Há 10 anos, pouca coisa sabíamos sobre importantes órgãos do país, como o Supremo Tribunal Federal (STF), o Ministério Público (MP) e a Polícia Federal (PF). Contudo, de lá para cá, uma série de acontecimentos colocaram essas instituições em destaque no cotidiano dos brasileiros, que até se arriscam em debates profundos sobre suas estruturas de pessoal, alçadas de atuação e orçamentos. O povo hoje discute as decisões dos ministros do Supremo, cobram ações do MP e da PF. Mas nada tem chamado tanto a atenção quanto a criatividade dos nomes das operações da Polícia Federal.

Os nomes são os mais inusitados e criativos possíveis, e fazem alusão a personagens, momentos históricos, passagens bíblicas e mitológicas, que surpreendem a todos pelos trocadilhos e pela sutiliza. A PF garante que tanta criatividade vem deles mesmos, sem contar com a ajuda de profissionais de publicidade. Cada delegado tem autonomia para nomear suas operações, muito embora uma reportagem da Revista Piauí apontasse o ex-diretor da PF Zulmar Pimental como responsável por diversos nomes de operações da Polícia Federal. Ironia do destino, Zulmar foi afastado da corporação por uma dessas operações.


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O portal de comunicação do Instituto de Longevidade foi investigar a fundo, numa ação que criativamente batizamos de Operação Ilma (Instituto de Longevidade Mongeral Aegon), e trouxe para os nossos leitores as histórias de algumas das mais famosas operações da Polícia Federal. Afinal de contas, informação de qualidade é essencial para nos mantermos atualizados sempre. Confira abaixo!

Nomes e histórias de algumas operações da Polícia Federal

Operação Arca de Noé (2002)

Reconhecida como a precursora na arte dos nomes criativos, a operação foi realizada no Mato Grosso sob o comando do delegado Reinaldo de Almeida e contou com a participação de cem agentes da PF, 22 promotores estaduais e quatro procuradores federais.

Oito mandados de prisão e 18 de busca e apreensão foram expedidos pela justiça. Além de João Arcanjo Ribeiro, acusado de chefiar o jogo do bicho na região, também foram presos os coronéis reformados da PM Frederico Lepesteur, Marcondes Ramalho e Costa Neto, e Luiz Alberto Dondo Gonçalvez, responsável pela contabilidade do grupo. De acordo com os investigadores, os coronéis cuidavam da entrada das máquinas caça-níqueis. O piloto de Arcanjo, Fernando de Matos Cardoso, e dois funcionários de uma fazenda, Orivaldo Dias da Silva e Paulo Roberto Brandão, também foram detidos.

O nome da operação faz um trocadilho entre a arca utilizada pelo personagem bíblico Noé para salvar um casal de cada animal do dilúvio divino e a loteria informal considerada contravenção penal e que movimenta cerca de R$ 12 bilhões por ano.

Operações da Polícia Federal. Crédito: Javier Cruz Acosta/shutterstock

Operação Satiagraha (2008)

A ação, comandada pelo então delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz em junho de 2008, culminou com as prisões de Daniel Dantas, sócio-fundador do Grupo Opportunity; do ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta; do investidor Naji Nahas e de outras 14 pessoas, todos suspeitos de operar um esquema de corrupção, desvio de verbas públicas e lavagem de dinheiro.

Mas o delegado logo foi afastado do caso por ter sido acusado pelo Ministério Público Federal, após investigação da PF, de vazar detalhes da operação à imprensa e realizar escutas com a participação de agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Satiagraha, ou Satyagraha, é um termo hindi composto pelas palavras Satya, que significa verdade; e agraha, que significa firmeza. Juntas, as duas palavras denominam a uma filosofia desenvolvida por Gandhi para o movimento de resistência não violenta na Índia. A filosofia também inspirou o político americano Martin Luther King Jr. durante a campanha liderada por ele pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos da América.

Operação Vitruviano (2010)

Conduzida por policiais federais de Campo Grande, a operação desmantelou uma quadrilha que utilizava empresas de fachada para lavar e desviar verbas públicas. De acordo com os agentes, mais de R$ 110 milhões foram desviados dos cofres públicos entre os anos de 2002 e 2006. Ao todo, a justiça expediu 21 mandados de prisão temporária e 12 de busca e apreensão em cidades de Mato Grosso do Sul.

O nome da operação faz alusão ao fato da cadeia criminosa se entender como simétrica, com proporções perfeitas para atuação em todos os segmentos delituosos, assim como o Homem Vitruviano, de autoria do escritor romano Vitruvius Pollio, e suas proporções perfeitas.

Operações da Polícia Federal. Crédito: Pixabay

Operação Trem Fantasma (2010)

Os policiais federais investigaram e desarticularam uma organização criminosa especializada em fraudar mercadorias que chegavam ao Aeroporto Internacional de São Paulo.

O nome “trem-fantasma” se referiu à prática dos fraudadores de entrar em áreas restritas do aeroporto com comboios de caminhões fantasmas (sem autorização) para retirar mercadorias irregularmente.

Operação Gato de Botas (2010)

A operação contou com a ação de mais de 65 policiais federais e prendeu cinco pessoas, entre elas um policial militar, todos envolvidos em esquemas de redes clandestinas de TV a cabo nas cidades de Volta Redonda, Barra Mansa e Barra do Piraí, no sul fluminense.

O nome da operação fez uma brincadeira entre o personagem criado pelo escritor francês Charles Perrault em 1697 e expressão popular “gato”, que se refere a ligações clandestinas de TV a cabo. Os presos atuavam no sul do fluminense, como Volta Redonda, Barra Mansa e Barra do Piraí.

Operação Gasparzinho (2011)

Realizada pela Polícia Federal em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU) e o Ministério Público Federal, a operação desarticulou uma organização criminosa que utilizava empresas de fachada registradas em nomes de “fantasmas” para fraudar licitações públicas em pelo menos 35 municípios da Paraíba. Em menos de três anos, a quadrilha movimentou mais de R$ 23 milhões. Nove mandados de prisão temporária e 12 de busca e apreensão foram expedidos, além do sequestro de bens dos envolvidos.

O nome da operação foi uma referência ao desenho animado “Gasparzinho, o fantasminha camarada”, já que os acusados utilizavam empresas e funcionários fantasmas para movimentar valores e registrar bens da quadrilha.

Operação Alegoria da Caverna (2011)

Operações da Polícia Federal. Crédito: MatiasDelCarmine/shutterstockO texto Alegoria da Caverna foi escrito pelo filósofo grego Platão para o seu livro intitulado A República, que data de 517 a.C. A alegoria trata de pessoas que nasceram e viveram no interior de uma caverna e que pensavam se tratar de deuses e divindades as sombras vindas através de uma fresta que dava para o mundo exterior. Ao tomarem coragem e saíram da caverna, eles descobrem que se tratava de pessoas normais como eles, e não deuses.

Daí a ligação com a operação realizada em Juazeiro do Norte (CE) e que culminou com a prisão de falsos agentes ferroviários que atuavam no metrô de Fortaleza. A polícia constatou a formação de uma milícia armada que usava fardamento e carteiras funcionais da “Polícia Ferroviária Federal”, órgão previsto na Constituição, mas que oficialmente não existe.

O nome da operação fez alusão à falsa impressão da realidade passada pelos homens fardados à população, que acreditava se tratar de agentes do estado no exercício de seu poder de polícia.


Operação Carniça (2011)

A operação foi responsável pela prisão de duas pessoas no estado da Bahia e uma terceira no Amapá. Os três foram acusados de formação de quadrilha e pelo desvio de R$ 6 milhões de recursos da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) destinados a organizações não governamentais (ONGs) indígenas.

Os valores deveriam ter sido usados na compra de medicamentos, no atendimento médico, transporte dos doentes, obras de saneamento e no pagamento dos salários dos agentes indígenas de saúde. De acordo com os agentes federais, o desvio de verba foi responsável pela morte de mais de 20 pessoas por falta de atendimento adequado.


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A Polícia Federal ligou a escolha do nome da operação à forma desprezível com que os estelionatários tratavam a vida dos índios.

Operação Efebo (2011)

Mais uma vez a antiga Grécia inspirou os policiais federais; dessa vez, no Pará. A história dos “efebos”, jovens meninos que eram iniciados na vida sexual por homens mais velhos, se repetiu no consultório de um psicólogo de 29 anos, que induzia menores a se exporem sem roupas diante de uma webcam.

O investigado foi indiciado por produção, posse e transmissão de imagens de pornografia infantil, além do crime de aliciamento de adolescentes.

Operação Wolverine (2016)

A operação investigou um ex-tesoureiro da Caixa Econômica Federal acusado de desviar R$ 2,5 milhões do cofre de uma agência no Rio de Janeiro. De acordo com a PF, o investigado teria aproveitado um momento de confraternização dos funcionários na véspera de um feriado para roubar dinheiro do cofre.

No dia seguinte ao roubo, o funcionário substituiu sua foto de perfil em uma rede social pela do personagem Wolverine. Daí o nome da operação.

Operações da Polícia Federal. Crédito: Anton Gvozdikov/shutterstock

Operação Fatura Exposta (2017)

O nome Fatura Exposta foi um trocadilho com o termo “fratura exposta”, já que a operação investigou um esquema de fraudes na compra de próteses para o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO) e para a Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro.

De acordo com os agentes, o esquema desviou R$ 300 milhões de importações e licitações internacionais e superfaturamento em contratos com órgãos públicos. O empresário Gustavo Estellita e o ex-secretário de Saúde Sérgio Côrtes foram presos na operação.

Operação Tolypeutes (2017)

Ação deflagrada pela Polícia Federal contra um esquema de propina e lavagem de dinheiro em contratos de obras civis no Rio de Janeiro, em especial na construção da Linha 4 do Metrô. Os alvos da operação foram o diretor de Transportes sobre Trilhos do Estado do Rio de Janeiro (RioTrilhos), Heitor Lopes de Sousa Junior, e o então subsecretário de turismo do estado, Luiz Carlos Velloso, que foram presos.

Tolypeutes é o nome científico do tatu. 😉

Operações da Polícia Federal. Crédito: Pixabay

Operação Vórtex (2018)

No mundo aeronáutico, vórtex é o movimento de massas de ar em formato de ciclone que precede uma turbulência. Desdobramento da Operação Turbulência, a Vórtex investigou indícios de corrupção na compra do jato que transportava o candidato à Presidência da República Eduardo Campos.

A Operação Turbulência havia identificado que a empresa Câmara e Vasconcelos, responsável pela compra do jato, fazia parte de um grupo de empresas que lavou aproximadamente R$ 600 milhões em um esquema que abasteceu as campanhas de Eduardo Campos ao governo de Pernambuco em 2010, e de Marina Silva à presidência pelo PSB após a morte de Campos. Em 2014, a Câmara e Vasconcelos recebeu R$ 159,9 mil da construtora Lidermac.

Após análise das contas bancárias, a PF descobriu contratos no total de R$ 87 milhões firmados entre a Lidermac e o governo de Pernambuco entre os anos de 2010 e 1016. O Supremo também identificou repasses ilegais de verbas da empresa para o Diretório Nacional do PSB na época da campanha presidencial de Eduardo Campos.

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