O recado vem no exame de sangue, mais precisamente na glicemia de jejum, que, como o próprio nome já diz, dosa a quantidade de açúcar circulando no organismo. Quando alterado, alguns médicos usam o termo hiperglicemia intermediária; outros, pré-diabetes ou risco elevado de desenvolver diabetes. Seja qual for, o diagnóstico traz um alerta: é um sinal do corpo pedindo hábitos saudáveis.

“O pré-diabetes é uma condição em que os valores de glicemia estão acima dos níveis considerados normais, mas ainda abaixo dos valores para o diagnóstico de diabetes. Não é considerada uma doença em si, mas tem o potencial para se tornar uma”, explica

Lilian Kanda, endocrinologista do Hospital Santa Cruz, mestre em em Diabetes pela Escola Paulista de Medicina e membro da American Diabetes Associations.

Segundo ela, no pré-diabetes, “algumas alterações já estão presentes, como resistência à ação da insulina, redução da função da célula beta do pâncreas [responsável por sintetizar e secretar o hormônio insulina, que regula os níveis de glicose no sangue] e um certo aumento no risco de doença cardiovascular, do rim ou da retina”.


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Embora as sociedades médicas discordem em relação à nomenclatura, estudos revelam que “intervenções no estilo de vida nesta condição geram excelentes resultados”, diz a endocrinologista. As evidências mais fortes foram fornecidas pelo Diabetes Prevention Program, que mostraram que mudanças na dieta e aumento da atividade física reduziram em 58% a incidência de diabetes em um período de três anos.

Outros três grandes estudos de seguimento sobre intervenções no estilo de vida para prevenir diabetes tipo 2 indicam “uma redução sustentável na taxa de conversão”, de acordo com a endocrinologista: 43% de redução em 20 anos no Qing Study; 43% em 7 anos, no Finnish Diabetes Prevention Study; e 34% em 10 anos no Diabetes Prevention Program Outcomes Study.

Pré-diabetes: aviso de um caminho que pode não ter mais volta

Paulo Camiz, clínico-geral e geriatra no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, diz que o diagnóstico de pré-diabetes “serve como um alerta para a pessoa que ela está num caminho que pode não ter mais volta”. E lembra que, neste momento, “a intervenção não precisa ser medicamentosa”, mas sim de “orientação para hábitos saudáveis”.

Uma outra maneira de encarar o diabetes, segundo o geriatra, é como um desequilíbrio na quantidade de músculo e gordura do corpo. Isso porque a gordura tira o efeito da insulina no organismo e com isso o açúcar tende a subir; e o músculo tira o açúcar do sangue. “Baixa musculatura e excesso de gordura são os maiores problemas para você evoluir para o diabetes”, diz ele.

“Então, se a pessoa só faz dieta, que é importante, mas sem um programa de atividade física regular, ela não perde só gordura, uns 20% a 30% vão ser de músculo. E, com isso, ela pode arrumar um problema maior lá na frente, que é uma sarcopenia, que é uma carência de músculo”, alerta.

Como saber se você está com pré-diabetes?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) usa os seguintes parâmetros para identificar indivíduos com pré-diabetes, hiperglicemia intermediária ou risco aumentado para o desenvolvimento de diabetes:

- glicemia de jejum entre 110 e 125 mg/dl

- glicemia de 2 horas após o Teste Oral de Tolerância a Glicose com 75 g de glicose (curva glicêmica de 2 horas com 75 g) entre 140 e 200 mg/dl

Qual é a diferença entre os dois? A glicemia funciona como uma fotografia instantânea, que mostra a quantidade de açúcar no sangue no minuto da coleta. E a hemoglobina glicada seria um "filme", que apresenta a concentração média de açúcar no sangue nos últimos 3 meses. Os dois exames juntos são importantes para o diagnóstico.

Quais os sintomas do pré-diabetes?

São o que os médicos chamam de polis:

  • poliúria (urinar demais)
  • polifagia (comer demais)
  • polidipsia (ter muita sede)

“Traduzindo para a linguagem leiga, fazer muito xixi, tomar muita água e comer muito e frequentemente não ganhar peso por isso, a não ser que a pessoa coma muito mais do que está perdendo de glicose pela urina, que é um dos motivos que faz com que o diabético perca peso”, explica Camiz.

O pré-diabetes atinge mais o público acima de 45 anos, tanto homens quanto mulheres, segundo Lilian: “Os estudos epidemiológicos variam com a diferença entre os sexos, sendo que alguns norte-americanos e chineses mostraram uma pequena tendência a uma prevalência de pré-diabetes maior em homens do que em mulheres”.

Como prevenir o pré-diabetes

Para não desenvolver o diabetes, a endocrinologista dá a receita: "A associação de uma dieta equilibrada, livre de gorduras saturadas, com o emagrecimento de pelo menos 7% do peso e atividade física de cerca de 150 minutos por semana (dividida em 3 vezes pelo menos, não podendo ser menor do que 10 minutos e não necessitando ser maior do que 75 minutos em cada dia) pode reduzir em até 58% o risco”.

 Manter um estilo de vida saudável, pontua ela, é a melhor forma de prevenir não apenas o diabetes, mas diversas doenças que podem impactar a qualidade de vida. “Não é interessante a administração abusiva de medicamentos, mas dar motivação para mudança de hábitos. E que não precisam ser radicais: evitar o carro em pequenas distâncias, usar escadas ao invés de elevadores e escadas rolantes, comer com atenção e ter consciência das quantidades já são um bom começo para a prevenção.”

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