Ela conta que começou a escrever aos dez anos de idade. Hoje, 33 anos depois, alerta: seus livros são para maiores de 18. O aviso é pertinente. A professora Lani Queiroz conquistou um grande número de leitores na internet – publica suas obras em plataformas como a Wattpad – sobretudo graças às cores fortes com que desenvolve suas tramas.

A paleta de sua escrita, nada cinzenta – embora o livro “Cinquenta Tons de Cinza” a tenha influenciado –, envolve boas doses de romance, como nas histórias de sedução e poder da trilogia “Príncipes Di Castellani”. E também suspense, intrigas e muito, muito erotismo. Esse “mix” de ingredientes caracteriza seu mais recente título, “A Dívida”, primeiro volume de uma série batizada de “Turbulência”.

O nome, aliás, é bem apropriado, se considerarmos o desenrolar da narrativa do novo livro. “A Dívida” trata da relação amorosa entre um executivo frio e calculista, Heitor Camargo Maxwell, e a filha de um velho parceiro de negócios que o traiu. A garota, Sofia, de 18 anos, torna-se, assim, uma espécie de moeda de troca na disputa entre os dois empresários. A obra pode ser adquirida na Amazon.

Em entrevista ao Instituto de Longevidade, Lani Queiroz conta como a família a ajudou a se tornar escritora, que autores mais a influenciaram, como se inspira para criar seus textos e o que tem a dizer para quem pensa em enveredar pelo universo da literatura. 

Entrevista com Lani Queiroz

Quando começou a escrever, já seguia uma linha ficcional marcada por intrigas, drama e romance? Quando se decidiu por dar uma pegada mais erótica a seus textos? 

Comecei a escrever ainda bem nova, com dez anos. Sempre fui apaixonada por leitura e escrita, nenhum professor teve trabalho comigo nesse quesito. No começo, eram contos bem curtinhos, mais leves também, claro. A pegada mais erótica foi aparecendo conforme se deu o meu amadurecimento, tanto no sentido biológico quanto nos gêneros literários que lia. No final da adolescência, eu já gostava de escrever cenas mais intensas e detalhadas. Os livros de banca, uma coleção chamada “Momentos Íntimos”, me influenciaram bastante a apimentar meus escritos.

“Minha escrita é madura, não tenho melindres, sou explícita”

Como classificaria sua própria obra?

É para maiores de 18 anos, esse é o primeiro aviso. Minha escrita é madura, não tenho melindres, sou explícita e intensa em todas as cenas, sejam elas de briga, suspense, intriga ou sexo. Porém, diria também que tem conteúdo, uma trama que sustenta o romance e o erotismo. Eu procuro sempre solidificar meus temas com muita pesquisa antes e durante a escrita.

O que mais a motivou a escrever, ainda que no início apenas para si mesma? Que autores mais a influenciaram?

Eu sempre tive essa motivação. É algo já inato no meu caso. Comecei muito cedo e, claro, tenho muitas boas referências na literatura, toda ela. Leio de tudo, sem preconceitos. Essas referências me influenciaram e ajudaram a menina “Rozilane” a se tornar a “Lani Queiroz”.

Na infância e na adolescência, li muitos clássicos das literaturas brasileira e estrangeira: “A Moreninha”, de Joaquim Manuel de Macedo; “Polyana”, de Eleanor H. Porter; “Sozinha no Mundo”, de Marcos Rey; “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas; “O Primo Basilio”, de Eça de Queiroz; “Dom Casmurro”, de Machado de Assis; “Viagem ao Centro da Terra”, de Júlio Verne; e muitos livros de banca.

Já adulta, li “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez; “O Alquimista”, de Paulo Coelho; e, mais recentemente, muitas autoras do gênero “romance hot”, tanto nacionais quanto estrangeiras: E.L. James, Sylvia Day, Megan Maxwell, Olívia Gates (romance de banca) e Jass Silva, entre outras. A leitura nunca para de nos influenciar, é uma relação de aprendizagem rica da qual nunca abrirei mão.

De onde vem sua inspiração para criar situações, enredos e personagens? O quanto diria que há da realidade brasileira, e de sua própria realidade como professora no Brasil, em seus livros?

A inspiração vem geralmente de situações do cotidiano e nas horas mais inusitadas. Não há um ritual ou algo assim. Tudo vem naturalmente. Estou sempre com a mente fervilhando de novas ideias e personagens querendo que suas histórias sejam contadas.

Nas outras séries, não abordo muito da realidade brasileira. Entretanto, na série “Turbulência”, que se passa inteira no Brasil, especificamente em São Paulo, abordo, de forma sutil, algumas questões que o país enfrenta.

E, sim, há alguns aspectos e convicções que são meus enquanto professora – uma das classes mais desvalorizadas profissionalmente no Brasil –, os quais empresto aos personagens para que mais pessoas possam ser influenciadas a pensar criticamente.

“A luta para encontrar um lugar ao sol é bem intensa e, por vezes, cruel”

Como relacionaria seus livros, mais especificamente “A Dívida”, com romances como “Cinquenta Tons de Cinza”? Essa obra a inspirou de alguma maneira?

Tenho três livros nos quais abordei o relacionamento BDSM [sigla que reúne práticas sadomasoquistas]: “Príncipe da Perdição”, “Princesa da Inocência” e “Príncipe do Domínio”, da série “Príncipes Di Castellani”. Já “A Dívida” não tem semelhanças com a obra de E. L. James, a não ser a questão do erotismo explícito mesmo.

Quanto à influência de “Cinquenta Tons”, acredito que a autora quebrou paradigmas e promoveu uma chacoalhada bem necessária na literatura e seus padrões rígidos quanto ao romance erótico. Nesse contexto, essa obra influenciou toda uma geração que escrevia e engavetava seus escritos por medo do julgamento de uma sociedade machista e preconceituosa. Então, sim, fui influenciada e saí da gaveta.

O que considera mais difícil: ser professor ou ser escritor no Brasil?

Ambos. O professor tem sido historicamente desvalorizado e esvaziado da sua importância social no Brasil. O escritor, sobretudo de literatura erótica, em uma sociedade ainda cheia de preconceitos e posturas patriarcais, enfrenta um desafio grande também.

Acredito que, no meu caso, ser escritora é mais difícil, uma vez que, como professora concursada, já estou consolidada na carreira. Como escritora, a luta para encontrar um lugar ao sol é bem intensa e, por vezes, cruel.

“Escrever é como uma extensão de mim. É amor, diversão, tesão”

Qual o perfil do seu leitor? Há pessoas de todas as idades? O que acha que as atrai em seus livros?

O perfil dos meus leitores é bem variado. São de todas as faixas etárias, e homens também me seguem – nem tudo está perdido! Acredito que o componente mais forte em meus livros seja a intensidade com que escrevo. Procuro passar realismo sempre, em todas as cenas. Gosto de emocionar o leitor, transportá-lo para dentro da história.

Que conselhos daria para quem pensa em ser escritor? Acha que existe uma idade certa para começar a escrever?

Eu diria que, para ser escritor, precisa ser forte e, antes de tudo, acreditar em si mesmo. O meio literário no Brasil é bem concorrido e tem uma tradição elitista e segregadora, infelizmente. É preciso coragem, talento e, claro, muito amor pelo que se faz. Escrever é como uma extensão de mim. É amor, diversão, tesão. Relaciono a tudo o que é bom. Eu me esqueço do mundo quando estou lendo ou dando vida a meus personagens.

Não acredito que haja uma idade certa para começar. Eu comecei bem cedo, mas tem autores que o fizeram depois dos cinquenta, por exemplo. É bem particular. Sempre é tempo.

Em sua opinião, o brasileiro lê pouco? Deveria ler mais?

Sim. O brasileiro lê pouquíssimo, infelizmente. É uma questão cultural. Somos uma nação que criou seu sistema de ensino muito tarde, levando em conta que fomos “descobertos” em 1500. O Ministério da Educação só foi criado em 1932, quatro séculos depois. Antes disso, a educação pública era incipiente. Somos uma nação atrasada em políticas educacionais e isso se reflete diretamente na leitura e na capacidade de escrita, sobretudo da grande massa, que depende do sistema de ensino público.

Por outro lado, também há a falta de incentivo em casa. Eu me recordo de que meus pais, mesmo sendo analfabetos funcionais, nunca deixaram de incentivar a mim e meus irmãos a estar em dia com as tarefas da escola. Quando me levava ao supermercado, minha mãe deixava que eu lesse os rótulos dos produtos, as receitas. Meu pai fazia o mesmo com a matemática, que ele sempre dominou muito bem, ainda que não dominasse a leitura da palavra.

Em suma, acredito que precisamos de um esforço conjunto aí: família, escola e políticas públicas eficazes.

Como vê a situação de crise enfrentada por grandes livrarias no país? Acha que a opção por plataformas virtuais na hora de publicar um livro é vantajosa para o autor?

Vejo a crise das grandes livrarias sob três pontos. O primeiro, a falta de cultura em relação à leitura, que mencionei acima; o segundo, a crise econômica que assolou o país e afeta todos os setores; e o terceiro, a expansão do “e-commerce” no Brasil, um movimento bastante acentuado nesta década. Tudo isso somado acabou afetando as livrarias físicas.

Quanto ao uso das plataformas pelo autor, a internet é uma ferramenta indispensável para o escritor contemporâneo. Eu ainda utilizo o Wattpad, onde comecei em 2014, para publicar meus livros. Na Amazon, eu os lanço desde 2015.

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