Em 1970, vivíamos sob os tacões da ditadura militar no Brasil. O clima pesado atingia, em cheio, muitos setores da vida nacional, porém, o futebol e a música pareciam imunes ao regime de opressão, insinuando-se cada vez mais brilhantes, criativos e prolíficos.

O mundo havia mudado drasticamente no decorrer da década de 1960. Moda, arte, sexo, comportamento, política, religião, tudo enfim havia se transformado num curto período, abrindo espaço para a revolução do pensamento e dos costumes. Nascia a contracultura.

Aos 20 anos, eu era um músico em tempo integral, vivendo o sonho que John Lennon jurava ter acabado. Já escrevia regularmente e estava prestes a iniciar uma carreira na publicidade como redator. Tudo apontava para um futuro, se não esplendoroso, fértil de boas conquistas. Quando se tem 20 anos, o futuro é sempre promissor!

No entanto, naquele momento nada disso importava. Nem o mundo, nem a revolução cultural, nem o fim dos Beatles, nem a ditadura, nem a carreira. Nada, nada valia mais do que a Copa do Mundo do México, a primeira com transmissão direta pela televisão; a primeira com uma bola totalmente nova, produzida em gomos pretos e brancos para facilitar a visualização na telinha. A Telstar era, sem dúvida, a ‘Estrela da Televisão’.

Após o fracasso retumbante de 1966, nossa seleção andava mal das pernas. Aí, aconteceu a primeira surpresa: em um período de cassação de políticos e de caça aos militantes de esquerda, o comando do nosso time foi entregue a um comunista convicto, o jornalista João Saldanha. Carismático e destemido, convocou os 22 jogadores que estavam na boca do povo, as famosas ‘Feras do Saldanha’ e, sem muito esforço, classificou o nosso escrete nas eliminatórias. Quando se aproximava a hora de ir à Copa, veio a segunda surpresa. Incomodado com os frequentes pedidos do general-presidente Emílio Médici, ardoroso fã do centroavante Dario, o João ‘Sem Medo’ respondeu: ‘tenho um acordo com o presidente, não escalo o ministério, e ele não escala a seleção’. Resultado: foi demitido sumariamente.

Para o seu lugar, veio Zagallo, bicampeão como jogador, com ‘Dadá Maravilha’ a reboque, é claro! As ‘Feras’ se transformaram em ‘Formiguinhas’, e o futebol de solistas ganhou, também, ares de solidariedade. Um por todos, todos por um. Os especialistas de cada posição foram trocados por especialistas em todas as posições. Só craques!

Lá em casa - ainda no mesmo apartamento do Andaraí -, víamos tudo na televisão ‘Predicta’ da Philco, aparelho cuja tela era assentada numa armação semelhante às forquilhas das atiradeiras e que girava de acordo com a posição do freguês. As imagens em preto e branco que se equilibravam no balé das barras verticais e horizontais (só quem viveu sabe o que é isso), quando firmavam, revelavam o futebol dos deuses. Fomos vencendo os nossos antagonistas com extrema facilidade e uma plasticidade incomparável. ‘Canetas’, ‘chapéus’, ‘deixadas’, e outros recursos, rolavam com a fluidez das jogadas inventadas pelo talento, dos gols que se improvisavam, das exibições que encantavam os próprios adversários.

Nessa toada, chegamos à final, ao jogo que nos separava do título de tricampeões e da posse definitiva da taça ‘Jules Rimet’, troféu de quase quatro quilos de ouro sobre base de mármore, uma alegoria à deusa grega Nice, uma mulher alada que personifica a vitória. 4 a 1 sobre a Itália, com direito a gols de Pelé, Gerson, Jairzinho e Carlos Alberto, o nosso saudoso ‘capita’.

Mesmo sendo a minha Copa predileta, a mais importante da minha vida, eu não consegui completar o álbum de figurinhas. Mas, não ligo. Bastam-me as memórias.

Contudo, na Copa de 2018, na Rússia, tudo é diferente. Desta vez, a coleção não me escapa, porque, na realidade, não é minha, pertence aos meus netos, ‘filhos com açúcar’, como escreveu Rachel de Queiroz. Então, lá vou eu, no andar cadenciado dos meus 69 anos e 16 Copas do Mundo nas costas, invadindo o mercado paralelo das figurinhas no centro do Rio, contrapondo os meus cabelos brancos com madeixas verdes, amarelas, rosas e azuis. Sem vergonha, ofereço uma fábula por um perna-de-pau de Marrocos, que nem imagino quem seja. Feliz da vida, pago cinquenta paus pelo Nabil Dirar.

Clique aqui para ler a primeira parte.

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