O Dia da Consciência Negra é celebrado em 20 de novembro em homenagem a Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo de Palmares, morto nesse mesmo dia em 1695. Não é um feriado nacional, mas estadual no Rio de Janeiro, Mato Grosso, Alagoas, Amazonas, Amapá e Rio Grande do Sul.

Zumbi é considerado um símbolo de luta e foi um dos principais representantes da resistência negra à escravidão em Alagoas, na época do Brasil Colonial. Ele lutou pela liberdade de culto, religião e prática da cultura africana no país entre 1670 e 1695, quando foi morto, aos 40 anos, após uma intensa batalha contra bandeirantes. 


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Dessa forma, o Dia da Consciência Negra foi criado para relembrar a luta da população negra por direitos e contra a opressão no Brasil. “Nesse dia, nos encontramos para cantar, dançar, comer e nos amar”, conta Mariana Andrade, enfermeira e coordenadora do Grupo Combate ao Racismo na Associação Elas Existem - Mulheres Encarceradas. "Saudamos os nossos ancestrais e agradecemos a sua luta e resistência, e sonhamos com mundo melhor para os nossos, um lugar onde o preto seja realmente livre”.

Longevidade para quem?

Apesar da relevância da data, ela ainda não é o bastante para o desenvolvimento de uma consciência nacional acerca de todos os problemas enfrentados pelos negros no país. O racismo, a falta de oportunidades e a omissão da cultura africana ainda estão presentes em nossa sociedade. E tudo isso interfere muito de forma negativa na construção e manutenção de uma longevidade para a população negra no Brasil.

Para Mariana, a população negra não consegue ter uma velhice saudável. “Os agravos à nossa saúde começam na gestação e vão desde a violência estética, à falta de acesso ao saneamento básico e ao lugar onde moramos. A maioria dos negros mora em favelas e não tem assistência”.

De acordo com o último Relatório Anual das Desigualdades Sociais, publicado em 2011 pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a expectativa de vida entre negros no país é de 67 anos. Em contrapartida, brancos vivem em média 73 anos. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que apenas 7,9% das pessoas com mais de 60 anos no país são negras, sendo que a população brasileira é formada em sua maioria por pessoas autodeclaradas negras.

Enquanto isso, números referentes a cenários mais desfavoráveis, como saúde e educação precárias, mostram que os negros enfrentam situações mais inseguras, principalmente quando comparados aos brancos. A cada 23 minutos, um jovem negro com idade entre 18 e 30 anos é morto. O índice de suicídio na população negra masculina também é maior do que na população branca, assim como o número de presos: 65% do total de encarcerados são negros.

“Podemos falar sobre longevidade, mas longevidade para quem?”, questiona Mariana. 

As marcas do racismo

A Política Nacional de Saúde Integral da População Negra foi instituída em 2009 com o objetivo de garantir a equidade e a efetivação do direito à saúde da população afrodescendente. Entre suas diretrizes, afirma que o racismo é um determinante social em relação à saúde.

Para Mariana, no entanto, essa política não é cumprida em sua totalidade. “Quando uma pessoa negra busca por saúde, que deveria ser dever do Estado e direito de todos, essa assistência é negada. Às vezes o médico nem olha na cara do paciente, e isso já serve para afastá-lo do sistema”.

Para muitos negros, um exame de rotina ou um acompanhamento médico não fazem parte de sua rotina. Em vários casos, a consulta só é feita em situações extremas, já em idade mais avançada, quando não existe mais chance de prevenção. O grande problema é que as pessoas com esse tom de pele não se sentem inseridas nesses espaços; quando buscam por ajuda, são afastadas por causa de um racismo institucional.

“Meu avô tinha 64 anos quando foi ao médico pela primeira vez. Ele não foi para fazer um check up geral. Ele já estava debilitado e com várias doenças instaladas no corpo”, conta Mariana. E esse é um caso comum. Outras pessoas se encontram na mesma condição, reféns de uma situação econômica e social que não proporciona acesso a saneamento básico, alimentação adequada e cuidados hospitalares, itens básicos para garantir uma vida longeva.

O Dia da Consciência Negra é um chamado para a reflexão

Pesquisas apontam que negros têm o índice de pressão arterial mais elevado do que brancos. Eles também sofrem mais casos de AVC (acidente vascular cerebral) ou AVE (acidente vascular encefálico), diabetes, insuficiência renal, câncer de mama e de ovário. De acordo com a coordenadora, esses números sempre foram altos.

“Com todos esses agravantes e o nosso histórico social, nunca conseguimos ter uma taxa alta de sobrevida. O racismo estrutural existe e é por causa dele que temos dificuldade em chegar aos 60 anos. Quando as pessoas começarem a entender que o racismo afeta o bem-estar das pessoas negras e investirem em saúde e educação, conseguiremos diminuir esses problemas. O caminho é a conscientização”, finaliza.

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