Na minha época

VIVA O CARNAVAL!

Ouvi dizer que o carnaval é tão antigo quanto a civilização. Nas fontes do saber, democratizadas pela internet, fiquei a par de que os romanos patentearam essa festa pagã, dando-lhe o título de “Saturnal”, quando celebravam a colheita. Para quem não sabe, Saturno é, ou foi, o deus romano a quem cabia abençoar a plebe com a fartura das safras de grãos. Ceres, deusa da agricultura, era mais recatada, preferia ficar fora da farra. Hoje -quem diria? -, a entidade maior do pessoal do campo é o serviço nacional de meteorologia, que diz com precisão científica quando vai chover ou vai fazer sol. Nossos camponeses desprezam o tempo para cultuar o clima.

Os romanos faziam um carnaval parecido com o atual. Liberavam o povo das leis mais reles; soltavam provisoriamente os escravos; patrocinavam baladas com muita bebida, mulheres e meninos bonitos. Tinham até carros alegóricos, chamados de “carrusnavalis”, já que o formato era semelhante ao de navios. Provavelmente, essa é a origem do nome da esbórnia. Assessorado por Baco, deus do vinho e do prazer, e por Vênus, deusa do amor e da beleza, Saturno botava pra quebrar: ninguém era de ninguém!

Mudando o lado do mapa e acelerando o compasso do tempo, no Brasil o carnaval começou no período colonial. Uma de suas primeiras manifestações foi o entrudo, festa popular portuguesa que caiu no gosto dos escravos. Saiam às ruas com os rostos empoados de farinha, atirando bolas de cheiro nos transeuntes. Essas bolinhas de cera, muitas vezes, continham urina, e as brincadeiras eram agressivas, razões pelas quais as famílias preferiam comemorar o carnaval dentro de casa, jogando água perfumada das janelas, balcões e varandas.

No meio do século XIX, o entrudo passou a ser perseguido pela polícia. Nesse contexto, surgiram os bailes de salão, promovidos em casas, clubes e teatros. Ao contrário dos entrudos, os bailes tinham música, geralmente polcas muito animadas. Daí, vieram as sociedades, os cordões e ranchos. Depois, na virada do século XX, os afoxés, frevos e os corsos, desfiles em carros conversíveis, que duraram até o fim da década de 1930. O palco era o Rio de Janeiro, capital da colônia, do reino, do império e da república, centro cultural do país.

Por volta dos anos 1920 surgiram as primeiras escolas de samba, a ‘Deixa Falar’, hoje Estácio de Sá e a ‘Vai como Pode’, atual Portela. A partir de 1932, o que era só diversão, virou competição. A primeira campeã foi a Estação Primeira de Mangueira, com o enredo “Sorrindo/Floresta”.

Os blocos de sujos chegaram como alternativa às escolas de samba. No início, não tinham organização nem conceitos rígidos, serviam apenas aos propósitos dos foliões que só queriam diversão sem compromisso. Os mais famosos foram o ‘Cordão da Bola Preta’ (cuja origem remonta ao tempo dos cordões), o ‘Bafo da Onça’ e o ‘Cacique de Ramos’.

Contudo, os bailes de salão continuaram ativos. Dos mais importantes, o do ‘Copacabana Palace’, do ‘Teatro Municipal’ e o do ‘Monte Líbano’. No entanto, o mais exclusivo, aquele de pior fama, destinado a uma casta devassa, que fazia de tudo para derrubar limites do respeito e da moral, chamava-se ‘Baile do Cabide’, realizado no clube privê ‘High Life’, por ironia da história, imóvel que pertenceu ao INCRA, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Olha Saturno aí, gente!

A casa, que em 1870 foi residência do barão do Rio Negro, é o cenário da nossa história. Ela começa e termina em um sábado de carnaval do ano de 1968. Curta e grossa.

Marco Aurélio perseguia um convite para o ‘Baile do Cabide’ há mais de cinco anos. Da última vez, empenhara perto de um sexto do salário no ingresso falso. Fora barrado na porta e quase preso por desacato. Agora, conhecendo as pessoas certas, era quase impossível não entrar. O coração acelerou na portaria, quando estendeu o convite. Liberado. Finalmente!

O prédio era um espetáculo, lindo, imenso, majestoso. Foi ao vestiário, recebeu a chave do armário e o primeiro drink. Bebeu de um gole só. Antes de tirar o paletó, puseram-lhe outro copo cheio na mão. Sem ter onde apoiá-lo, bebeu tudo de novo. E continuou nesse viés até chegar ao salão principal, onde a orquestra furiosa tocava ‘Mamãe eu Quero’. Àquela altura, estava de cueca samba-canção, opção à toalha e ao nu total.

Como era de costume, as pessoas rodavam o salão. No meio, quem tinha se dado bem, aos beijos e amassos. Na periferia, os que estavam interessados, querendo passar para o centro. Na roda maciça, os disponíveis, lindas meninas, mocinhos entusiasmados, coroas sem rumo, bêbados convictos e inocentes.

Quando Marco Aurélio conseguiu focar o olhar, achou uma mulher incrível. Alta, loura, exuberante. Caiu dentro da roda e carregou a moça para o centro. Ela correspondeu. Ficaram alí, a cueca enchendo, as línguas lubrificando o céu da boca. As cuecas enchendo, as carícias cada vez mais loucas. As cuecas enchendo... opa! As cuecas enchendo?

Meia hora mais tarde, Marco Aurélio foi para casa. Acompanhado, diga-se de passagem. Feliz, diga-se de passagem.

OSWALDO MIRANDA, 67 anos, publicitário membro da Associação Brasileira de Marketing, é escritor, pesquisador da história brasileira dos séculos XIX e XX e autor do livro sobre a precursora da previdência no Brasil ‘Mongeral Aegon 180 anos de história’. Consultor de comunicação, atua na Comissão Permanente da Memória da Mongeral Aegon Seguros e Previdência.