Mobiliário flexível e funcional, facilidade de manutenção e tecnologia para o manejo seguro de eletrodomésticos. Essas são algumas das muitas ideias que a arquiteta Maria Luisa Trindade Bestetti, especializada em gerontologia ambiental, defende para os projetos de adequação e acessibilidade das moradias de pessoas idosas.

Hoje atuando como professora no curso de Gerontologia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (USP), ela faz questão de enfatizar que a ambiência (ou o meio ambiente) influencia a sensação corporal humana e deve ser vista através de aspectos físicos e emocionais.


Olhe para os cantos da sua casa. Em qualquer lugar pode acontecer um acidente, não é? Proteja-se dos imprevistos e contrate um seguro de acidentes pessoais. Clique aqui e veja o valor das mensalidades.


Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Como a ambiência (ou o meio ambiente) influencia a sensação corporal humana?

Ambiência é mais do que espaço geométrico, é também espaço de encontro entre sujeitos, considerando o conforto em todos os seus aspectos. Se pensarmos nas questões do ambiente físico, o clima altera temperatura, ventilação e insolação, assim como o dia a dia da cidade gera ruídos e cheiros diversos.

Quaisquer desses aspectos, quando fora da média, podem incomodar. E daí vem o ambiente emocional, que também pode alterar as sensações humanas e gerar desconforto. Portanto, a ambiência deve ser vista através de aspectos físicos e emocionais.

Por que isso é importante no envelhecimento?

Qualidade de vida é um atributo relativo, dependente de aspectos culturais, étnicos, familiares, enfim, é o desejo de todos, mesmo que não percebido claramente. O envelhecimento é um processo ao longo do qual buscamos prazer, seja físico ou emocional, de modo a mantermos a saúde em boas condições. Reconhecer os impactos da ambiência no envelhecimento deve levar em consideração os lugares onde trabalhamos e a moradia.

A arquitetura voltada ao envelhecimento com qualidade precisa levar em conta várias faixas etárias para focar na longevidade humana?

Certamente, pois todos desejamos chegar nessa fase da vida chamada velhice com boa saúde. A casa como abrigo deve, também, ser o lugar do acolhimento, do descanso e da harmonia.

A arquitetura procura atender os desejos e as necessidades do homem, oferecendo ambientes construídos compatíveis com a dinâmica de vida de cada grupo social. Espaço construído é a casa, o bairro e a cidade, com todos os seus itens programáticos necessários à convivência humana.

Portanto, o espaço físico impacta diretamente no processo de envelhecimento, e a arquitetura tem a responsabilidade de projetar bons modos de morar ao longo de toda a vida.

Quais são os fatores mais importantes a serem levados em conta quando se pensa em arquitetura voltada para idosos? 

Se partirmos do princípio de que há perdas significativas na velhice, podendo ser físicas ou cognitivas, primeiramente o que precisa ser incorporado aos nossos projetos é a necessidade de acesso com menor risco de quedas e incidentes indesejados. E não seria somente evitar degraus ou tapetes soltos.

É preciso pensar também em mobiliário flexível e funcional, em facilidade de manutenção, em uso da tecnologia para condições seguras no manejo de eletrodomésticos. Mas, acima de tudo, é preciso focar em questões programáticas, aquelas que determinam quais espaços e define como serão compostos para atender os desejos e necessidades do idoso.

Que tipo de soluções a arquitetura já criou levando em conta as perdas físicas do idoso?

Hoje se utiliza a tecnologia como um significativo coadjuvante para as diversas situações de mobilidade reduzida, seja em esteiras, elevadores, dispositivos de apoio, sistemas de ajuda ao cuidado em AVDs (atividades da vida diária) e controles remotos para acionamento de eletrônicos.

Os cuidados com acessibilidade têm sido constantemente estudados, tais como os definidos pela Norma Brasileira NBR 9050, já em sua terceira edição em 2015, que aprimora os detalhes construtivos de modo a prevenir quedas e esforços desnecessários, desde alturas para o alcance até espaços para circulação, com tamanhos de degraus, inclinação de rampas, empunhadura de corrimãos e tipos de pisos adequados para baixa visão.

“Ter prazer em receber no lugar onde imprimimos nossas marcas e gostos complementa o conforto”

Que fatores do ambiente podem gerar desconforto em idosos?

Há muitos, desde a distância de banheiros e suas dimensões até a falta de iluminação adequada. Altura de assentos, desde o sanitário até os sofás da sala, que devem ter braços para auxiliar o esforço de levantar, podem causar desconforto. Também as portas de armários, quando altas, podem significar dificuldades ou gerar pancadas na cabeça, quando esquecidas abertas. Fios atravessados, muitas vezes consequência do acréscimo de eletrodomésticos sem a quantidade necessária de tomadas, podem causar acidentes. Outros exemplos são forno a gás baixo ou micro-ondas alto.

Há solução para todos?

Sim, quando se adotam sistemas mais leves e seguros, assim como alturas corretas e com apoios adequados. É preciso avaliar quais são os limites naquele momento e à frente, para que se evitem situações perigosas.

Se a habitação tiver critérios térmico, acústico, visual e espacial adequados é suficiente para garantir o bem-estar do morador idoso? Por quê?

Esses critérios dependem de uma avaliação das características de cada idoso, mas é possível criar boas condições de conforto a partir de projetos arquitetônicos ajustados ao clima e ao terreno.

Além do conforto físico, no entanto, precisamos estar felizes: este é o bem-estar psicológico, o que justifica a arte através das diversas formas de expressão. O bem-estar social é aquele que preenche esse espaço, através dos encontros com pessoas queridas, sejam familiares ou amigos. Ter prazer em receber no lugar onde imprimimos nossas marcas e gostos complementa o conforto.

“Há algumas iniciativas que possibilitam a intergeracionalidade, mas ainda são tímidas em relação ao potencial que oferecem”

A sra. participou de uma pesquisa em casas de acolhida a idosos de São Paulo. Que dados obteve com relação à ambiência?

Encontramos dados muito significativos, especialmente os que envolvem a transitoriedade dos moradores nessas casas. Eles as vêem de modo muito positivo, mas não se sentem pertencentes, o que sinaliza uma necessidade de revisão do programa das casas.

A pesquisa iniciou com a coleta de percepções dos moradores sobre o edifício e o entorno das casas. Agora estamos esperando aprovação do uso de Design Thinking para reunir técnicos da assistência social, gestores das organizações que administram as casas, moradores, vizinhos impactados pela presença do serviço e o grupo da USP. Teremos um workshop neste mês, quando serão prototipadas soluções colaborativas para que depois se discutam parâmetros para novos equipamentos.

O Brasil está avançado nessa área ou fica muito atrás de outros países?

Ainda há muito o que discutir não somente sobre as cidades mais amigas dos idosos, mas também sobre novos modos de morar na velhice, pois é preciso repensar os modelos que temos, ainda muito próximos dos antigos asilos. Os poucos modelos diferenciados em arquitetura ainda mantêm sistemas controladores, deixando pouca condição de autonomia.

Em termos de moradia particular ou de equipamentos de convívio social, penso que há algumas iniciativas que possibilitam a intergeracionalidade, mas ainda são tímidas em relação ao potencial que oferecem. Na Holanda, por exemplo, há políticas públicas que privilegiam esses encontros, ao promover que equipamentos para idosos sejam construídos juntos ou muito próximos a escolas infantis ou creches, possibilitando que haja atividades comuns ou, pelo menos, encontros eventuais para trocas significativas.

Compartilhe com seus amigos