É o que todo advogado na hora do divórcio do casal costuma dizer: o casamento começa com “meu bem pra lá, meu bem pra cá” e termina com “meus bens pra lá, meus bens pra cá”. Longe de ser uma visão pessimista do matrimônio, a advogada Ana Celi dos Santos afirma que a situação acontece mesmo dessa forma.

Especialista em Direito da Família, com mais de 35 anos de experiência, Ana calcula já ter atuado em aproximadamente 500 processos de divórcio. Ela explica que, nesse momento, invariavelmente, as questões financeiras e patrimoniais atingem a todos os envolvidos. “Eu não conheço uma pessoa que tenha passado por isso incólume”, garante a advogada.

Ana conta que, com raríssimas exceções, ao final do casamento vem a mágoa, o que faz com que as pessoas comecem a descontar em cima do patrimônio. “O ‘meu bem’ realmente acaba, e o que sobra são os meus bens pra cá, meus bens pra lá”, lamenta.


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Mas nem sempre o divórcio é de comum acordo entre as partes e, em alguns casos, pode ser que um dos envolvidos não queira partir para essa solução. E são nessas situações que os problemas se agravam. “Geralmente, quando um dos envolvidos não quer se separar, ele começa a querer manter um elo com a outra parte, nem que seja brigando pelo patrimônio”, lembra a advogada.

E se o dito popular afirma que após a tempestade vem sempre a bonança, talvez ele não se aplique muito bem a essa situação, pois é no momento em que ambos se veem livres para recomeçar suas histórias que surgem os grandes desafios. Ana Celi avalia que, nesses casos, os problemas são ainda maiores para mulheres acima dos 50 anos. Na visão da especialista, questões estéticas ligadas ao corpo da mulher e o medo de nunca mais conseguir outro parceiro são grandes entraves psicológicos para elas, além dos sentimentos de frustração e desapontamento. Coisas que, ao contrário das mulheres, os homens de 50 tiram de letra. “É muito mais fácil para um homem acima dos 50 anos refazer sua vida após o divórcio. É comum que a mulher nessa idade tenha uma visão muito pessimista sobre seu destino, achando que vai ficar sozinha, ou que está feia e caída, sem o mesmo viço de outrora”, avalia.

Até que a morte nos separe

Dados divulgados no início deste ano pelo Colégio Notarial do Brasil – Seção São Paulo (CNB/SP) mostram que, em 2017, o número de divórcios extrajudiciais aumentou 2,5% em relação ao ano anterior. O aumento acontece após três anos de queda consecutiva.

Em entrevista à Agência Brasil de Notícias, o presidente da CNB de São Paulo, Andrey Guimarães Duarte, disse acreditar que a mudança tenha sido causada principalmente em razão da lei 11.441 de 2007, que normatizou a realização do divórcio extrajudicial, e da Emenda Constitucional 66, de 2010, que reduziu a burocracia para a separação.

“É uma tristeza tão grande, uma dor tão profunda, que faz com que elas entrem num buraco”

Ana garante que, na maioria dos casos de divórcio entre pessoas com mais de 50 anos, a decisão de separar parte do homem. “Não tenha dúvidas de que a mulher nessa faixa etária nem pensa em se separar. O homem pensa, elas não. Pelo contrário, ficam até muito mal”. A advogada conta que algumas amigas chegaram a ficar doentes em situações de divórcio. “É uma tristeza tão grande, uma dor tão profunda, que faz com que elas entrem num buraco”. E justifica: “talvez seja questão dos hormônios”.

Empreendedorismo 50+

Ao fim de um longo processo de divórcio que durou dois anos, entre terapia de casal, individual, consultas com advogados para enfim chegar à assinatura dos papéis, a goiana Valéria Ruiz decidiu mudar também sua área de atuação. Após fazer o curso de coach, Valéria fechou sua empresa de acessórios para cortinas e decidiu ajudar mulheres recém-divorciadas ou em processo de separação a se refazerem, psicológica, jurídica e economicamente.

Assim, em 2015, nasceu o projeto Bem Separadas, um portal que conta com a colaboração mais de 25 especialistas entre advogados, educadores financeiros, médicos e psicólogos, todos produzindo artigos sob a ótica de quem já vivenciou essa situação. O site também oferece um canal direto de comunicação com alguns especialistas para que mulheres possam tirar algumas dúvidas.

“Ninguém casa para se separar. Mas depois de dois anos de muita reflexão eu tomei coragem, sofri pra caramba, mas resolvi romper”, conta Valéria. Ela explica que são muitas as questões que envolvem a separação e que infelizmente ainda existe muito preconceito, independentemente da faixa etária. E no caso de mulheres acima dos 50 anos, o preconceito se agrava ainda mais, por causa de uma cultura ainda machista e patriarcal. O objetivo do projeto é dar todo o suporte necessário para que mulheres nessa situação não se sintam sozinhas e possam contar com a orientação de especialistas.

Na opinião da coach, de todos os problemas enfrentados pelas mulheres após o divórcio, o principal deles, na maioria dos casos, é a falta da independência financeira. E quando a questão envolve filhos, o problema se agrava ainda mais.

“Nem tudo que é legal é moral. A justiça determina o pagamento de uma pensão. E muitas vezes, acontece de o homem dizer que não pode arcar com aquele valor. A gente sabe que as despesas aumentam para os dois com a separação, mas quem é pai ou mãe sabe quanto um filho custa”, critica Valéria. E lamenta que, nesse momento, mesmo a mãe tendo a mesma perspectiva financeira que o pai, é ela que vai se virar sozinha para dar conta e arcar com todas as despesas.

“Mas ela é capaz!”, garante Valéria. Segundo a especialista, uma mulher de 50 anos hoje, diferentemente das mulheres das gerações passadas, é extremamente produtiva. “E é preciso ser, porque a expectativa de vida subiu e ela ainda tem muito a viver e a produzir”, completa.

“É preciso que ela entenda que ela é capaz de alcançar essa independência financeira, que consegue ser dona do próprio nariz, prover o próprio sustento, seus sonhos e, muitas vezes, até os dos filhos”

E dessa necessidade de uma orientação financeira, identificada por Valéria, nasceu, em 2018, o projeto “Bem Preparadas”. O curso, que ensina mulheres a terem maior independência financeira através do empreendedorismo, é ministrado pela própria empresária, que dá dicas de como dar o pontapé inicial no seu próprio negócio, mesmo sem dinheiro, além da importância de realizar investimentos e de ter disciplina.

“É preciso que ela entenda que ela é capaz de alcançar essa independência financeira, que consegue ser dona do próprio nariz, prover o próprio sustento, seus sonhos e, muitas vezes, até os dos filhos”, diz. Ela afirma que, a partir do curso, fica mais fácil começar as outras independências, como a emocional e psicológica. “Aí ela consegue entender que não está sozinha, mas descobrindo um novo formato. E aí sim ela verá espaço para um novo romance”.

Valéria conta que muitas vezes as mulheres que se inscrevem no curso não sabem nem por onde começar. “Então eu trabalho o mindset delas, e elas já saem daqui ganhando seus primeiros reais”, garante.

O Bem Preparadas já abriu três turmas e a previsão é de novas sejam abertas até o final do ano, além de turmas online. O valor da inscrição é de 900 reais e o tempo de duração do programa presencial é de 25 horas/aula.

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