Atire a primeira pedra quem nunca sentiu tristeza, raiva ou medo durante a pandemia. A longo prazo, no entanto, esses sentimentos criam um verdadeiro caos em nosso sistema hormonal e imune. Essa cascata desencadeada pelo estresse, mais conhecida como resposta de fuga ou luta, se não debelada, é responsável pela diminuição da nossa resistência natural interna, abrindo as portas do nosso organismo não só para doenças infecciosas, mas também para a piora de doenças crônicas e até mesmo para o aparecimento de novos problemas de saúde”, afirma Jean Rafael, coordenador da disciplina de Saúde, Ciência e Espiritualidade da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). 

Para evitar isso, é preciso lançar mão de ferramentas que causem efeitos positivos no nosso corpo. E quais seriam? Especialistas dizem que a prática de gratidão e resiliência faz com que as pessoas se adaptem melhor à situação pela qual estamos passando.  “Se hoje colocarmos a palavra gratidão no buscador da PubMedpor exemplo, vamos encontrar mais de 1.400 pesquisas – e todas sugerem que gratidão e resiliência podem, sim, ter impactos benéficos no nosso bem-estar físico e na nossa qualidade de vida. Elas podem auxiliar no controle da dor, na imunidade e na sociabilidade, interferindo até no nosso sucesso profissional”, diz. 

Além disso, pontua o médicoa gratidão também impacta diretamente no aumento da resiliência, uma vez que pesquisas em neurociências evidenciam que ela acessa áreas cerebrais que estimulam o freio da cascata do estresse, diminuindo, assim, o impacto crônico das respostas no nosso corpo físico”. 

Mestre em psicanálise clínica, Maurício Sita observa que “a resiliência não nos torna impermeáveis a tempestades, nem inatingíveis em crises, nem invulneráveis.  O resiliente não é um super-homem, mas seu grande diferencial é que usa todas as experiências, principalmente as mais difíceis e dolorosas, para crescer e evoluir”.  E faz uma metáfora: “O resiliente, como as árvores aparentemente frágeis, mas duradouras, verga ante os ventos fortes, mas não quebra. Aprende a suportar pressões, sem permitir que deixem marcas profundas. Ele sabe que o mundo é altamente competitivo, mas é assim para todos, e então passa a gostar da competição. Descobre que também gosta das calmarias da zona de conforto, mas não tem medo de sair dela. Sabe que nasceu resiliente e, por descobrir os benefícios disso, faz do seu aprimoramento um exercício constante”. 

O que é resiliência e como treiná-la 

Resiliência é a capacidade que o ser humano desenvolve de, frente a eventos adversos da vida, desenvolver formas de ressignificar estes processos, que geralmente causam dor, em uma força capaz de levá-lo a continuar seguindo em frente. Quando treinada, ela nos permite crescer em meio à adversidade, encontrando a saída e alcançando maior qualidade de vida em meio ao caos”, diz o médico da Ufal. 

Na saúde, segundo ele, já é comprovado que pacientes com o mesmo problema apresentam respostas diferentes: enquanto o que ignora ou não acredita na própria capacidade de gerar resiliência se curva aos efeitos da doença, o paciente que conhece e aplica em si a resiliência reage com notável capacidade de recuperação.  

O processo de meditação, ressalta Rafael, é uma ferramenta que ajuda a exercitar a resiliência, já que permite um mergulho interior, abrindo uma conexão para acessar nosso campo interno para desenvolver novas condutas, hábitos e formas de pensar frente a um processo doloroso. 

Para Sita, criador do método neomindfulness, e autor do recém-lançado  “Neomindfulness – Mude Sua Vida em Sete Semanas”, há conceitos errados com relação ao que seja meditação: “Diferentemente do que muita gente pensa, meditar não é parar para pensar, não é focar um assunto ou um problema e meditar a respeito. É justamente o oposto disso: meditar é o não pensar, entrar para o vazio universal. Meditar é um ato de limpar a mente e relaxar o corpo”. 

10   atitudes para treinar a resiliência 

O que é gratidão e como treiná-la 

Quando nos tornamos disponíveis e flexíveis às circunstâncias da vida, agradáveis ou não, elas se tornam importantes ferramentas para percebermos melhor nossas reações e, assim, nos conhecermos melhor e, com isso, adquirirmos mais perseverança, determinação, acolhimento, aceitação, decisão, senso crítico e muita vontade”, explica o professor da Ufal. 

Neste processo de autoconhecimento, observa, descobrimos que agradecemos pouco – e, mais que isso, descobrirmos que agradecer mais pode nos ajudar. Muitas pessoas, no entanto, confundem gratidão profunda com a gratidão moral, que, por exemplo, praticamos quando agradecemos por ganhar um presente. “A gratidão é algo mais profundo, algo que nos conecta”, diz. 

Segundo ele, que é autor do livro Ciência da Gratidão: Como Prevenir as Doenças da Mente e Aplicar o Gerenciamento de Estresse”, pesquisas de neurociências revelam que “a gratidão conecta áreas cerebrais que melhoram nossos sistemas hormonal e imune, nos levando a ver a vida sob outro ângulo, com uma perspectiva nova diante de tudo pelo que estamos passando. 

Além do diário da gratidão (no qual todos os dias você enumera 3 motivos pelos quais você é grato e por quê), existem vários exercícios eficientes: ao acordar de manhã, você pode simplesmente agradecer por um novo dia – e hoje, mais do que nunca, por estar respirando e com saúde; ou você pode escrever para alguém agradecendo por alguma coisa que essa pessoa fez para vocêOu, quando for pagar uma conta, em vez de reclamar, pensar em quantas pessoas e famílias você está beneficiando com aquele dinheiro”enumera. 

Outro ponto importante, observa, “é a gratidão íntima, fundamental para nossa felicidade: agradecer a nós mesmos”. E, por fim, “sermos gratos a todos os momentos ruins e a todas as dificuldades pelas quais passamos na vida, pois, sem tudo isso, não teríamos chegado até aqui”.  

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