Jamais consegui completar um álbum de figurinhas da Copa do Mundo. Eu tentei várias vezes, mas, sempre fiquei no quase, assim como as seleções brasileiras de 1950 e 1998.

O futebol é o esporte da preferência nacional. Não, mundial. Dizendo melhor, paixão universal! A não ser que numa galáxia qualquer exista um mundinho de Deus, com vida suficientemente inteligente para inventar outro jogo que encante alguns bilhões de criaturas. Como ainda estamos por aqui nas redondezas do planeta Terra, fico com a última afirmação: paixão universal.

Neste contexto, a Copa significa o ápice, o apogeu, a grande festa do nobre e violento esporte bretão. E não há Champion’s League ou Libertadores de America que se compare ao torneio que, de quatro em quatro anos, reúne 32 seleções, cada qual representando o seu país, o seu povo. É como se fosse uma guerra mundial, com data marcada e com torcidas, da qual ninguém, ou quase ninguém, sai ferido ou morto. No entanto, há quem diga que a Copa do Mundo não passa de uma megaversão daquelas brigas de estudantes na hora do recreio.  Pois bem, bota mega nisso! Espera-se para a Copa da Rússia, nada mais, nada menos, do que três bilhões de telespectadores de mais de 200 nações, uma audiência nunca dantes sonhada.

Quem deu o pontapé inicial nessa história extraordinária foi um francês chamado Jules Rimet, um dos fundadores da Fédération Internationale de Football Association, mais conhecida pelo acrônimo FIFA. O endereço inaugural da entidade foi na Saint-Honoré, em Paris. Hoje, a sede está localizada em Zurique, Suíça.

A primeira Copa do Mundo foi realizada no Uruguai, em 1930, e contou com apenas 13 participantes convidados: sete sul-americanos, quatro europeus e dois representantes da América do norte. Na final, Uruguai e Argentina recusaram-se a começar a partida antes que houvesse uma definição da bola. Então, a FIFA decidiu que seriam empregadas duas bolas diferentes, a argentina na etapa inicial e a uruguaia no segundo tempo. Se houve ou não influência da pelota, não se pode jurar. Porém, os primeiros 45 minutos terminaram com 2 a 1 para os porteños e, no fim, a seleção da casa ganhou por 4 a 2.

Depois, vieram as competições de 1934 e 1938, ambientadas na Itália e na França. Ambas com 16 seleções, provenientes de um torneio pré-classificatório. Ambas vencidas pela Itália.

Por conta da guerra de verdade, a segunda mundial, de 1939 a 1945, as Copas foram interrompidas, só voltando em 1950, no Brasil., onde diante de mais de 200 mil pessoas no Maracanã recém-construído, o escrete brasileiro foi derrotado na final pelo time da celeste olímpica, o Uruguai. Esse jogo decretou o fim do nosso uniforme branco, símbolo de má sorte para os dirigentes da, então, CBD, Confederação Brasileira de Desportos. Na copa de 1954, disputada na Suíça, a equipe brasileira já envergava o uniforme novo. Fruto de uma campanha promovida pelo jornal carioca Correio da Manhã em parceria com a CBD, a roupa de jogo da nossa seleção foi desenhada pelo gaúcho Aldyr Schlee. Torcedor assumido do Uruguai, Aldyr afirmou que o modelo foi o menos feio dentre os que ele criou. O certo é que a camiseta canarinho não obteve sucesso de cara. Passou em branco – com permissão do trocadilho – na Copa de estreia, vencida pela Alemanha.

O fim da nossa espera ocorreu em 1958, nos gramados da Suécia. Por sinal, a primeira Copa da qual me lembro. Com quase nove anos de idade, eu já fazia parte da ‘corrente pra frente’, ouvindo no velho rádio General Eletric, a voz do locutor Oduvaldo Cozzi, disputando espaço com a estática onipresente. Lembro-me bem do meu pai, enfiado em largas calças que lhe iam um palmo acima da cintura, arrematadas pela camisa social de mangas arregaçadas, pulando abraçado com meu tio por parte de mãe, o rechonchudo piadista Manoel. Parecia o fim dos tempos. Apesar das cinco horas de diferença do fuso horário, os vizinhos saíram à rua, confraternizando como nunca. Acho que foi a primeira vez em que provei algo alcóolico, uma sangria esquecida sobre a mesa na inesquecível casa da rua Barão de Ubá.

Em 1962, no Chile, tínhamos moradia nova, no Andaraí, bairro da zona norte do Rio. Eu, irmão, pai e mãe, num apartamento pequeno, de dois quartos, área de serviço e dependências de empregada. Àquela altura, eu já estava chegando aos 13 anos. Além do futebol, descobria outros prazeres, preferências que estavam bem acima das chuteiras e pouco abaixo da camiseta, se é que alguém me entende. Comemorei a vitória sobre a Checoslováquia e o bicampeonato como se fora o fim da castidade. De fato, foi isso mesmo. Nas dependências da empregada.

As Copas do Mundo se sucederam. 1966, o desastre na Inglaterra, quando convocamos mais de 40 jogadores e não decidimos os que seriam titulares, senão na véspera do certame. Depois, 1970, o apogeu do talento que enfeitiçou os anfitriões mexicanos, bem como o resto do globo e a Globo inteira, e que permanece vivo na memória dos que viram e, por assombroso fenômeno, dos que não viram, daqueles que sequer sonhavam em nascer. Outro dia, ouvi um jovem recém-saído da adolescência discorrer com absoluta autoridade sobre o jogo final, como se tivesse estado lá, à beira do gramado do Estádio Azteca.

É certo que o tempo oblitera os fatos, condenando-os à imprecisão do quase esquecimento, mas a Copa de 70 é uma das exceções que confirmam a regra. Todos recordam de lances, de detalhes, mesmo os que nunca aconteceram. Por isso mesmo, é a minha predileta, aquela que mais me evoca saudade. Consequentemente, vou ignorar as que vieram depois e ficar por lá, ancorado no ano do tricampeonato brasileiro.

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