Jogos de cartas, xadrez e videogame não são restritos ao período de lazer. Com o avanço da ciência, esses passatempos também provaram ser importantes para melhorar a memória e estimular o processo cognitivo de adultos acima dos 50 anos, uma vez que atuam diretamente no espaço do cérebro destinado às lembranças, o hipocampo.

Diversos fatores impactam o funcionamento da memória no decorrer do tempo, como a queda da produção de hormônios que reconstroem os processos neurais, a diminuição do fluxo sanguíneo para o cérebro e o desgaste do próprio hipocampo, explica o neurocientista Aristides Brito.

"O que os jogos fazem é estimular todos esses processos, evitando que os desgastes ocorram. Ou seja, promovem o uso contínuo dos hormônios, do fluxo sanguíneo e do espaço cerebral destinado à memória", explica ele, que é professor da Universidade Santa Cecília.

Pesquisa realizada em 2014 pela Universidade de Montreal, no Canadá, com 33 pessoas entre 55 e 75 anos divididas em três grupos – os que jogaram videogame 3D, os que tocaram piano e os que não fizeram nenhuma atividade – corrobora a afirmação de Aristides. Os voluntários foram testados em atividade durante 30 minutos por dia, cinco dias por semana.

O resultado mostrou que os jogadores de videogame apresentaram aumento no volume de matéria cinzenta no hipocampo e no cerebelo (responsável pelo equilíbrio) e, consequentemente, tiveram melhora na memória de curto prazo. Os que tocaram piano também registraram avanços, mas em proporções menores.

Quem não realizou atividade alguma apresentou atrofia no córtex pré-frontal (que controla o planejamento), no cerebelo e no hipocampo. Segundo os pesquisadores, o resultado pode ter ocorrido devido ao estímulo neural promovido, principalmente, pelos jogos eletrônicos.

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Outro estudo, também com jogos eletrônicos, feito por gerontólogos egressos da USP (Universidade de São Paulo) e publicado no ano passado na revista científica Dementia & Neuropsychologia, concluiu que os games ajudam na obtenção de novos conhecimentos e na preservação da memória. Os benefícios vão além e incluem a diminuição da ansiedade e o aumento da satisfação com a vida.

Foram avaliadas 124 pessoas com mais de 60 anos – 102 participaram de treinamentos e 22 formaram o grupo de controle. Todos responderam questionários, como o de avaliação de estado mental, e exames, como o cognitivo. Quatro meses depois, os testes foram refeitos, e quem fez parte dos exercícios com jogos teve melhora, comparado a quem não participou.

Exercícios para melhorar a memória

O cirurgião dentista Sidney Sendtko, 55 anos, sofreu durante muito tempo com falhas de memória. Quando participava de reuniões de trabalho, tinha de anotar todo o conteúdo em um papel. Caso contrário, apagões poderiam prejudicá-lo em frente ao público.

Para melhorar a memória, recorreu há dois anos a uma escola que aplica um método de ginástica cerebral com jogos online e tradicionais, como tabuleiro e cartas, para que sua memória fosse estimulada. Hoje, o aposentado de Balneário Camboriú (SC) afirma poder dar palestras com mais segurança.

"Posso participar de eventos com o peito aberto porque lembrarei o nome das autoridades presentes. Para algumas pessoas, isso pode ser uma tarefa fácil, mas para mim não era. Subi um degrau", orgulha-se.

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Com 300 unidades no país, as escolas da franquia Supera trabalham o desenvolvimento do cérebro de adultos e crianças. Segundo Geomacel Carvalho, especialista em ginástica para o cérebro da rede, o método atua na reserva cognitiva. "Estudos mostram que trabalhar essa reserva pode postergar doenças que afetam a memória, como o Alzheimer."

No caso de pessoas acima dos 50 anos, Carvalho destaca ser possível recuperar parte da reserva cognitiva perdida a partir de 18 meses de treinamento, como foi o caso do dentista de Santa Catarina.  "O aluno mais experiente precisa se esforçar um pouco mais, uma vez que o corpo está mais cansado", explica.

Para o fisiologista João Pinheiro, suar na "academia da mente" vale a pena, uma vez que os exercícios, chamados de neurofitness, atuam na concentração, na atenção e na memória de curto prazo. "É como se o cérebro tivesse um HD [disco rígido] com memória de 2GB e passasse a contar com 6 GB depois do treinamento", compara.

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