Quando se trata de falar de sexualidade feminina, Maísa Pacheco, 46 anos, vai direto ao ponto: “Ainda hoje, a grande dificuldade da mulher é gozar”. A maioria, diz ela, que é solteira e mãe de uma jovem de 27 anos, “finge o orgasmo para agradar ao parceiro.” E é justamente aí que Maísa entra. Ela é muito mais que a dona de um sex shop na esquina da rua da Consolação com a avenida Paulista, em São Paulo.


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Além de tocar o negócio há 20 anos, essa filha de um paraibano e uma baiana atua como uma espécie de consultora para o prazer, promovendo palestras e orientando as clientes – as mulheres são maioria absoluta (80%) entre os frequentadores da loja – sobre como chegar à plenitude no sexo. Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Como surgiu seu interesse pelo ramo das sex shops?

Sou filha de comerciante, sempre estive ligada a esse meio. Quando bem nova, cheguei a vender caldo de cana na rua, pastel, roupa porta a porta. Aos 25 anos, uma amiga me falou que um conhecido dela estava querendo se desfazer de uma parte do negócio de sex shops dele. Eu me interessei pela empreitada.

E se deparou com um mundo então muito diferente para você?

Sim, afinal sou filha de nordestinos mais conservadores. Tenho dois irmãos, e com eles era ‘Toma a revista, vai ao puteiro, pega no pênis’. Comigo era ‘Fecha a perna, comporte-se como uma mocinha’.

Não sabia bem o que iria encontrar dentro de uma sex shop. Pensava que pudesse haver mulheres nuas, orgias. Que fosse um lugar muito louco.

sex shop

Fachada do sex shop de Maísa, localizado na região central de São Paulo; crédito: Divulgação 

E o que de fato encontrou? Como foi o começo do negócio?

Naquela época, fim dos anos 1990, o que mais vendia eram as fitas VHS de filmes eróticos. Revistas pornôs também tinham boa saída. 

Os frequentadores eram predominantemente masculinos. As poucas mulheres que havia buscavam lingeries e fantasias do tipo de colegial. E, em geral, se mostravam com muita vergonha. 

Com o passar dos anos, meu foco se tornou o público feminino. Queria levar para a loja a mulherada que tinha necessidade de aprender mais sobre sexo.

E que estratégias usou para viabilizar esse propósito?

Comecei a fazer palestras para mulheres, falando sobre sensualidade, produtos eróticos femininos, sobre inversão, que é o homem ser penetrado pela parceira com um pênis de borracha. Convidava-as para um chá das cinco na loja para falar sobre sexo.

"A maioria finge o orgasmo para agradar o parceiro"

Qual o perfil predominante dessas mulheres?

Em geral, com idades acima dos 30 anos. Muitas casadas, divorciadas, viúvas. Ainda hoje, a grande dificuldade da mulher é gozar. A maioria finge o orgasmo para agradar o parceiro.

E, mesmo quando buscam explicações na internet, por exemplo, encontram muita coisa errada. Vejo que falta informação sobretudo para as mulheres das classes sociais menos favorecidas.

E como os homens atuam nesse contexto da afirmação sexual feminina?

O homem acaba deixando a responsabilidade do sexo na mão da mulher. Quando o casal vai viajar para um fim de semana a dois, por exemplo, a preocupação masculina se volta para a revisão do carro, a reserva do hotel.

Elas ficam encarregadas de proporcionar o prazer. Compram lingerie, preparam até uma cestinha com óleos para massagem para levar.

”Muitas dizem que não querem morrer sem gozar”

De que forma você trabalha a questão da sexualidade com as mulheres mais maduras?

Meu público de mulheres de 60 anos ou mais é muito bom. Muitas dizem que não querem morrer sem gozar. De fato, não há idade para descobrir o orgasmo.

E nem fazem questão de arrumar um namorado para isso. Pelo contrário, ficam com medo de encontrar algum pilantra que roube sua aposentadoria. Assim, preferem ter um vibrador.

Ainda existe preconceito contra o vibrador?

Ah, sim. Vejo meninas de 20 anos que não o levam por medo do que os namorados vão pensar delas, que são vagabundas. Eu falo para as mulheres que elas têm que colocar na cabeça dos namorados ou maridos que o vibrador é um aliado, não um inimigo.

A internet ajuda a multiplicar o alcance de seu negócio?

Montei meu site há cerca de cinco anos. Tive então a ideia de gravar vídeos para explicar como se usa o vibrador. Há um ano e meio, abri uma conta no Instagram. Curiosamente, metade do público que interage e faz perguntas na plataforma é formada por homens. Eles estão mais preocupados em saber o que é melhor para a mulher no sexo.

Você já escreveu um livro também, não?

Chama-se “Bastidores do Sex Shop” e foi lançado em 2017. Apresenta histórias engraçadas que se passaram dentro da loja.

“Muitas mulheres se frustram porque buscam nos apps um romance, um casamento”

Você prepara uma segunda publicação? Do que se trata?

São histórias que mulheres vivenciaram através de aplicativos de encontros como Tinder e happn. Muitas se frustram porque buscam nesses apps um romance, um casamento. Já o homem geralmente só está à caça de sexo.

Para encerrar, poderia contar como você mesma atingiu a plenitude no sexo?

Descobri o orgasmo aos 30 anos, com um vibrador. Até então, nunca tinha conseguido chegar lá com um homem. O primeiro vibrador a gente nunca esquece.

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