Diante de uma profunda polarização nos dias atuais devido à crise moral que se estabeleceu na política brasileira, grupos de lados opostos têm trocado ofensas e acusado seus opositores de serem fascistas ou comunistas. Mas até que ponto há exagero ou razão nas análises políticas dos adversários?

Para entender melhor a situação, o portal de notícias do Instituto de Longevidade foi conversar com a historiadora e professora de História na Universidade Estácio de Sá, Cátia Faria. Leia abaixo essa esclarecedora entrevista.

Instituto de Longevidade: Professora, antes de mais nada, a senhora poderia falar um pouco da diferença entre Fascismo e Comunismo?

Cátia Faria: Bom, vamos começar pelo Comunismo, porque acho essencial diferenciar Comunismo de Socialismo para depois a gente pensar na relação disso com o Fascismo. O Comunismo é uma ideologia criada por Karl Marx que nunca chegou a existir na prática. A gente costuma falar de União Soviética comunista, de Cuba comunista, mas na verdade elas são socialistas. O Socialismo, segundo Marx, seria uma etapa anterior ao Comunismo. No Comunismo, não haveria mais a necessidade do Estado e nem de forças repressoras, porque nesse momento todos seriam cientes dos seus deveres e direitos e não haveria necessidade de coerção no sentido de obrigar alguém a fazer alguma coisa. Isso a gente nunca teve! No Socialismo, o Estado ainda existe porque ele precisa ensinar as pessoas para essa outra etapa futura.


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A ideia do Socialismo, também conhecida como Ditadura do Proletariado, seria uma Democracia pautada na decisão ampla de todos. Na Democracia capitalista, você delega a alguém o direito de te representar. Você escolhe alguém para o Parlamento ou para a Presidência e essa pessoa estará lá para representar seus anseios. Isso é uma Democracia liberal. No caso do Socialismo, a Democracia é feita de forma diferente, com reuniões em grupos ou cooperativas, e essas pessoas conjuntamente tomam suas próprias decisões. E o Estado seria representativo dessas decisões coletivas.

Instituto de Longevidade: E isso aconteceu na União Soviética?

Cátia Faria: A gente pode duvidar disso, concordo plenamente! Ou em Cuba! Mas a ideia da Revolução Russa e da Revolução Cubana era exatamente essa. A gente também pode duvidar que isso tenha acontecido na China, embora o modelo chinês tenha sido o mais próximo disso também. Em todos esses três países, houve uma supremacia do Estado sobre as decisões coletivas.

Instituto de Longevidade: E o Fascismo?

Cátia Faria: O Fascismo é antiliberal, muito embora ele seja capitalista e antissocialista, embora ele beba na fonte do Socialismo sem necessariamente se tornar socialista. Ele vai criticar o Liberalismo e essa Democracia liberal exatamente por considerar isso um caos. O Fascismo é uma ideologia que vai dizer que, na Democracia, cada um tem o seu interesse particular. Aquela ideia de que você escolhe alguém para te representar é falsa. No que você transfere seu voto e delega a uma pessoa, na verdade essa pessoa está representando a si mesma ou a seus interesses particulares. Então a gente pode imaginar o cenário de um congresso, que pode ser o brasileiro, onde deputados e senadores não têm uma coesão, não votam a não ser que alguém ofereça alguma coisa que interesse àquele grupo. Eles não estão preocupados com seus eleitores, mas com outras demandas, em se reeleger e nas vantagens que terão.


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Neste sentido, o Fascismo vai dizer que você não consegue aprovar o que de fato é necessário. Se cada um tem uma pauta que é individual, e não coletiva, isso não serve enquanto representativo. Então eles preferem um líder forte que sabe o que o povo quer e vai fazer o que é necessário e melhor para aquele país.

A outra questão que os fascistas são contrários é à ideia da Meritocracia. Dentro do Liberalismo, você consegue aquilo que você luta por. Se você for um bom trabalhador, se você se esforçar, você vai chegar a algum lugar. Isso é uma sociedade baseada no mérito. Ela é positiva quando você consegue chegar lá.

Instituto de Longevidade: E o que fazer com treze milhões de desempregados? Culpá-los?

Cátia Faria: No Fascismo, eles não serão amparados pelo Estado liberal, que vai apontar o dedo e dizer que você falhou porque você é ruim. Se não tem mérito, o problema é seu. Neste sentido, o Estado sempre se ausenta da responsabilidade. Então seria uma sociedade injusta.

Embora o Socialismo também faça essa crítica, o Fascismo vai dizer que o problema do Socialismo é que ele cria a disputa entre as classes e o ódio. Então, neste sentido, ele também não consegue uma sociedade coesa. Se é para ter uma sociedade onde um grupo tenha que superar o outro, que esteja sempre em enfrentamento sobre o outro, essa não é uma sociedade coesa, nem ideal. Neste ponto, a sociedade Fascista é comparada a uma engrenagem, seja biológica, seja mecânica.

Instituto de Longevidade: Como assim?

Cátia Faria: Imagina um relógio que trabalha ali com várias engrenagens. Qualquer uma daquelas peças que você retire, automaticamente o relógio não funciona. Então o que o Fascismo diz é que, diferentemente do Liberalismo e do Socialismo, todo e qualquer cidadão precisa do Estado, e o Estado precisa de todo e qualquer cidadão. Não tem importância haver ricos e pobres no Fascismo, porque a sociedade é assim. Dentro da engrenagem, há peças maiores e menores, mas, sem qualquer uma delas, o “troço” não funciona. Então, de acordo com o que eles pregam, não é para haver miseráveis. O Estado tem que cuidar disso, mas não há nenhum problema em haver desigualdade econômica. O problema é que não pode ficar alguém desassistido. E é essa a grande forma que o Fascismo encontra de encantar as pessoas. Enquanto ideologia, terceira via (nem Socialismo, nem Comunismo), ele é perfeito, como toda ideologia é perfeita, por ser só uma teoria. Se a gente pensar a Teoria Liberal na prática, ela é perfeita, porque se todo mundo tem os meios, o seu próprio trabalho, sua força de trabalho para conseguir algo, aparentemente isso não cria desigualdade. Se a gente pensar lá no Socialismo, em que tudo vai ser decidido em sociedade e que posteriormente não vai haver a necessidade do Estado, isso é perfeito. Mas se pensarmos no Fascismo, que o Estado vai ser sempre acolhedor, que você vai estar sempre apoiado pelo grupo, que não existe o indivíduo, isso é coisa do Liberalismo. A pessoa só existe quando está dentro de um todo, sozinho ninguém existe. Neste sentido, estamos lá perto do socialismo outra vez, mas ainda não é Socialismo, porque o Socialismo criaria luta de classes.

Instituto de Longevidade: O que mais poderia caracterizar a existência do Fascismo?

Cátia Faria: A grande questão do Fascismo é que ele, para existir, precisa ter um componente discriminatório. Quando eu digo que você não existe fora do grupo, é preciso eu dizer quem está dentro do grupo e quem está fora. E se você está fora, se não faz parte da engrenagem, você é obsoleto e pode ser eliminado. É aí que vem a questão da perseguição aos judeus, ciganos e homossexuais na Alemanha. O sucesso só existe para essa sociedade se essa outra parte for eliminada.

Instituto de Longevidade: Algumas pessoas andam acusando outras de fascistas. A senhora concorda?

Cátia Faria: Eu recentemente estava lendo que tem um componente que leva alguns autores brasileiros a discordar que esse seria um discurso Fascista. Que componente seria esse? O Nacionalismo. O Fascismo é, por si só, uma ideologia nacionalista. Inclusive, em cima disso, recria-se a história. Na Alemanha, foi procurada alguma coisa que seja rigorosa, que seja muito boa e represente a melhor parte daquela sociedade, e essa sociedade tem que voltar a essas raízes se quiser crescer. Na Itália, foi obviamente o Império Romano, a glória de Roma. O Fascismo sempre vai lidar com a história de forma a encontrar um ponto ótimo dentro dessa história, um tempo de glória que precisa ser revivido. No caso do Brasil, o problema é o Nacionalismo. Vemos a defesa das privatizações, coisa que o Fascismo jamais defenderia. O nacionalismo está em parte da população e no movimento, como um todo.

Instituto de Longevidade: Em contrapartida, outra parte das pessoas andam acusando adversários políticos de comunistas. A senhora concorda com isso?

Cátia Faria: No Brasil, sempre houve essa manipulação com relação ao medo do comunismo. Isso foi muito bem criado depois de 1935, com o Levante Comunista de novembro de 1935, e a partir daí houve um grande empenho do Vargas e uma grande comunhão entre imprensa e igrejas protestantes e católicas na construção dessa ideia de que o comunismo é a representação do mal absoluto. Não estou dizendo que eu concordo com os regimes que aconteceram. A partir daí, basta você dizer que o outro é comunista, que você automaticamente transfere pro outro todas as qualidades negativas que puder imaginar. Isso foi muito bem utilizado em 1964, quando disseram que o Jango era comunista. Nos Estados Unidos, recentemente, o Obama foi acusado de ser comunista. Se há uma corrente comunista hoje no país, alguém tem que voltar e repensar as noções de Comunismo.

Instituto de Longevidade: E por que o Comunismo não chegou a existir?

Cátia Faria: Essa é uma excelente pergunta, e a minha resposta será bem particular, não como historiadora, mas como pessoa. Não acredito na humanidade. O Comunismo, assim como o Anarquismo, que de baderna não tem nada, pressupõe uma bondade humana. Uma capacidade de doação que eu não sei se o ser humano tem. Eu acredito que, enquanto ideologias, são belíssimas. Mas todas as vezes que foram tentadas, alguém ou alguns grupos vão se aproveitar e tomar para si o poder. O Comunismo nunca vai acontecer porque haverá sempre um grupo de oportunistas que não vai permitir que isso aconteça. Isso é inerente ao ser humano. Tenho uma visão muito pessimista do ser humano com relação à ecologia, ideologia e outras “ias” mais.

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