No último século, passamos a viver mais. Descoberta de antibióticos e vacinas; aumento de renda e escolaridade; melhores condições de habitação e saneamento e, mais recentemente, universalização da saúde foram responsáveis por reverter os altos índices de mortalidade.

De 1940 para 2018, a expectativa de vida ao nascer saltou de 45,5 anos para 76,3 anos: um aumento de 30,8 anos. Apenas de 2017 a 2018, ganhamos uma média de três meses e quatro dias a mais de vida. E tem mais: em 2060, a projeção é que alcançaremos 81,2 anos.

Devemos celebrar? Sem dúvida! Envelhecer é um grande ganho para a humanidade. Ainda mais se observarmos que, na década de 40, poucas pessoas tornavam-se octogenárias. Quem diria, então, nonagenários ou centenários?

A longevidade populacional está prestes a se tornar uma das transformações sociais mais significativas do século 21. Daqui a 40 anos, o Brasil que conhecemos, formado em sua maioria por jovens, terá 58,2 milhões de pessoas com mais de 65 anos, 25% de sua população.

Mas envelhecer ainda é uma palavra que remete a dependência, doenças, sofrimento, enfim, um futuro sombrio. E não deve ser assim. É possível escolher um caminho diferente – com autonomia, saúde e bem-estar – para este percurso sem volta. A questão é: o que você precisa fazer, hoje, para viver mais e melhor?

Longevidade e Saúde

Quem é o idoso de hoje? Nada mais que a criança, o jovem, o adulto de ontem. “Logo, envelhecer tem como ponto de partida a infância, transpassando por todas as fases da vida”, observa a clínica-geral Maisa Kairalla, que integra a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).

É errado pensar no “ser idoso” apenas aos 60 anos de idade. É o mesmo raciocínio de fazer a manutenção de um carro com 30 mil quilômetros rodados. Para alcançar uma vida com longevidade e saúde, primeiramente, você precisa compreender que não há uma fórmula mágica, mas sim um conjunto de atitudes preventivas.

Isso porque, pontua a especialista, 30% do nosso envelhecimento é genética, e o restante, os outros 70%, consequência dos nossos comportamentos e do meio externo: “Nossas escolhas e hábitos estão intimamente ligados com a saúde do nosso organismo e com a maneira com a qual iremos envelhecer”.

A medicina evoluiu. Detemos conhecimentos que antes não tínhamos, o que ampliou as ferramentas de prevenção das quais podemos lançar mão em prol da boa saúde, tais como a importância da vacinação como medida combativa de doenças infectocontagiosas.

Também dispomos de novas tecnologias, que incluem desde equipamentos de medicina diagnóstica, que permitem a detecção precoce de doenças, bem como o acesso a um arsenal medicamentoso que permitiu transformar doenças antes fatais em condições crônicas.

As doenças crônicas são, de fato, uma das marcas do envelhecimento de nossa sociedade. O diabetes, as doenças cardiovasculares, o AVC, as crônico-degenerativas – como Alzheimer e Parkinson – e os cânceres são algumas das principais doenças que têm acometido os idosos deste século.

A prevenção é, sem dúvida, a chave para evitar ou reduzir o risco de desenvolvê-las. “O ser humano deve poupar na juventude para gastar na velhice”, ensina a geriatra. Funciona assim: você começa a investir em atitudes que lhe possibilitem guardar ativos para ter saúde, qualidade de vida, autonomia, independência e, também, reduzir o risco de desenvolver doenças comuns ao processo de envelhecimento.

Quais são esses ativos? Eles estão ligados ao nosso comportamento social, ambiental, emocional, financeiro e educacional. Incluem desde nossos hábitos alimentares à movimentação de nosso corpo e mente, para que mantenhamos nossa saúde óssea e muscular em dia, bem como nossa capacidade cognitiva (aprendizagem, memória e raciocínio).

OS 10 MANDAMENTOS PARA VIVER MAIS E MELHOR

  1. Ter uma alimentação saudável
  2. Praticar atividades saudáveis
  3. Dormir bem
  4. Evitar álcool e cigarro
  5. Manter a vacinação em dia
  6. Ter espiritualidade/fé
  7. Poupar ao longo da vida
  8. Viver em comunidade e manter vínculos sociais
  9. Ter um propósito de vida
  10. Ser resiliente

Para Maisa, que é coordenadora da Comissão Especial Covid-19 da SBGG, o maior exemplo que a sociedade do nosso século está experienciando é a pandemia decorrente do novo coronavírus: “Após a gripe espanhola, este é o advento epidemiológico mais severo que enfrentamos e, sem dúvida, será um divisor de águas para a humanidade”.

“A Covid-19 já ceifou a vida de dezenas de milhares de idosos em todo o mundo, inclusive no Brasil. A idade avançada, por si só, não é o único fator de risco. Embora haja a questão da imunossenescência [deterioração natural do sistema imunológico produzido pelo envelhecimento], aspectos como doenças crônicas pré-existentes se mostraram um fator de risco importante para agravamento e até mesmo morte dos pacientes idosos com coronavírus.”

O fato é que não podemos evitar que nosso organismo envelheça, até porque esse processo começa próximo dos 28 anos de idade. “O que está ao nosso alcance é dar ao nosso corpo os subsídios que ele precisa para envelhecer bem”, diz a geriatra.

Longevidade Financeira

Se as chances de você viver mais do que seus pais e muito mais do que seus avós são enormes, isso também traz desafios inéditos. Por exemplo: como financiar essa longevidade?

“Uma maior expectativa de vida pede um método para o dinheiro durar mais”, pondera Hirbis Girolli, especialista em finanças pessoais da MAG Investimentos.

Para isso, ensina o especialista, é preciso dedicar igual esforço a cada um dos quatro pilares da longevidade financeira:

Ganhar mais

Adicione e diversifique fontes de receita, para não ficar sempre dependendo da sua capacidade de controlar gastos. “Em uma recessão econômica, por pior que ela seja, sempre surgem boas oportunidades.”

Gastar bem

Aproveite a mudança forçada de hábitos de consumo para, de agora em diante, priorizar melhor os gastos e não jogar dinheiro fora com coisas que vão gerar arrependimento. “Mas sem renunciar à qualidade de vida.”

Poupar certo

Encare a realidade de que muitos de nós precisarão estabelecer o seu nível de poupança pessoal em cerca de 20% da renda líquida, “caso não queiram passar por dificuldade severas no futuro”.

Investir melhor

Aprenda a separar o dinheiro em caixinhas, para saber exatamente que parte da sua poupança pode correr mais riscos para buscar uma rentabilidade melhor. E quais partes não podem correr risco algum.

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Nesses desafios, pontua Girolli, os jovens possuem sempre a vantagem do tempo a seu favor, “seja para aprender mais coisas ou até para uma transição mais tranquila para níveis de poupança adequados”.

Por outro lado, diante do cenário de redução de vagas no mercado de trabalho, devido à 4ª Revolução Industrial, observa, “fica mais difícil programar a longevidade financeira”.

Longevidade e Trabalho

E vamos explicar por que é mais complicado pensar na longevidade financeira nesse cenário: estamos passando por duas crises que afetam diretamente o trabalho.

Uma é conjuntural, devido à pandemia do novo coronavírus. “Só sabemos que o impacto vai ser imenso na economia”, afirma Marcelo Graglia, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP).

Outra é estrutural e tem a ver com o que os especialistas chamam de Indústria 4.0. Na sexta onda tecnológica, “a busca por automação vai ficar ainda mais urgente”, acelerando a transformação digital.

E vai exigir que você conheça conceitos como big data analytics (análise de estruturas de dados complexas), internet das coisas e dos serviços (interconexão de dispositivos por meio da internet) e manufatura aditiva (impressão 3D).

Os impactos dessa transformação ainda não estão claros. Estudos de universidades renomadas, como Oxford, indicam a perda de postos de trabalho devido à inteligência artificial.

Graglia pondera que não se pode encarar o cenário de maneira determinística, mas sinaliza que essas mudanças vêm em alta velocidade. “Não vai ter tempo de adaptação”, diz ele. E os empregos que surgirem serão cada vez mais sofisticados. “Não servirão para suprir a reposição de postos [perdidos devido à automatização].”

“Esse é um assunto polêmico”, avalia o professor da IBE Conveniada FGV Emerson BZ. Segundo ele, as funções estão mudando. “Se você está correndo atrás, buscando se manter atualizado e criando novas habilidades, terá sucesso.”

Ele, no entanto, é taxativo: o salto tecnológico vem com barreiras de acesso – vide as diferenças em tecnologia em escolas públicas e privadas – e concentração de riquezas.

Há países que estão conduzindo essa transformação de forma consciente, segundo ele. “Na Alemanha, há um plano de governo coordenado”, exemplifica, citando um modelo que envolve base de dados atualizada da população, combinada a serviços de qualificação, recolocação e apoio psicológico.

De volta aos estudos

Em qualquer cenário, o discurso da requalificação é constante: “Se, nos anos 80 e 90, bastava ter um curso técnico para garantir seu emprego até a aposentadoria, isso não é mais possível”, afirma Emerson.

O aprendizado contínuo, embora não garanta a empregabilidade, é uma das formas de ter mais possibilidades no mercado de trabalho.

A formação técnica e o retorno à universidade, no entanto, são também alguns dos caminhos. Eles passam também pelo desenvolvimento de habilidades comportamentais, que nem sempre são aprendidas na escola.

COMPETÊNCIAS EXIGIDAS PELO MERCADO DE TRABALHO

(Fonte: professor Emerson BZ)

  • Comunicação assertiva
  • Controle emocional
  • Criatividade
  • Facilidade de lidar com a tecnologia
  • Foco em soluções
  • Pensamento crítico

Ser empreendedor também está entre as possibilidades. O principal requisito: adaptação rápida a ambientes complexos e em constante mudança.

As empresas também têm lição de casa. Cabe a elas elaborar estratégias para ter um time de funcionários diversificado. Isso “potencializa o sucesso”, resume o professor do IBE Conveniada FGV.

Longevidade e Cidades

Os contextos nos quais nascemos e vivemos – em especial sob os aspectos econômicos (acesso a alimentação, saúde, serviços e oportunidades de trabalho), educacionais (amplitude e duração da educação formal) e ambientais (água pura, ar limpo, áreas verdes) – contribuem diretamente para nossa longevidade.

Mas será que a cidade em que você vive está preparada para lhe oferecer qualidade de vida aos 60 anos de idade? Para responder a esta pergunta, o Instituto de Longevidade Mongeral Aegon (ILMA) criou o Índice de Desenvolvimento Urbano para a Longevidade (IDL), cuja versão deste ano amplia o ranking para 876 municípios brasileiros.

“Em uma visão macroestrutural, o IDL endossa uma percepção de certa forma já conhecida ou imaginada: 1) as cidades brasileiras não estão preparadas para a longevidade; 2) as cidades mais preparadas estão concentradas nas regiões Sul e Sudeste”, antecipa o psicólogo Antônio Leitão, gerente institucional do ILMA e especialista em Geriatria, Gerontologia e Gestão de Negócios.

No entanto, observa, focando nas particularidades locais ou nos aspectos de análise específicos do IDL, há indicadores interessantes como um desempenho muito bom de cidades fora do eixo de maior concentração de riqueza.

E exemplifica: “Olhando para as Instituições de Longa Permanência para Idosos, por exemplo, Imperatriz (MA) e Juazeiro do Norte (CE) têm índices melhores do que Curitiba (PR), Campinas (SP) ou São Paulo (SP). Ou que, na disponibilidade de estabelecimentos de condicionamento físico, Boa Vista (RR), Aracaju (SE) e Cuiabá (MT) performam melhor que Santos (SP), Porto Alegre (RS) ou Rio de Janeiro (RJ)”.

A sua cidade é um bom local para envelhecer? Clique aqui e confira.

“Uma cidade boa para as pessoas idosas é uma cidade boa para todas as idades”, pondera a assistente social Marília Viana Berzins, presidente do Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento (Olhe). “É aquela que oferece um compromisso público dos gestores para que as pessoas nasçam, cresçam e envelheçam bem, com princípios de justiça social, tolerância, respeito, distribuição de renda e investimento social nas condições de vida, principalmente daqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade social e fragilidade”.

Nesse sentido, diz ela, a qualidade de vida não pode ser dada exclusivamente pelo tamanho da cidade ou o bairro onde você mora: “O que determina é o local onde você se se sente reconhecido e pertencente. E isso pode ser tanto numa metrópole como São Paulo como em Borá, o menor município brasileiro em população”.

Longevidade e Ressignificação

Verdade seja dita: o aspecto externo – seja numa cidade grande, seja numa pequena – impacta. O interior, então, é determinante. O propósito de vida é “um elevado fator de proteção”, diz a psicóloga e logoterapeuta Maria Helena Budal da Silva, professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

Diversos teóricos já haviam ligado esse sentido interno ao bem-estar físico e emocional. Um deles, o psiquiatra Viktor Frankl (1905 - 1997), foi capaz de materializar de diversas formas esses benefícios e diversos aprendizados.

Sobrevivente na Alemanha nazista, Frankl escreveu “Em Busca de Sentido: Um Psicólogo no Campo de Concentração”. No livro, conta sua experiência de dor como prisioneiro. E estabelece as bases da logoterapia: uma abordagem da psicologia que tem sua base no sentido da vida.

Propósito de vida

Mas o que é o propósito de vida? É algo somente seu. Podem ser um ou vários, longos ou curtos, em diferentes fases da vida, ligados a uma ou mais motivações.

Quem tem isso claro consegue ser mais resiliente e suportar o sofrimento – que “deixa de ser desesperador” – sem perder a esperança ou o contato com a realidade. 

“O modo como reagimos às condições impostas é uma decisão nossa”, diz Frankl, na entrevista abaixo.

E como descobrir esse ou esses propósitos de vida? O autoconhecimento ajuda – como saber mais sobre você, do que gosta, como se vê e quais são suas habilidades, seus quereres, seus medos e suas angústias. O sentido passa por ele, mas está ligado aos valores fundamentais para a existência.

“Para que o propósito de vida seja realizador de forma mais permanente, saudável e integradora, ele precisa estar dirigido a valores superiores, muitas vezes transcendentes”, diz ela. Dirigi-lo a nós mesmos nos mantêm “fechados e presos a nossa própria necessidade, realidade e mazelas”.

Externo e transcendente

Esse olhar para fora inclui as relações sociais. Elas são outro pilar para viver mais e melhor e “nos levam para o mundo, fora de nós e de nossas limitações”. Promovem não apenas novas descobertas e transformações, mas um senso de pertencimento, em que há comunhão, compreensão e amparo.

De diversas formas, esses laços permitem também que você se conheça melhor. “Na relação com o outro, descubro e me encontro”, sentencia Maria Helena.

Esse conjunto de autoconhecimento, sentido de vida e relações sociais traduz sua humanidade e sua individualidade. E se completam com a espiritualidade. “A dimensão espiritual é o que nos define como humanos e o que nos possibilita ter a capacidade de nos posicionar.”

A professora da PUCPR conclui: “Ela pode nos ajudar a ter mais saúde, resiliência e discernimento diante da vida e de suas possibilidades. Assim, contribui não somente para a longevidade, mas para uma vida rica de sentido e realização”.

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