Em Santa Catarina, vive-se mais. A recente Tábua de Mortalidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta uma longevidade de 79,7 anos – no Brasil, a média é de 76,3 anos. Na divisão entre gêneros, o estado também apresenta o melhor desempenho do país: em média, as mulheres chegam aos 83 anos, enquanto os homens, aos 76,4 anos. Outro destaque é a expectativa de vida da população mais velha: quem completa 65 anos deve alcançar pelo menos os 87 anos, ante 85,1 anos, em média, dos brasileiros.

Santa Catarina

“Muitos são os fatores responsáveis por essa atual liderança, mas devemos lembrar que uma mulher que completa 83 anos em 2020 nasceu em 1937. Como era o estado nesta época? Qual a trajetória de vida dela? Qual a sua genética e quais foram seus hábitos de vida? Ela está com autonomia e independência preservadas? Envelhecer de forma ativa não é uma corrida de 100 metros rasos: é uma maratona que passa por todos os ciclos da vida e cada um interfere de uma forma diferente no envelhecimento”, pontua o médico Jobair Schafaschek, membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG/SC).

Santa Catarina é um estado composto por 295 municípios, dos quais apenas 7 têm mais de 200 mil habitantes. É o primeiro em taxa de ocupação em trabalho formal, terceiro melhor em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), quinto em renda nominal per capita e nono em densidade demográfica. Ademais, “ocupa a segunda colocação entre os estados com cidades mais seguras e felizes”, observa Schafaschek, que é especialista em Envelhecimento e Saúde do Idoso pela Escola Nacional de Saúde Pública – Fiocruz, acrescentando que “em pelo menos seis universidades catarinenses há programas voltados para idosos, e 86% dos municípios possuem Conselho Municipal dos Direitos do Idoso”.

Todas essas questões sociais interferem na longevidade dos catarinenses, diz o médico, citando estudos da Universidade Stanford que demonstram que os hábitos de vida são o fator mais importante para viver mais e melhor. “Neste cenário, a maioria dos municípios catarinenses se assemelha a Veranópolis [município gaúcho chancelado pela Organização Mundial da Saúde como Cidade Mais Amiga do Idoso]. Ainda é comum observar idosos terminarem seus afazeres de jardinagem e limparem suas calçadas e até as dos vizinhos. Estes simples afazeres domésticos mantêm a pessoa ativa, longe do sofá e em contato com a vizinhança.”

Os estudos que buscam compreender melhor os fatores associados à longevidade geralmente são pautados em fatores genéticos e ambientais, afirma o fisioterapeuta Paulo Medeiros, presidente da Associação Nacional de Gerontologia (ANG-SC) e doutorando em saúde coletiva. “Nesse sentido, podemos pensar na colonização do sul do país, proveniente de alguns países europeus que também demonstram uma maior longevidade. Além disso, não podemos esquecer que, junto, são trazidos hábitos e costumes provenientes daquela cultura”. No entanto, ele é da opinião que “o fato de os catarinenses viverem mais esteja associado, principalmente, a melhor infraestrutura e desenvolvimento socioeconômico do estado, o que acarreta maior qualidade de vida aos seus moradores”.

Políticas públicas para os idosos de Santa Catarina

Uma população que vive por mais tempo também demanda por cidades mais bem preparadas para atender a esse público, defende o Instituto de Longevidade Mongeral Aegon, que, além do Índice de Desenvolvimento Urbano para Longevidade – IDL, pesquisa que avalia o grau de preparação dos municípios brasileiros para o envelhecimento de suas comunidades, criou o programa Gestão Pública para a Longevidade (GPL), com o objetivo de treinar gestores municipais a implementar ações voltadas para a acessibilidade.


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Desde maio de 2018, Santa Catarina faz parte do Brasil Amigo da Pessoa Idosa, “um programa do governo federal com estratégias voltadas ao envelhecimento ativo, saudável, cidadão e sustentável da população idosa – especialmente na faixa de vulnerabilidade social”, explica a gerente de Políticas para Pessoa com Deficiência e Idosos da Secretaria de Desenvolvimento Social de Santa Catarina, Roseane Zacchi Colasante.

A evolução do programa, segundo ela, “é realizada por meio de concessão de selos com gradações diferentes, conforme a etapa alcançada, que vão desde a adesão dos municípios, a criação de conselhos e a realização de diagnósticos até a elaboração de planos municipais e de legislação que apoiem a execução de ações voltadas para um envelhecimento saudável da população local”. Apesar disso, até agora, somente 31 municípios aderiram à iniciativa.

“Uma das etapas do Brasil Amigo da Pessoa Idosa que consideramos de grande importância é a do diagnóstico, que consiste em caracterizar a cidade, conhecer os serviços, as ações, os programas e os projetos disponibilizados para a população idosa e, principalmente, escutar a população para saber qual a sua avaliação sobre o acesso e a qualidade dos serviços e ações prestados”, avalia a gestora.

“Com o resultado, espera-se reunir as informações necessárias para a elaboração de um plano municipal que contemple ações transformadoras e voltadas para o desenvolvimento integral, promovendo a valorização e a inclusão das pessoas idosas em todos os aspectos relativos à vida comunitária; o fortalecimento das redes de proteção e apoio na defesa dos direitos da pessoa idosa, e a cooperação entre diferentes setores governamentais e não governamentais para promover ações locais.”


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No entanto, para o presidente da SBGG-SC, Hercilio Hoepfner Júnior, o Brasil Amigo da Pessoa Idosa “é mais uma iniciativa que não será concretizada na sua totalidade”. E justifica: “Se os governantes utilizassem as políticas públicas que já foram planejadas e o desenho universal [termo criado pelo arquiteto Ronald Mace, em 1985, para produtos e ambientes que podem ser usados por todas as pessoas], todos os habitantes, e não somente os idosos, viveriam muito melhor”. 

Santa Catarina: o que ainda pode melhorar para os 60+

E o que pode feito para os catarinenses continuarem no podium da longevidade? “Desenvolvimento e implantação completa de políticas públicas relacionadas a saúde, educação, segurança e habitação”, enumera o médico e diretor-científico da SBGG-SC, Alessandro Verffel, responsável pelo ambulatório de Geriatria do Centro de Convivência Cidade do Idoso em Chapecó (SC). E também “melhorar a relação entre governo e sociedades civis; políticos pensarem mais na população; e a secretaria estadual de saúde contratar geriatras e gerontólogos para atuar nos hospitais da rede pública”.

Para o neurologista Douglas Kazutoshi Sato, diretor do Instituto de Geriatria e Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), também é preciso “realizar programas mais extensivos de verificação da qualidade de vida dos idosos, projetos de inclusão social e medidas de saúde para controle de doenças comuns, como quadros cardiovasculares, diabetes, hipertensão arterial, depressão e avaliação de quadros demenciais”.

“Não existem fórmulas mágicas, mas conscientização e mudanças de hábitos de vida em busca de um envelhecimento ativo são essenciais para viver mais e melhor. Evitar tabagismo, abuso de bebidas alcoólicas, alimentação rica em sal e gordura, sedentarismo e isolamento social são medidas que ajudam bastante para uma melhor qualidade de vida”, finaliza.

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