Bater uma bolinha no final de semana é uma delícia. Um hábito tão costumeiro e divertido que seus praticantes nem parecem ver o tempo passar. Mas o futebol com amigos demanda cuidados frequentes com o corpo, sobretudo quando ficamos mais maduros.

Mesmo a cadência das partidas precisa ser modificada, segundo o administrador de empresas Roberto Trudes, 58 anos. “Entre os participantes nas casas dos 30, 40, 50 e 60 anos, é nítida a diferença de ritmo dos jogos”, diz ele, que frequenta o clube Copercotia, nas proximidades da rodovia Raposo Tavares, em São Paulo.

Tal discrepância entre gerações, aliás, fez com que Roberto abandonasse o futebol que semanalmente praticava com os colegas de trabalho – ele é gestor escolar. “Começaram a entrar os filhos dos mais velhos, e, em determinado momento, os mais jovens eram maioria”, diz. “Um moleque de 16 ou 17 anos tem um ímpeto nas divididas que pode machucar um 50+, por exemplo”, avalia.

Sede ao pote

O administrador tem autoridade para analisar o esporte. Trudes foi árbitro assistente profissional, o famoso bandeirinha, filiado à CBF (Confederação Brasileira de Futebol) até os 44 anos. No período em que exerceu a função, é bom que se diga, fazia exames de saúde regulares – eram pré-requisito para atuar nos campeonatos – e tinha uma forma física exemplar.

Ele conta que, ao parar com a arbitragem, ficou algum tempo sem se exercitar. Mas sentiu falta do futebol e decidiu retornar a esse universo, tornando-o uma opção de lazer. Passou a jogar futsal durante a semana e futebol de campo aos sábados e domingos.

Foi nessa ocasião que descobriu, de uma maneira nada positiva, que a prática esportiva, mesmo quando é realizada como uma saudável brincadeira, requer seriedade na preparação física. “Rompi o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo em um lance em quadra”, afirma. “Não estava com a musculatura muito em ordem.”

Olho: “Sem a operação, não poderia voltar a jogar”

A recuperação levou nove meses – “os caras mais jovens ficam bem em seis”, compara. E envolveu uma cirurgia, pela qual o ex-bandeirinha optou por amor ao futebol. “Poderia me tratar de outra forma, mas, sem a operação, não poderia voltar a jogar”, explica.

Lição aprendida no futebol com os amigos

Esse acidente aconteceu há cinco anos. E serviu de lição para o administrador, que atualmente não dispensa as pedaladas na bicicleta e os alongamentos para evitar contusões durante os jogos com bola. São, inclusive, orientações do fisioterapeuta que o acompanhou ao longo do tratamento.

Essa preparação vale para qualquer fase da vida, segundo o cirurgião cardiovascular Marcelo Sobral. “É preciso desmistificar a ideia de que, com o aumento da idade, praticar exercícios faz mal”, afirma. “O que se mostra necessário é buscar condicionamento e respeitar os limites do próprio corpo.”

Condicionar-se para a prática esportiva não é algo que se consegue da noite para o dia. Ou jogando futebol com os amigos uma vez por semana.

“Para manter os benefícios vasculares, cardíacos, energéticos e hormonais obtidos com o exercício, ele precisa ser realizado em intervalos de até 72 horas”, esclarece o especialista. Ou seja: não dá para sair do sedentarismo sem se exercitar a cada três dias, pelo menos. “Se ficar mais tempo que isso parado, é como se fosse partir do zero de novo”, alerta.

Checkup regular

Outra máxima muito válida é começar aos poucos, sem querer dar uma de Usain Bolt – o ex-velocista jamaicano multicampeão olímpico e mundial – logo de cara. Também importantíssimo: fazer checkups anuais, especialmente das condições cardiovasculares.

“Não é porque a pessoa não costuma sentir algum mal-estar que ela não tem qualquer problema de saúde”, alerta Sobral. “Ela pode ter alguma doença nas coronárias, ou algum tipo de arritmia que só é deflagrada em frequências cardíacas mais elevadas. Ou mesmo ser um hipertenso não diagnosticado, o que pode levar até a um quadro de AVC [acidente vascular cerebral] durante a atividade física”, pontua. “Ou ainda possuir uma anomalia congênita, como o sopro cardíaco.”


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O cirurgião relata o caso de um paciente seu, na faixa dos 40 anos, que, ao jogar futebol, “teve um pico de pressão que fez com que sua aorta rasgasse”. Trata-se da maior e mais importante artéria do corpo humano, e esse homem só não morreu porque Sobral o operou às pressas.

O coração nem sempre é o que sofre primeiro com a falta de preparo físico, como constatou Roberto Trudes ao machucar o joelho. “Também há forte tendência a haver distensões musculares, doenças articulares, entorses ou agravamento de problemas na coluna com as pisadas durante o exercício”, lista Marcelo Sobral.

O futebol com amigos é uma delícia. E uma ótima maneira de promover também a socialização. Para que a atividade não se torne uma dor de cabeça – ou em algum outro lugar do corpo –, basta tomar algumas precauções.

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