoa tenha ideias suicidas, é preciso estar atento a:

- tentativas prévias de suicídio;

- aparecimento ou agravamento de problemas de conduta ou de manifestações verbais durante pelo menos duas semanas;

- conversas frequentes sobre morte e suicídio;

- falta de esperança, culpa, baixa autoestima e visão negativa da vida e do futuro;

- comentários como “vou desaparecer”, “vou deixar você em paz”, “eu poderia dormir e não acordar mais”;

- isolamento social;

- automutilação;

- uso de álcool e drogas;

- transtornos mentais, como depressão;

- comportamentos perigosos, como dirigir em alta velocidade;

- fatores que possam deixar a pessoa vulnerável, como desemprego, preconceito, discriminação e agressões.

O que fazer caso conheça alguém

- Esteja aberto para ouvir e oferecer apoio;

- “Deixe claro para a pessoa que você está ali ao lado dela, está escutando e não vai deixá-la sozinha. Pergunte claramente se pensa ou se quer cometer suicídio e verifique se ela tem acesso fácil a meios de realizá-lo”, recomenda Antônio;

- Incentive a buscar auxílio com um médico, um profissional de saúde mental ou um assistente social e se ofereça para acompanhar na consulta;

- Em caso de perigo imediato, fique ou busque alguém (serviço de emergência, familiar ou profissional especializado) para permanecer com a pessoa;

- Se moram juntos, livre-se de armas, pesticidas ou medicamentos que possam colocar a vida da pessoa em risco.

O que não fazer caso conheça alguém

“Não é adequado ficar falando para a pessoa para ter força, coragem ou fé, ou ainda, para deixar de preguiça ou frescura”, destaca Antônio. “A pessoa que pensa em suicídio está vendo as coisas sob uma ótica diferente e reforçar estes aspectos pode fazer com que o indivíduo se sinta pior por não estar conseguindo atender às expectativas dos amigos e familiares.”

O que fazer se você pensa em suicídio

Para Cláudio, o primeiro passo para quem se sente vulnerável é desabafar com alguém próximo, que possa dar acolhimento e conforto. É possível ainda entrar em contato com o CVV (Centro de Valorização da Vida), que conta com profissionais treinados para auxiliar, por meio de chat e e-mail. A organização também atende pessoalmente (clique aqui para conhecer os endereços) e por telefone (188) – as ligações, desde o fim de junho, são gratuitas, graças a uma parceria com o Ministério da Saúde.

Buscar ajuda especializada é altamente indicado, diz o psiquiatra. Entre elas estão CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e Unidades Básicas de Saúde (saúde da família, postos e centros).

A ideia de suicídio “é uma circunstância que pode mudar. Com apoio e medicação, é possível reverter o quadro em poucas semanas”, afirma Cláudio. O tratamento pode ajudar a recuperar a esperança e o desejo de viver.

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