Ficar sem sexo pode apagar a memória biológica do prazer, afirma Lucia Alves da Silva Lara, presidente da comissão de sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Embora seja uma situação comum em casais longevos, é necessário tomar algumas medidas para estimular o pensamento sexual, defende a coordenadora do Ambulatório de Estudos em Sexualidade Humana da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.


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“Não podemos esquecer que sexo é saudável, seja na juventude, na meia-idade ou na terceira idade; faz bem para a pele, para o coração, é um exercício potente e traz felicidade”, ressalta a especialista, que diz ser necessário redimensionar, readequar, resgatar e reinventar o sexo após os 50 anos. Confira, a seguir, a sua entrevista ao portal do Instituto de Longevidade Mongeral Aegon.

Instituto de Longevidade Mongeral Aegon – Com o passar dos anos, muitas pessoas vão perdendo o desejo sexual. O que as leva a deixar o sexo de lado e/ou dirigir o desejo sexual para outras atividades?

Lucia Alves da Silva Lara – Com o progredir da idade, ocorre uma redução gradual do desejo sexual, mas não significa que ele acabe. Homens e mulheres manifestam o desejo de forma espontânea ou quando recebem um estímulo.

Mas também ocorre de a pessoa abstrair da vida sexual em favor de outras atividades, como trabalho e família ou por fatores físicos, como redução de hormônios e neurotransmissores envolvidos no desejo sexual. E a disfunção sexual de um parceiro pode desencadear a disfunção sexual no outro.

Com o passar dos anos, a rotina sexual entre os parceiros é comum, e o sexo passa a ter hora marcada, no mesmo lugar e com o mesmo ritual. O casal vai perdendo a motivação e, cada vez mais, depende do estímulo físico para ativar o desejo, até que o sexo passa a ser um encontro para cumprir uma “obrigação” do casamento.

Instituto de Longevidade Mongeral Aegon – Os casais muito longevos, então, são as maiores vítimas dessa falta de desejo sexual?

 Lucia Alves da Silva Lara – Sim. É preciso estimular o retorno aos momentos lúdicos a sós para a quebra da rotina relacional. Quanto mais tempo a pessoa fica sem sexo, mais ela se acostuma sem sexo, e o interesse sexual pode diminuir.

O prazer sexual é uma gratificação pela relação sexual e ativa neurotransmissores envolvidos no mecanismo de recompensa, que resulta no bem-estar da pessoa. A frequência produz uma memória biológica do prazer, fazendo com que a pessoa queira vivenciar de novo esse prazer. Na medida em que os estímulos vão reduzindo, o resgate a essa memória do prazer vai ficando menos frequente.

“Sexo faz bem para a pele, para o coração, é um exercício potente e traz felicidade”

Instituto de Longevidade Mongeral Aegon – E o que fazer?

Lucia Alves da Silva Lara – Para mudar essa situação, é necessário tomar medidas que reativem a paixão. Uma viagem, fazer sexo fora do ambiente costumeiro, ter um momento particular.

Para as mulheres que passaram a menopausa, é recomendável verificar se existe necessidade de tratamento com reposição hormonal, que melhora o humor, os fogachos, reduz o ressecamento vaginal e a dor na hora da relação.

No caso dos homens, muitas vezes a vergonha os impede de procurar ajuda quando não conseguem manter uma ereção. Porém, é necessário que ele procure um especialista, já que existem medicamentos e tratamentos eficazes para resolver o problema da disfunção erétil.

Mas não podemos esquecer que sexo é saudável na juventude, na meia-idade ou na terceira idade. Sexo faz bem para a pele, para o coração, é um exercício potente e traz felicidade.

Por isso, faz parte do tratamento das disfunções sexuais a prescrição de livros e filmes eróticos, bem como o estímulo ao retorno dos momentos lúdicos do casal, a sós, para a quebra da rotina relacional e estimular o pensamento sexual.

Instituto de Longevidade Mongeral Aegon - O sexo deve ser reinventado após os 50 anos de idade? Como?

Lucia Alves da Silva Lara - Os termos mais corretos são redimensionar o sexo, porque pode não ser possível retornar aos arroubos sexuais do início do relacionamento; readequar, porque nem sempre ficarão felizes quando tomarem consciência de que o sexo da juventude deles nem sempre poderá ser vivenciado; resgatar, porque a memória do sexo bom compartilhado ainda está presente nos relacionamentos de longa duração; e, a partir do resgaste dessa memória boa e da vivência dela entre os casais que se curtem, sim, é possível reinventá-lo.

Instituto de Longevidade Mongeral Aegon - A falta de sexo provoca efeitos colaterais no organismo?

Lucia Alves da Silva Lara - Segundo teoria dos antigos médicos gregos, a falta de relação sexual pode levar a problemas como cefaleia, tristeza, melancolia, depressão e até suicídio. Eles chamavam a atenção para o papel benéfico da atividade sexual para a saúde do ser humano, referindo que o sexo ajuda a manter o equilíbrio mental, desde que seja praticado na medida certa.

Diziam que o sexo pode ajudar os pacientes mentais a se recuperarem, mas ressaltavam que tanto a abstinência sexual quanto a atividade sexual excessiva podem afetar negativamente a saúde física e mental do homem.

Porém essas conclusões eram derivadas de observações empíricas, indicando determinados sinais e sintomas de patologias relacionadas com manifestações psicossomáticas de pessoas com abstinência sexual de longo prazo ou com hiperatividade sexual.

Acreditavam que a relação sexual limpava o corpo de impurezas e que a troca de fluídos corporais durante a relação sexual ajudaria o corpo a manter o seu equilíbrio, que é fundamental para a saúde física e mental.

Já no início do século passado, Freud [médico neurologista, criador da psicanálise, 1856-1939] disse que o homem não seria um ser completo sem desenvolver plenamente a sua sexualidade e estaria sujeito a diferentes níveis de afetação mental se não vivenciasse plenamente a sua função sexual.

“Após a menopausa, 52% das mulheres apresenta algum tipo de queixa sexual”

Instituto de Longevidade Mongeral Aegon – O que mais atormenta homens e mulheres quanto o assunto é sexo na maturidade?

Lucia Alves da Silva Lara – Disfunção erétil, nos homens; redução do desejo sexual e dor na relação sexual, nas mulheres.

Vale ressaltar que medicamentos como antidepressivos, anti-hipertensivos e doenças como diabetes, depressão, hipertensão arterial e aumento de colesterol e triglicerídeos, redução dos hormônios estrogênios, nas mulheres, e de testosterona, nos homens, também podem reduzir o desejo.

Nos homens, o hormônio DHEA, que é um precursor da testosterona, reduz gradativamente a partir dos 20 anos e, aos 60 anos, eles chegam a perder 50% a 60% dele e isto pode provocar disfunção erétil e redução do desejo sexual.

O climatério é uma etapa complexa na vida da mulher, marcada por modificações físicas e psíquicas, que podem gerar uma variedade de queixas associáveis ao hipoestrogenismo e reduzir o desejo sexual. Após a menopausa, 52% das mulheres apresenta algum tipo de queixa sexual.

Instituto de Longevidade Mongeral Aegon – Aos 60 e aos 70 anos, no Brasil, as pessoas mantêm, em média, três ou no máximo quatro relações mensais, segundo a Pesquisa Mosaico 2.0 da USP. Essa é a maior queixa nos consultórios de ginecologia e urologia?

 Lucia Alves da Silva Lara Sua cidade está preparada para o envelhecimento da população? Milhares de pessoas já participaram da nossa pesquisa. Clique aqui e participe você também.– Vários fatores interferem no número de relações sexuais e na satisfação que estas podem trazer às pessoas com mais idade.

A idade avançada aumenta o risco para o comprometimento cognitivo, o que é uma barreira para a manutenção de relacionamentos íntimos e reduz o número de relações sexuais.

As funções cognitivas preservadas favorecem maior envolvimento na atividade sexual entre idosos. No plano físico, as doenças crônicas e o câncer são mais prevalentes nesta fase e promovem a disfunção sexual.

“Homens viúvos tiveram 2,2 vezes mais chances de terem depressão, ansiedade e distúrbio do sono”

Instituto de Longevidade Mongeral Aegon – Tanto homens quanto mulheres estão mais propensos a buscar um novo relacionamento e uma nova vida sexual quando se tornam viúvos ou se separam após longos casamentos? Ou há diferenças de comportamento entre os gêneros?

Lucia Alves da Silva Lara – Para ambos, a viuvez traz consequências emocionais negativas imediatas, como a depressão, mas, a longo prazo, as pessoas acostumam com a condição e passam a ter uma vida satisfatória, principalmente as mulheres.

Um estudo desenvolvido na Suécia demonstrou que os viúvos que permaneceram sozinhos por quatro ou cinco anos após a morte de suas esposas tiveram 2,2 vezes mais chances de terem depressão, ansiedade, distúrbio do sono e vários outros sintomas físicos.

Instituto de Longevidade Mongeral Aegon – O prolongamento da vida sexual somado a práticas inseguras tem refletido no aumento de ocorrências das DSTs entre os idosos. Segundo a Pesquisa Mosaico 2.0, só 10% dos maiores de 60 anos afirmam usar preservativos nas relações sexuais. Qual a explicação para essa negligência?

Lucia Alves da Silva Lara - A mulher tem uma grande dificuldade em negociar a camisinha previamente ao encontro sexual. E, quando solicita durante o ato, pode não conseguir a adesão do parceiro, cedendo assim ao momento de intimidade sexual.


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