Meu primeiro filho nasceu este ano, no início de maio, bem no meio da pandemia. Após a imensa felicidade por sua chegada, o desespero: eu e minha esposa estávamos sozinhos, isolados socialmente, com um bebê que veio ao mundo sem bula ou manual de instruções e sem podermos contar com a ajuda de familiares e amigos.

Após muita ralação, noites em claro e pesquisas sobre o tema na internet, decidimos contratar uma profissional com larga experiência no trato com crianças. Uma antiga conhecida da minha esposa, que nos garantiu estar, assim como nós, sem contato físico com o mundo externo. As condições foram claras: eu a busco toda segunda-feira e a levo de volta na quinta. Por quatro dias na semana, permanecemos todos isolados aqui em casa. Nos fins de semana, precisávamos acreditar em que manteria sua palavra de permanecer em isolamento.

Nosso primogênito vem crescendo saudável e forte, e a "babá" tem nos ajudado muito com seus conhecimentos práticos. Apesar da pouca instrução, é uma pessoa que entende de tudo e conversa sobre todos os assuntos. Entende da vida, aprendeu no dia a dia, trabalhando, ouvindo a conversa dos patrões. Os papos são sempre muito agradáveis, por vezes engraçados. Mas hoje pela manhã, algo específico chamou minha atenção. Durante o meu sagrado home office, na sala do nosso modesto apartamento, ela parou ao meu lado com meu filho no colo. Após uma rápida troca de gracinhas entre pai e filho, ela disparou: "Ele é muito lindo, parece um anjinho de tão branquinho!"

Num primeiro momento, aquela fala me soou extremamente preconceituosa. Como assim? Um anjinho de tão branquinho? Muito lindo de tão branquinho? Seria ela incapaz de ver beleza em crianças que não fossem brancas? Foi quando me dei conta de que aquelas palavras vinham de uma pessoa negra. A partir desse momento, minha indignação instantaneamente se converteu em constrangimento. Eu tinha ali, à minha frente, uma vítima do preconceito enraizado, do racismo estrutural, martelado por séculos em discursos cotidianos, em livros didáticos, em histórias e cantigas de ninar, em telenovelas e revistas de moda e beleza.

O constrangimento logo evoluiu para a culpa histórica de anos e anos de uma total ausência de políticas de inclusão social capazes de corrigir ou minimizar o atraso educacional, econômico e cultural forjado por séculos de escravidão e que ainda se reflete nos dias atuais em "inocentes" piadas e comentários racistas, em uma sociedade patriarcal, heteronormativa e caucasiana. Lá no fundo da minha mente, comecei involuntariamente a cantarolar os versos do refrão do samba-enredo da minha escola do coração, Mangueira, de 1988, ano em que se comemorou o centenário da libertação dos escravos. "Livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela". 

A culpa não tardou a se transformar em vergonha, e me peguei submerso em lembranças na tentativa de identificar situações em que devo ter feito alguma piada ou comentário racista, ou repetido algum gesto ou costume que aprendi com meu pai que, por sua vez, aprendeu com o meu avô e assim sucessivamente. Algo desprezível que estivesse interiorizado em mim, culturalmente, inconscientemente. Por quantas gerações vimos perpetuando esse mal?

Olhei para aquela mulher com doçura, senti vontade de abraçá-la, mas não consegui me mover. Pensei em pedir desculpas, mas ela não entenderia. Por fim, de tantas coisas que pensei em dizer, a única que me foi possível naquele momento foi: "anjos não têm cor", numa tentativa emocionada de corrigir séculos de desigualdade social com apenas quatro palavras.

Sinceramente, não sei se ela ouviu ou entendeu minha resposta. Parecia concentrada, preocupada em embalar a criança ao som de uma velha cantiga de ninar que contava a história de um boi assustador e malvado que, ao contrário dos anjinhos que povoavam o seu céu, tinha a cara preta.

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