O que posso fazer para meus pais seguirem bem sem precisar de ajuda antes do tempo? Será que devo instalar barras de proteção no banheiro da casa deles? Forço para que usem aplicativos de transporte ou os deixo com o carro sem restrições? Permito que viajem sós? Se você tem pai ou mãe que passou dos 70, 80 ou 90 anos, a preocupação com a autonomia deles pode ter surgido em algum momento.  

A primeira questão nesse sentido, no entanto, não passa por nenhuma das perguntas acima e nem é direcionada a você. Quem tem de pensar e dizer o que pode ou deve ser feito em termos de rotina, saúde, finanças, locomoção e todas as outras esferas da vida são eles próprios: seus pais. 

O cuidado e o zelo dos mais jovens, claro, devem permanecer. Mas isso implica, primordialmente, assegurar que os mais velhos tomem suas próprias decisões. “Não é porque os pais estão envelhecidos ou doentes que vai haver uma inversão de quem manda em casa”, salienta a geriatra Alcineide Correia Siqueira, especialista em demência e membro da ABRAz (Associação Brasileira de Alzheimer). Cabe a eles fazer suas escolhas. “O filho tem que respeitar e controlar essa margem de risco”, destaca. 


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Até porque garantir essa autonomia em tarefas básicas do dia a dia “é essencial para a qualidade de vida”, segundo o psicólogo Alexander Bez. “Permite ao idoso viver com dignidade”, acrescenta. Ou seja, se eles estão bem, acompanhados por profissionais de saúde e com o dia a dia organizado, sufocar com superproteção é uma das piores coisas que você pode fazer. “Deixem que eles realizem atividades físicas e combinem encontros com amigos e parentes, paguem contas, vão ao médico... É fundamental que se sintam produtivos”, recomenda. 

Além disso, uma forma de garantir a autonomia no cotidiano é buscar adaptar a casa para as necessidades da pessoa idosa. Mudar os móveis de lugar, colocar barras de segurança no banheiro, fixar os tapetes e até fazer uma revisão da instalação elétrica são atitudes que, apesar de parecerem simples, podem fazer uma grande diferença no dia a dia dos seus pais.

Quando a tentativa de cuidado vira prejuízo 

Existe uma preocupação quanto à saúde e ao bem-estar do pai e da mãe? Claro que sim. Mas é preciso gerenciar os riscos com sabedoria. Siqueira exemplifica com o caso de uma mãe de 80 anos que queira fazer uma longa viagem. “Vou com ela para dar segurança. Ela escolheu ir, quer ir, é importante para ela”, exemplifica. 

E complementa: “Os filhos têm que olhar os pais envelhecidos com uma carga de conhecimento e experiência a ser zelada e não desperdiçada. A perda da autonomia é um prejuízo gigante, não somente a autonomia física, mas principalmente a psíquica”.  

“O que a gente vê muito do filho ou do cuidador é tentar infantilizar o idoso ou achar que a opinião dele pode superar as necessidades do idoso no mando. É uma inversão de valores e só prejudica”, considera a médica. O mesmo vale para a pessoa que está acamada. “Ela pode não ter uma autonomia física, mas tem uma autonomia psíquica: as opiniões, o que prefere”, ressalta Alcineide. 

E, mesmo que você discorde do pai, da mãe ou dos dois, respire fundo e meça qualquer resposta que lhe venha à mente. A indicação de não violência pode parecer óbvia, mas nem sempre a pessoa se dá conta de como uma frase pode ferir. Quer um exemplo? A sentença “vai, mas se machucar e quebrar uma perna, não me chame” é um. 

O que você pode sugerir para garantir a autonomia dos pais 

“Tudo é acordado com o idoso”, reforça a médica. Trazer o tema para a roda de conversa da família pode ser uma estratégia, mas a palavra final é sempre dos pais. Aos filhos cabe até estudar para melhorar o poder de convencimento, especialmente quando se trata de ter uma casa segura. 

E se o medo dos pais surgir – já que essas adaptações podem dar a entender que a autonomia está em risco –, uma das alternativas é explicar que essa conversa é preventiva. O ideal, segundo Siqueira, é que o assunto não seja algo pontual, mas abordado pela família toda ao longo da vida. 

Confira, a seguir, o que pode ser feito para garantir a autonomia. 

Exercícios físicos  

Além de fazerem bem para o cérebro – são, inclusive, uma das formas de prevenir a demência , os treinos, especialmente os de fortalecimento dos músculos, ajudam a melhorar a postura corporal e a evitar quedas. Podem ser argumentos para sugerir que os pais incluam atividades físicas no dia a dia. 

Atividades do dia a dia 

Pedir que a pessoa idosa realize alguma tarefa, como ir ao supermercado, também pode ser uma opção, segundo Bez. Nesse caso, vale ter em mente duas regras. A primeira você já conhece: a palavra final é do idoso. A segunda é tomar cuidado com o que indica, especialmente em tempos de pandemia do novo coronavírus 

Interações sociais 

“Incentivar programas que eles gostem de fazer é muito bacana, como bingo, cartas, viagens em grupo e com a família”, indica o psicólogo. Assim como as atividades físicas, as relações sociais são comprovadamente um dos componentes para evitar quadros de demência. 

Adaptações no ambiente 

São medidas preventivas – e reduzir quedas é importante inclusive para manter a autonomia física. As alterações podem ser feitas: 

- na sala, com a retirada de fios e objetos e pequenos móveis.  

- na escada, com a instalação de corrimãos dos dois lados e a colocação de fitas antiderrapantes nos degraus e de interruptores de luz nas duas pontas. 

- no quarto, com a inclusão de luminária junto à cama e a retirada de tapetes. Camas intermediárias – nem altas nem baixas demais – e colchões firmes ajudam a evitar dificuldade ao levantar. 

- na cozinha, com a instalação de pisos antiderrapantes e armários na altura das mãos, que dispensem banquinhos e escadas para pegar objetos. 

- no banheiro, com instalação de barras de apoio e cortinas, em vez de box de vidro. Banquinho também pode ser útil, bem como pisos antiderrapantes. 

Participação 

Faça parte da vida dos pais. É a convivência no dia a dia que pode antecipar alguma questão de saúde, por exemplo. “Déficit de memória e alteração de comportamento merecem uma visita ao profissional de saúde para diagnóstico”, recomenda a geriatra. Essas mudanças podem se manifestar de diversas formas – como uma receita que era feita brilhantemente e que não dá mais certo ou uma mudança alimentar. 

Tanto a demência quanto a doença osteomuscular começam devagar. Com o diagnóstico precoce, a “chance de manter autonomia do idoso por mais tempo é maior”, afirma Alcineide. Isso porque o profissional de saúde pode indicar tratamentos medicamentosos, terapias físicas e outros recursos para que o progresso dessas condições seja mais lento. 

Atenção também a quadros de depressão, que podem incluir sintomas como tristeza, cansaço e falta de interesse. E a situações de violência, seja física, seja psicológica.  

Pais na ativa 

Se você é pai ou mãe e está enfrentando uma marcação cerrada dos filhos em relação a sua autonomia, existem algumas medidas que podem ajudar a acalmá-los e evitar que tenham um monitoramento invasivo. Uma das maneiras é “demonstrar eficiência pessoal nos afazeres e verbalizar essa competência”, indica Bez. 

“Mostrar para os filhos que ainda não estão em risco e que não tiveram uma queda de capacidade é bacana para tranquilizá-los também. Continuar tomando as decisões básicas da rotina aumenta a capacidade da comunicação, demonstrando vontade, intenção e condições em se manter na ativa”, resume o psicólogo. 

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