Bem que poderia ser só ficção de novela, mas o drama de Maria da Paz em "A Dona do Pedaço" também é registrado na vida real. Assim como na tevê, golpistas tiram proveito financeiro de pessoas fragilizadas. Tal situação é crime e tem nome e sobrenome: estelionato sentimental.

Na trama do horário nobre da Globo, Regis (Reynaldo Gianecchini) se casou por interesse com Maria da Paz (Juliana Paes), numa conspiração com Jô (Agatha Moreira), a filha da protagonista. Em troca de afeto, pelo menos no início da relação, o galã só queria tirar vantagens financeiras da empresária.


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Desde 2015, o termo estelionato sentimental é usado em processos em que uma das partes busca "obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer meio fraudulento". Tal definição é baseada no artigo 171 do Código Penal. 

As mulheres são os principais alvos, sobretudo aquelas bem-sucedidas e com destaque profissional, segundo a psicóloga Lia Clerot. “O estelionatário já se aproxima querendo tirar vantagens. O golpista busca o mesmo perfil e, na maioria das vezes, conhece as vítimas pela internet”, explica.

Estelionato sentimental: o cortejo 

Assim como na novela, o ladrão atrai as parceiras oferecendo uma relação perfeita, recheada de declarações apaixonadas e (falsas) provas de amor. Uma vez que a vítima se mostra envolvida, começa a agir para conseguir dinheiro.

"Grosso modo, é aquela pessoa que brinca com os sentimentos de suas vítimas. Muitas vezes, é um indivíduo tão ardiloso que conquista a família inteira. Chega dizendo que tem tudo, mas, na verdade, não tem nada. Faz tudo para agradar, escondendo o real interesse", descreve o psicólogo clínico Moisés Luz.

No papel de vítima, o perfil mais comum é o de alguém que sofre com a carência afetiva, provocada por morte, abandono ou até mesmo um término de relacionamento. Para Moisés Luz, viúvas, viúvos e pessoas que colocaram um ponto final no casamento recentemente são os que estão mais sujeitos a entrar em relações tóxicas, consequência da solidão e do receio de permanecer sozinhos.

"Com o medo de ficar só, a pessoa começa a se expor nas redes sociais e, quando recebe carinho e atenção, se apaixona cegamente", avalia o psicólogo. Em alguns casos, a máscara cai rápido; em outros, demora um bom tempo para que vítima perceba que é enganada.

Moisés Luz acrescenta que toda pessoa que busca algo sério investe sentimento, tempo e dinheiro no relacionamento. Quando ela se depara com um golpe, os prejuízos são diversos, bem além dos financeiros. "Pode ocorrer depressão, síndrome do pânico e outros transtornos psicológicos, por conta das frustrações com o término", exemplifica.

Sinais que indicam um possível golpe

O especialista em segurança Leonardo Sant’Anna lembra que, além de estudar e conhecer as relações humanas (o que lhe permite ludibriar facilmente uma vítima), o golpista possui vasto conhecimento tecnológico, uma vez que a abordagem geralmente começa na internet.

Por isso, nos contatos virtuais e nos encontros presenciais, desconfie se a pessoa:

  • Não fala sobre familiares nem quer apresentá-los;
  • Não gosta de aparecer em fotos nas redes sociais e evita falar ao telefone;
  • Se esquiva de perguntas sobre histórico familiar e de vida;
  • Tem interesse excessivo sobre informações detalhadas do seu dia a dia.

Como funciona o triângulo do crime

De acordo com Leonardo Sant’Anna, a ação do estelionato amoroso envolve três pontos:

1. O aproveitador: a chance do golpe surge diante da sua exposição financeira, que fica clara a partir de perguntas acerca de trabalho, posses e reservas pessoais. Por isso, fale o mínimo possível sobre tais temas;

2. A vítima: a exposição do que você possui, dos lugares que frequenta e até de pessoas com quem convive lhe transforma em "alvo" preferencial. "É difícil não mostrar algumas coisas nos dias de hoje, mas é necessário sermos mais comedidos em nossas informações", opina o especialista em segurança;

3. A oportunidade emocional: o triângulo se fecha quando você expõe que está sozinho, sem familiares próximos ou distantes, ou mesmo sem pessoas que possam lhe proteger, como amigos íntimos e mentores. Evite passar essa informação.

Como se precaver de estelionato sentimental

Para minimizar os riscos em novas relações, o especialista em segurança sugere alguns cuidados.

  1. Conheceu uma pessoa na internet e vai marcar um encontro? Compartilhe a situação com alguém de confiança e reflita sobre as opiniões que receber. "É legal ter uma visão de fora", orienta Sant’Anna.
  2. Caso tenha revelado demais sobre finanças, desconverse e diga que seus bens estão blindados judicialmente ou fazem parte de algum inventário, já que isso impede que sejam disponibilizados a curto prazo;
  3. O estelionatário emocional costuma pedir dinheiro indiretamente, falando sobre contas atrasadas, dificuldades familiares e doenças graves inesperadas. Usa muito a figura dos pais e dos filhos e, geralmente, diz precisar da grana rapidamente. "A blindagem financeira funciona nestes casos, pois os prazos longos para liberar recursos afastam aproveitadores", afirma Leonardo Sant’Anna;
  4. Google, Facebook e Instagram podem ser seus aliados. Pesquise tudo sobre aquela pessoa que parece ter saído de um conto de fadas. Bisbilhotar quem está entrando na sua vida, nesse caso, não faz mal algum;
  5. Suas informações devem ser limitadas na web, já que o golpista também vai pesquisar seu nome. Não exponha tanto a sua vida. Use filtros nas redes sociais e libere o acesso apenas para amigos;
  6. Não apague o histórico de trocas de mensagens do celular, pois pode servir para buscar contradições e mentiras.
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