Era o último dia de trabalho da mãe de Doron Salomon, um jovem de 29 anos, na rede de supermercados Sainsbury, no Reino Unido. E ele resolveu dizer tudo o que pensa sobre a rede em um post no Twitter, em março deste ano: “O Sainsbury viu minha mãe [diagnosticada com Alzheimer] se deteriorar a tal ponto que, todos os dias durante o último ano, ela entrava na loja confusa, como se nunca tivesse estado lá antes”. Aquele não era um desabafo agressivo, mas uma mensagem de gratidão.

Há dez anos, com pouco mais de 50 anos de idade, a mãe de Doron trabalhava como escriturária. Mas, aos poucos, a organização e a habilidade com números começaram a se apagar. Em meados de 2012, ela concorreu a uma vaga de empacotadora de compras online na rede. Foi contratada. No ano seguinte, foi diagnosticada com Alzheimer.

A rede passou a fazer uma série de adaptações para mantê-la no cargo. Primeiro, investiu em treinamentos regulares. Mudou as horas de trabalho. Realizou encontros com ela e o marido sobre bem-estar. Garantiu que os demais trabalhadores conhecessem a condição da colega, para que pudessem ajudá-la, se necessário.

“O Alzheimer, para aqueles que não sabem, é mais do que a perda de memória”, diz Doron. Entre os impactos citados por ele estão perda de habilidades sociais, alterações de humor, aumento de desorientação e de agressividade, cansaço, perda de linguagem e inabilidade de tomar decisões.

Com o tempo e o agravamento da doença, o Sainsbury criou um posto que não existia, para que ela pudesse permanecer dentro da loja, limpando caixas. Mas não mudou o nome do cargo. A rede, publicou o filho no Twitter, “sempre a apoiou, fazendo de tudo para assegurar que ela estivesse feliz e se sentindo valorizada”.


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Fazer com que a pessoa diagnosticada com a doença se sinta útil é uma das indicações do geriatra Alessandro Ferrari Jacinto, professor da Faculdade de Medicina de Botucatu, da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Ao lado da jornalista Marisa Folgato, que cuidou da mãe com a doença por oito anos, ele é autor do livro recém-lançado Alzheimer: a doença e seus cuidados” (Ed. Unesp).

Em casa

Essa valorização pode começar em casa, com a família incentivando a realização de tarefas, por exemplo. “Recomenda-se sempre tentar incluir a pessoa em atividades e estimulá-la a fazer de forma independente”, orienta o médico.

Em algum ponto, a pessoa terá esquecimentos – especialmente relacionados com a memória recente. Ficar perguntando a mesma questão que ficou sem resposta não funciona. “Não é esse tipo de treino que adianta”, sinaliza Jacinto. “Nem tratar a pessoa como criança”, complementa.

O médico indica acompanhamento desde o diagnóstico, seja por um cuidador formal (contratado para a função), seja para um informal (alguém da família). E recomenda que, se for um parente, busque auxílio ao começar na função. Não raro, diz, o familiar fica doente por assumir esse papel – o que inclui outras responsabilidades, cobranças e desafios.

No trabalho

Na fase leve da doença, “a vida é normal”, afirma ele. Jacinto cita o caso de uma médica americana de 76 anos diagnosticada com Alzheimer, publicado em março no periódico científico “New England Journal of Medicine”. O teste cognitivo indicava que ela tinha capacidade de clinicar. Foi determinado que ela continuaria a atender seus pacientes e seria monitorada por um auditor. E permaneceu assim até a idade que havia planejado para se aposentar – aos 80.

Tanto a experiência da médica quanto a da mãe de Doron Solomon são positivas, afirma Jacinto, acrescentando: “Tenho certeza que são casos isolados”. Não apenas porque as organizações mantiveram as trabalhadoras no cargo, mas porque criaram condições internas para que elas permanecessem atuando.

Dar continuidade às atividades laborais e não laborais, diz ele, é necessário para manter o bem-estar. A progressão da doença leva de 10 a 12 anos e há casos que ficam na fase leve – que é seguida por moderada e grave – da doença por muito mais tempo. E sentir-se produtivo – no trabalho ou em casa – pode ajudar.

De volta ao Reino Unido

“Para minha mãe, limpar as caixas se tornou o trabalho mais importante do mundo. O sentido de autoestima e de orgulho, inegavelmente, ajudaram em aspectos do Alzheimer, como dar a ela sobre o que falar em encontros sociais”, escreveu Doron.

E, enquanto a saúde declinava, a equipe do supermercado “se preocupava com ela e queria saber o que mais poderia fazer para ajudar”. Mesmo quando uma avaliação ocupacional a avaliou como não apta para o trabalho, a rede a manteve em seu quadro de funcionários.

Os tuítes de Doron foram a maneira de agradecer publicamente a rede. “Eles têm sido um empregador maravilhoso. Mas, mais do que isso, no nível humano, as pessoas que trabalham na loja de Kenton têm demonstrado sensibilidade, bondade e cuidado. Obrigado”, completou ele no dia 3 de março, um dia depois da aposentadoria da mãe.

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