As reações das pessoas com muito mais anos que eu a coisas banais do dia a dia sempre despertaram minha curiosidade, seja no ambiente e trabalho, seja em situações divertidas na internet. A primeira memória que tenho a esse respeito vem de uma época em que eu devia ter uns 4 anos. Minha avó, católica praticante e séria, estava em casa, o que sempre era um prazer. O problema é que morava conosco Blatty, uma mistura de pequinês com praticamente todos os vira-latas machos da nossa rua.

A cachorrinha tinha adoração por pernas humanas. Quando a oportunidade aparecia, ela cravava as patas dianteiras na altura da panturrilha das vítimas e demonstrava todo o amor que tinha por aquela canela por meio de movimentos rápidos, ritmados e desagradavelmente úmidos de seus quadris.

Depois de desfilar todas as frases que geralmente os católicos proferem quando precisam de algum auxílio divino, minha vó gritou o nome de várias pessoas da casa. Quando conquistou a atenção de todos, sentenciou: “Tirem esse demônio daqui!”. Apesar do alvoroço, Blatty não pareceu se incomodar e seguiu amando aquela perna.

Outra situação que chamou a minha atenção para as reações de gente com muitos mais anos que eu aconteceu décadas depois. Trabalhava num outrora grande portal de internet e esperava a minha melhor amiga para ir almoçar. Quando ela apareceu, veio com um sorriso sacana e disse: “Algo muito grave está acontecendo no banheiro. Não sei direito o que é, mas eu ouvi uma bateção dentro de um box fechado e uma mulher dizendo: ‘Desce, desgraçado!’”.


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Antes de entrarmos no elevador, o mistério se desfez. Com um desentupidor em uma mão, um rodo na outra e uma cara de quem estava disposta a esganar a autora do “desgraçado”, a senhora da limpeza, que devia estar entre os 65 e 70 anos, passou pela gente. Aparentemente, apesar do excesso de raiva em seu semblante, ela deve ter vencido o duelo que minha amiga havia testemunhado momentos antes.

Situações como essas me deixam com a sensação de “como eu não pensei nisso antes?” toda vez que me lembro da ideia simples e genial que dois irmãos judeus tiveram.

Mas, antes de continuar a ler este texto, melhore a sua experiência assistindo ao vídeo abaixo:

Caso não tenha tido paciência de ver a produção inteira, informo que se trata de uma pegadinha antológica do programa Silvio Santos. Nela, uma menina de camisola, maquiagem tétrica e boneca assustadora divide um elevador escuro com desavisados. Os sustos em sequência provocaram risos em quase 13 milhões de pessoas no YouTube. A diversão poderia ter parado por aí, mas os dois irmãos americanos inventaram um jeito de gargalhar duas vezes com a mesma piada. O resultado é o vídeo abaixo:

A ideia de mostrar pessoas reagindo a vídeos que fazem sucesso na internet virou uma franquia lucrativa nos Estados Unidos. A página no YouTube Fine Brothers Entertainment é acompanhada por 17,8 milhões de inscritos. Suas produções já foram vistas quase 7 bilhões de vezes.

Nascidos em uma família de judeus ortodoxos de Nova York, os irmãos Beni Fine, 37 anos, e Rafi Fine, 35 anos, sempre gostaram de produzir vídeos. Na adolescência, ganharam sua primeira câmera e passaram a transformar em imagens piadas, pequenos sketches divertidos e, na palavra deles, “todo tipo de coisa estranha”. Apesar de Rafi ter se graduado em cinema, o que eles queriam mesmo era ver os amigos gargalharem diante de suas criações.

O mais próximo que estiveram da produção de filmes foi por volta do ano 2000, quando começaram a produzir e exibir animações em festivais. O namoro com a telona durou pouco. Já em 2003, eles haviam percebido que o melhor veículo para o tipo de humor que praticavam era a internet. Lançaram seu primeiro site naquele ano e, em 2004, estrearam seus vídeos na rede. Não foi um sucesso imediato, mas o início de um período de muitas tentativas e aprendizado.

Os irmãos começaram a virar uma corporação de respeito no dia 4 de junho de 2007. Com o domínio de várias formas de fazer rir, eles foram juntando seguidores e desenvolvendo linguagens que iriam inaugurar novas formas de humor na rede. No dia 16 de outubro de 2010, veio o grande achado: eles publicaram um vídeo mostrando como crianças reagem a uma situação na internet. Ao mesmo tempo em que exibia o objeto de atenção da meninada, os irmãos registravam os gritos, sustos e palavrões que o vídeo motivava.

Nascia a série React (reaja, em inglês). O sucesso foi estrondoso. Dessa primeira série mostrando as reações de crianças, derivaram outras. As produções dos irmãos passaram a flagrar adolescentes, adultos, youtubers e, claro, idosos reagindo a situações divertidas na internet.

A série voltada para a terceira idade estreou em 2012. Foram quatro anos de muito sucesso, vídeos assistidos e dinheiro vindo de publicidade na internet. Mas, como sempre é difícil ser dono definitivo das coisas na rede, muita gente começou a produzir vídeos similares. E passou a pleitear o direito de usar a marca React em suas produções.

Depois de uma briga em que perderam quase 700 mil seguidores, os irmãos Fine se entenderam com os reclamantes e seguiram em frente. Ainda bem, pois nos brindaram com vídeos divertidíssimos como esses abaixo, alguns dos campeões de audiência:

50 tons de cinza

Gangnam Style

Banda de rock Spliknot

Luta livre

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Por

Edson Franco, 55 anos, é coordenador de conteúdo online do Canal Rural. Foi editor no jornal “Folha de S.Paulo” e nas revistas “Guitar Player Brasil”, “Galileu”, “Ele Ela” e “IstoÉ”. É coautor do livro “Música Popular Brasileira Hoje” (Publifolha) e editor de “Zózimo Diariamente” (Editora Ep A), uma biografia do jornalista Zózimo Barroso do Amaral. Nas horas vagas, toca guitarra e banca o DJ em festas de música brasileira dançante.

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