Em princípio, a prática da idolatria é desaconselhada, exatamente porque conduz as pessoas a se desconectaram de si próprias e a entrarem num estado de encantamento, uma espécie de hipnose tal que distorce as realidades.

Um ídolo se torna depositário de anseios e de necessidades que não são racionais. Quando nós gostamos de pessoas, dispendemos de certa dose de energia, como que estabelecendo ‘canais invisíveis’ por onde fluem sentimentos e emoções que projetamos naquela pessoa e, então, passamos a esperar que ela faça o mesmo conosco, ou seja, que retribua – ou ao menos aprecie – esse depósito energético que fazemos.

Essa imagem energizada acaba se tornando um ‘ideal de ser’. Alguém mais do que perfeito e que ‘tem o nosso tamanho’. Trata-se de um fenômeno comum, que pode ser confirmado com o convívio e com o passar do tempo, ou pode se desfazer, à medida que o nosso interesse também se torne menor. Ou que nos decepcionemos, nos dando conta de que a pessoa não é tudo aquilo que idealizamos.

Então, como que recolhemos para dentro de nós aquela energia depositada e tudo se torna uma agradável – ou desagradável – lembrança. Esse é o momento em que a pessoa desejada, apreciada ou mesmo amada passa a não significar mais nada para a gente. Na adolescência, esse é um fenômeno muito comum. A grande questão é que pela própria imaturidade emocional do adolescente, ele – ou ela – acredita mesmo que seu ídolo é ‘de verdade’ e se torna altamente influenciável por aquela imagem construída.

Tudo que nos chama atenção e para o que - ou quem - olhamos com interesse e algum afeto se torna energizado por nós. E como é gostoso sentirmo-nos excitados e apegados a alguém, acabamos por alimentar com sonhos, com ideias, com palavras, esse alguém que ‘ganha vida própria’ dentro de nós. A um ponto em que a pessoa sente que ‘não pode viver’ sem aquela outra pessoa idealizada. Nosso ídolo deixa de ser uma ‘simples’ pessoa para nós e passa a ser a nossa razão de viver.

O comando que precisamos desenvolver e conservar a respeito de nós próprios é delegado ao ídolo. É o ídolo que sabe o que é melhor para a gente! Isso é perigosíssimo, porque aquilo que o ídolo disser e fizer passa a ser ‘uma lei’. Vestimo-nos como nossos ídolos. Falamos, cantamos e dançamos como ele. Desejamos viver a vida que ele leva. Há quem chegue a adoecer com a força e o apelo dessa ilusão que toma o adolescente por inteiro.

O problema é que não são somente os adolescentes que se ligam tão fortemente aos seus ídolos. Pessoas adultas também o fazem, porque sucumbem ao fascínio e à adoração. Perdem a noção de realidade. Por que isso? Porque abrem mão de sua autonomia e ficam obcecados pelo ídolo.

Você já reparou que idade tem pouco a ver com maturidade? Muitas pessoas, mais do que seria desejável, em razão de preservar a saúde dos relacionamentos, sentem-se cômodas e confortáveis em abrir mão de precisar escolher e se esforçar por conseguir as coisas.

Quem abre mão de exercitar essa função de escolha / satisfação / frustação deixa de viver a experiência de assumir suas próprias responsabilidades e não aprendem a se frustrar sem se sentir derrotado. Quando se frustram, ficam raivosos demais. Algum outro fará as escolhas por elas. E se não der certo, a culpa é desse outro.

Seguir alguém também pode nos satisfazer por um tempo. Além disso, é parte da nossa imaturidade acreditar que o outro sabe melhor que a gente o que é bom para nós. Ter alguém que dite as regras, que nos aponte o caminho, desperta uma sensação de segurança. Só que isso funciona bem até a adolescência, quando chega o tempo de encontrar e passar a trilhar os próprios caminhos e arcar com as consequências. Essa é uma aprendizagem que leva anos. E tem gente que não aprende nunca, agindo pela vida como criança mimada. O mundo está cheio de pessoas adultas mimadas e iradas.

Como eles não passaram da fase de idolatrar, o caso é que agora são essas pessoas que querem ser idolatradas. Se não, elas tiram o time de campo. Não querem mais brincar de siga o chefe: muitas pessoas não vão segui-las e, pior ainda, vão criticá-las. É gente que pode ocupar altos cargos de poder e causam o maior estrago na vida alheia.

Seja se autoidolatrando, seja idolatrando alguém, a figura ideal está plantada na sua mente, uma figura além do que qualquer pessoa humana consegue ser. E o idólatra não perdoará o ídolo quando este se mostrar não mais do que esta simples pessoa humana. Qualquer de seus traços, que não se mostrem perfeitos, será uma ofensa para o idólatra! Além disso, o ídolo não pode ter idade!

Tanto faz se são marcas de celulite, peitos caídos, pele manchada ou rugas mais profundas. Erros ou simples sinais de sua humanidade parecem detonar uma onda raivosa que leva seus fãs a se revoltarem, como se o ídolo houvesse sido maculado. Críticas de todos os lados, seja porque a inveja predomina, seja porque o desdém os invada.

Inveja e desdém são irmãos siameses. Aonde vai um, vai outro. Lembra-se da fábula da Raposa e as Uvas? Se não consigo alcançar a uvas no alto da parreira, é porque elas estão verdes. Não conseguindo abocanhá-las, as uvas deixam de ser meu objeto de desejo, nego o seu valor e me afasto, despeitada.

Os fãs atacam seus ídolos porque se identificam de tal forma com ele ou ela que qualquer sinal de imperfeição – ou de simples humanidade – é visto como um estigma negativo, como se esses sinais desmerecessem a perfeição, tanto do ídolo como do idólatra.

Os ídolos habitam esferas inumanas, como se não fossem gente. Existem para ser admirados, cobiçados e imitados. Têm que permanecer inalcançáveis. Caso se tornem próximos de seus adoradores, serão espezinhados, asperamente criticados sem perdão.

Esse movimento das massas fica ainda mais denso e raivoso na medida em que é cultivado pela mídia. Quando se sabe que o ídolo habita outras esferas, que vive num mundo longínquo do nosso, conseguimos suportar o fato de que nós jamais seremos perfeitos tal como acreditamos que o ídolo é. Seu estilo de vida, sua beleza, sua riqueza não nos incomoda, porque ele pertence à classe dos ‘superiores’ a nós.

Mas quando se coloca na mente de um grande público que qualquer um de nós, com esforços exagerados, com custos altíssimos que valem a pena, com cirurgias plásticas que colocam todo o nosso corpo nos devidos lugares, em meio à magia e ao glamour da fama que o marketing pesado nos empresta, quando nos convencem de ser possível chegar onde eles estão, nesse cenário de transformação de pessoa a semideus, a inveja toma conta: por que eles podem e nós não!? 

É essa frustração pessoal que nos levará a atacar aqueles que um dia ‘adoramos’, mas somente enquanto na condição de ídolo inatingível. Tornando-se comum, voltamo-nos contra eles e, qualquer argumento vale para achincalhá-lo, porque deixou de ser a nossa extrema ambição de beleza, poder e perfeição. Mas essa é só uma estratégia para não nos enxergarmos tal como somos. Enquanto o atacamos, evitamos olhar para o nosso próprio rabo.

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