Seja em bens materiais, dinheiro ou tempo, quase 8 em cada 10 brasileiros fez algum tipo de doação no ano passado, revela o mais abrangente levantamento já realizado no país, a Pesquisa Doação Brasil, desenvolvido pelo Gallup sob coordenação do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e divulgada neste mês.

As doações individuais dos brasileiros totalizaram R$ 13,7 bilhões em 2015, valor que corresponde a 0,23% do PIB (Produto Interno Bruto). Para Paula Fabiani, presidente do IDIS, “é claro” que a crise financeira tem impacto sobre a doação ou até a propensão ao trabalho voluntário. “Mas talvez seja mais sobre quanto doar do que sobre a decisão de doar ou não”.

O grupo na faixa de 50 anos de idade ou mais é o mais propenso a doar. Enquanto, na média, 46% dos brasileiros destinam recursos para ONGs, entre eles a média sobe para 57%. Mas ainda há um bom caminho para o Brasil alcançar os campeões de solidariedade, tradicionalmente países de cultura anglo-saxônica, como EUA, Inglaterra e Austrália.

No último World Giving Index, que ranqueia os países pelo nível de solidariedade da sua população, Mianmar (antiga Birmânia) surpreendeu com o primeiro lugar, explicado pelo fato de que a maioria da população segue o budismo, que prega doação como obrigação, pontua Paula. “Exemplos de solidariedade não necessariamente estão atrelados à riqueza do país.”

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

O brasileiro está mais ou menos solidário?

Nós não dispomos de uma série histórica de pesquisas que nos permita saber. O que percebemos pela Pesquisa Doação Brasil, a primeira a fazer um mapeamento nacional completo sobre os hábitos de doação dos indivíduos, é que o brasileiro é solidário. No ano passado, 77% da população [a amostra da pesquisa é a população urbana, maior de 18 anos e com renda familiar superior a 1 salário mínimo] fez algum tipo de doação, seja de bens, de tempo – em forma de trabalho voluntário – ou de dinheiro.

Na sua avaliação, a situação econômica faz com que as pessoas, em geral, sintam que têm menos tempo e menos dinheiro para doar?

É claro que a situação financeira tem impacto sobre a doação ou até a propensão ao trabalho voluntário, mas, se considerarmos que, em 2015, um ano de profunda crise política e econômica no Brasil, mais da metade da população [52%] fez alguma doação em dinheiro para organizações sociais, esse impacto talvez seja mais sobre quanto doar do que sobre a decisão de doar ou não.

O brasileiro, em geral, doa mais dinheiro ou tempo? E ajuda mais organizações ou pessoas que conhece?

A Pesquisa Doação Brasil indica claramente que o brasileiro doa mais dinheiro do que tempo, mas a principal prática é a doação de bens com 62% da população. Enquanto um terço [33%] da população fez trabalho voluntário em 2015, mais da metade [52%] doou dinheiro no mesmo período.

Também mostrou que os brasileiros doam mais para organizações sociais do que para conhecidos. Ao responder à pergunta para quem doa, 46% da população indicou organizações sociais  e suas variantes [obras sociais da igreja, campanhas para calamidades, campanha de televisão tipo Criança Esperança e Teleton etc.], e somente 9% declarou fazer doações para conhecidos, dar esmolas e pagar dízimo.

Falando de grupos etários, os brasileiros com 50 anos ou mais continuam sendo os mais propensos a doar?

Sim. Enquanto na média, 46% dos brasileiros doam para organizações sociais, entre o grupo com mais de 50 anos, essa média sobe para 57%.

Quais causas sensibilizam as pessoas com 50 anos ou mais?

Nós ainda não temos o cruzamento completo da escolha de causas com os grupos etários, mas sabemos que saúde é a causa que mais sensibiliza o grupo com 50 anos de idade ou mais. Não podemos afirmar qual a razão, mas supomos que seja por que, na medida em que a idade avança, o indivíduo tende a usar mais esses serviços, perceber as precariedades e se sensibilizar com o tema.

Paula Fabiani falando sobre solidariedade ser maior após os 50 anos de idade Paula Fabiani, presidente do IDIS, apresenta os resultados da pesquisa; Crédito: Divulgação.

Quais são os países exemplos de solidariedade?

A Charities Aid Foundation, a maior organização promotora de filantropia da Inglaterra, da qual o IDIS é representante no Brasil, faz uma pesquisa anual chamada World Giving Index, que ranqueia os países pelo nível de solidariedade da sua população. Nela, países de cultura anglo-saxônica [por exemplo, EUA, Inglaterra e Austrália] costumam estar sempre entre os primeiros colocados.

Porém, na última edição, Mianmar (antiga Birmânia) foi campeã mundial de solidariedade. E essa conquista foi atribuída ao fato de que a imensa maioria da população desse país é de religião budista, que prega como uma das obrigações a doação. Portanto, os exemplos de solidariedade não necessariamente estão atrelados à riqueza do país, mas sim à cultura.

Ainda há um longo caminho a percorrer até que a doação no Brasil alcance níveis de países socioeconomicamente similares ao nosso?

Critérios socioeconômicos são muito abrangentes. O Brasil está entre as grandes economias, se considerarmos o PIB, mas, se optarmos pelo Índice de Desenvolvimento Humano, estamos muito abaixo dos nossos vizinhos Argentina, Uruguai, Chile e mesmo a Venezuela, que atravessa uma crise gravíssima. Se quisermos fazer uma comparação somente pelo PIB, podemos dizer que ainda falta para o Brasil alcançar os campeões de solidariedade, porque a doação média aqui está em 0,2% do PIB, enquanto na Inglaterra costuma ficar em 0,7% do PIB e nos EUA em 1,4% do PIB.

Que atitudes tornariam o brasileiro mais solidário?

O brasileiro é solidário, mas talvez possa ser ainda mais se conseguir entender o papel das organizações sociais e a relevância do fortalecimento da sociedade civil.

Por outro lado, existe uma crise de credibilidade generalizada no país e as organizações sem fins lucrativos também são atingidas. Se as organizações que dependem de doação investissem mais em transparência e na divulgação de seu impacto, poderiam despertar a confiança do brasileiro e fazê-lo doar mais.

Por fim, a volta do país a um ciclo de crescimento econômico e do nível de emprego e renda também devem ajudar bastante.

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