A morte é um jogo de cartas marcadas. Não importa a sua sorte, talento, competência ou malandragem, nem os ases, reis e rainhas que você tire do baralho, a última carta será sempre um nove de espadas, símbolo do fim. A bandida vem de qualquer jeito, a qualquer hora, sem pedir licença, descartando os ternos de linho 90, vestidos de seda pura, joias e dobrões, debochando dos amores, obras, deleites, amarguras e vontades. Bota um lacre definitivo nos sonhos, uma pá de cal nas esperanças, minutos depois de você arriscar o futuro na loteria, ou jurar paixão eterna. A morte não perdoa e, às vezes, desrespeita todos os prognósticos.

Venceslau Madeira, por exemplo, mal saíra da casa de Nézinha dos Astros - taróloga afamada de São João de Nepomuceno, Minas - com o vaticínio de herança, amantes maravilhosas, negócios de sheik, caiu fulminado na calçada e nem estrebuchou; passou-se com a cara na sarjeta, pobre e mal amado. Gonçalves, com os resultados dos exames que lhe davam saúde de ferro ainda na mão, caprichosamente, emborcou murcho no painel do fusca, a dez metros do estacionamento da clínica - verdade seja dita, ele fumava como uma locomotiva do império!

Não vale o escrito, não tem lógica, nem onde ou porquê, a morte faz e desfaz das expectativas de vida. Somente ela, ao seu critério e sabor, tem o poder maior de encerrar o livro, independentemente da página que você estiver escrevendo. Foi assim com Cinézio, aos cento e seis anos, e com Adamastor, verde no mundo, aos dezenove. Numa esquina escura de Bangkok, na praia ensolarada de Copacabana, na triste monotonia das estepes russas, na imensidão causticante do Saara, a morte está à espreita, sempre pronta e capaz de ceifar.

Contudo, para Aderbal Soleira da Silva, o Babal, como era conhecido no centro de Juiz de Fora, a morte nunca teve crédito. Desde menino, dizia que viveria tanto quanto Matusalém, talvez até mais. Aos cinquenta anos, orgulhava-se de nunca ter ido ao médico, nunca ter tomado um remédio sequer. Enquanto todos ao redor caíam, presas de um surto viral poderoso, Babal ria-se do infortúnio alheio, exibindo o torso nu no frio inclemente de junho na cidade mineira. Bebia como um Buick 62. Aliás, seu esporte favorito era derrubar copos e mais copos de traçado, uma poção que mistura vinho quinado com a popular cachaça. Um tiro para quem já provou. Noite após noite, fazia uma romaria pelos bares da cidade até desembocar no botequim do Laurêncio. Dali, só saia por volta da meia-noite, enxotado pelo português.

No entanto, religiosamente às cinco da manhã, lá estava ele no ponto de ônibus, firme e forte, preparado para encarar a viagem e a jornada de trabalho. Aos trancos e solavancos, saía de Juiz de Fora no buzum medíocre, e descia em Caxias. Cerca de duas horas e um pouco de infortúnio para chegar à porta da fábrica. Torneiro mecânico, lidava com máquinas e ferramentas que exigem a atenção dos sentidos. Ao mínimo descuido, ia-se um dedo, dois, a mão inteira. Nunca sofreu um arranhão, nunca deixou um furo, nunca cometeu um erro, nunca foi chamado às falas. Funcionário padrão, Babal recebeu dois prêmios por produtividade, algumas menções honrosas e um elogio de viva voz do doutor Epaminondas, sócio majoritário da metalúrgica Aliança.

Aderbal era a rocha, imbatível, inexpugnável! Ídolo dos amigos e conhecidos, respeitado até pelos inimigos, destilava sua arrogância nas noites gostosas de Minas, debochando dos companheiros que ‘amarelavam’, aqueles que capitulavam antes das saideiras. E as saideiras eram infindáveis. Começavam, praticamente, quando o primeiro beberrão pedia sua parte da conta. A partir daí, todas as rodadas eram interminavelmente as últimas.

Os mais íntimos, uns dois ou três privilegiados que mereciam suas confidências, sabiam que Aderbal rapava cabelo e barba porque eram totalmente brancos, e que tinha um ponto fraco: era apaixonado, louco de todo pela filha do coronel Dermógenes, uma espécie de baluarte econômico e moral da cidade. Maria Lúcia, ainda solteira aos quarenta e poucos anos. Magra e reta como uma tábua, ninguém a cobiçava, ninguém sequer reparava nela. Era uma mulher desprovida de encantos; olhos fundos e sombrios, colo seco, quase imperceptível, quadris estreitos, buço discreto sobre lábios desenhados à régua. No entanto, Babal babava por ela.

Houve uma vez em que ele teve a oportunidade de expressar sua paixão desmedida. Saía do primeiro boteco, em frente à igreja de Santa Luzia, quando cruzou com Malu, vinda da missa das oito. Pegou-a pelo braço descarnado, encheu os pulmões de ar e... não conseguiu dizer nada. Simplesmente, caiu de joelhos aos prantos. Sem dó nem piedade, ela atravessou seus sonhos e sumiu na noite. 

Depois do episódio, Aderbal passou a ser chamado de ‘chorão’ pelos mais devotados parceiros de pileque. Maria Lúcia jamais olhou para ele de novo. Deixou claro o seu desdém, desprezo tão forte e pleno que, se dirigisse um automóvel e o atropelasse, não sentiria o mínimo remorso. Cruzava com Babal, como se o boêmio simplesmente não existisse.  

Desse momento em diante, Aderbal foi diminuindo a frequência das noitadas. Se aparecia nas segundas, faltava nas terças. Na mesma medida, as quartas e quintas foram rareando. Mantinha as sextas e sábados, por uma questão de protocolo. Vítima do coração, não tardou a abandonar os fins de semana também.

Aos poucos, os companheiros de traçado sentiram a ausência. Bililico, o mais atento de todos, foi o primeiro a disparar: ‘cadê o Aderbal, gente?’. A pergunta ecoou: onde anda o Babal? Até mesmo o Laurêncio ficou incomodado. Juntou um pelotão de três ou quatro desocupados e iniciou, oficialmente, a busca. O comando seguiu as pistas mais evidentes, cruzou bares e outros endereços sabidos, sem sucesso. Foi até a metalúrgica Aliança e lá apurou um fato novo e desconcertante: Babal pedira as contas.

Deodoro, um sujeito chegado ao espiritismo, trouxe a notícia fatal – o imortal falecera no Rio de Janeiro, ao visitar uma tia afastada, vitimado por uma bala perdida no Complexo do Alemão. Lindaura das Mercês, médium renomada, psicografou a mensagem de frei Eustáquio, religioso português do século dezessete. Os discípulos – ou asseclas – de Aderbal beberam o presunto sem corpo presente, por duas ou três semanas, e a vida seguiu em frente.

Passaram-se três anos e ninguém mais se lembrava do pinguço. Com mais ou menos assiduidade, a confraria dos cachaceiros reunia-se, bebendo as antigas poções, agora, com alguma parcimônia, sem a volúpia dos tempos idos. A vida em Juiz de Fora também mudara. A tevê fechada e seus trocentos canais diminuíra o fluxo nas ruas, oferecendo opções de entretenimento mais baratas e familiares. Laurêncio mantinha o boteco, por amor ao ofício, mas, sem trauma, abriu uma lan house equipadíssima a dois quarteirões.

O coronel Dermógenes já não fazia parte dos seres viventes e Maria Lúcia, única herdeira, administrava um naco polpudo da cidade, amealhando lojas, casas, apartamentos, e alguns negócios no atacado e no varejo. Justamente por isso, o casamento tardio repercutiu em todos os níveis da sociedade local. Desde os mais pobres aos mais ricos, todos só comentavam o enlace de Malu com um fidalgo português, o conde de Labreda, filho das terras de Além Tejo, descendente direto de uma nobreza das mais tradicionais da Europa.

É Bragança, diziam os príncipes de Petrópolis. É Habsburgo, diziam outros, com um pé na Áustria. De todas as partes do país vieram representantes dos clãs oponentes, à procura de status, querendo o posto mais alto de um poder inexistente. Os hotéis estavam superlotados. Apesar do protesto de ambas as partes, a igreja escolhida foi a de Santa Luzia. Quanto ao dia, não houve polêmica: dois de dezembro, a data de nascimento de dom Pedro II, último imperador do Brasil.

Desde a manhã daquele sábado, formou-se uma imensa multidão nas cercanias do templo. Parecia que a cidade de Juiz de Fora inteira estava ali, pronta para a celebração de um pacto que a colocaria em destaque na face mais distinta do mundo. A partir das quatro da tarde, as limusines sucederam-se, despejando pessoas empoladas, que mal se permitiam pisar no chão, como se andar naquele lugar fosse um sacrifício, uma penitência. Devagar, foram se acomodando no interior da igreja, abanando-se com leques e ventarolas, cada vez mais ágeis, na medida em que o ambiente enchia. Às seis, o calor provocava danos irreversíveis na maquiagem cuidadosa, manchava as axilas dos paletós, fazia pingar das testas grossos bagos de suor que os lenços não conseguiam conter. Às sete, finalmente, a noiva chegou, e todos respiraram quase aliviados. Porém, faltava alguém, o noivo, o conde, o cacife, o cara, a razão principal de toda aquela pompa e circunstância. Esperaram afogueados por mais um tanto; uma hora, duas e perto de três, até perceberem que o conde de Labreda não apareceria. Malu desmontou e chorou todas as lágrimas que lhe permitiam os olhos fundos e sombrios, largada no primeiro degrau do altar.

Perto dali, no bar do Laurêncio, um homem de longos cabelos e barbas brancos, usando fraque e cartola, pedia um traçado de vinho quinado e cachaça.

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