Vamos convir. Para ser um bom fofoqueiro é preciso habilidade e tempo. Mais um tanto de convicções de sua mente estreita. E rapidez, óbvio.

Fofoqueiros e fofoqueiras são pessoas que vivem antenadas, uma vez que fofocas antigas perdem a graça e não passam de meras recordações sem sabor. Os fofoqueiros e as fofoqueiras vivem no tempo presente (ah! O Poder do Agora, que Eckhart Tolle me perdoe) em busca de fatos novos no pedaço.

Pensem numa grande fatia de bolo caseiro de chocolate com cobertura de chantilly e recheio de baba de moça com nozes. Nham nham, hum! Só tem que esse pedaço, esquecido na geladeira, empedrou e, tchau delícia.

Sua boca, por mais que você tente, não vai salivar, certo? Mesmo tendo custado caro e, ainda que guardado com o maior cuidado, para ser consumido num momento especial, irá para o lixo, não é mesmo?

Assim é com a fofoca chata. As boas mesmo têm que estar fresquinhas. Porque fofoca é meio que jornal falado, só que mais animado. Imagine um âncora, pessoa bacana, fazendo caras e bocas em horário nobre. Tornaria as coisas mais críveis ainda, em vez da fala pasteurizada de que se valem.

Terrível como tem âncoras que não comunicam nada! Falam da tragédia e da comédia com a mesma expressão de nada. Relatam do horror ao mais sublime amor, seja lá o que for, com o mesmo ritmo e entonação. Eles se misturam aos cenários. Este não é, definitivamente, o tom de um bom fofoqueiro.

Fofocas simples, daquelas que contam bobamente alguma coisa que se passou, ou vai passar, não chamariam tanto a atenção. Por isso que a gente adormece fácil na frente de um telejornal. Os âncoras são muito chatos, monocórdicos. Deveriam aprender a falar como fazem os bons fofoqueiros: com ritmo, com graça. Os telejornais seriam mais atraentes.

Não que eu esteja dizendo que os profissionais de tevê sejam fofoqueiros, mas é que eles repetem, repetem e repetem suas falas, feito papagaios, ah, isso eles fazem bem. Então, isso eles têm em comum: fofoqueiro não para de contar a mesma história, tal qual os âncoras fazem...

A boa fofoca precisa atrair a nossa atenção, precisa nos fazer parar para ouvir e, mais, pedir por detalhes. A boa fofoca tem que ser entregue embalada num estado de excitação bem calibrado, contada como algo misterioso que faça perder o fôlego e amarrada com laços de segredo ardido recém-descoberto.

Se uma fofoca, por melhor que seja, for servida ao modo bandejão, sem maiores considerandos, vai ficar com cara de serviço metido a besta, coisa de nouveaux riche, que serve refeição requentada à base de arroz e feijão em bandejas de prata de lei, regada a um bom vinho, mas na temperatura errada.

O bom fofoqueiro – não pensem que fofoca é coisa só de mulher – precisa dispor de tempo sobrando para espiar a vida alheia, decorar o que soube ou viu e tempo adicional para espalhar o que os outros não viram e, se viram, não perceberam a enormidade da importância da coisa!

O fofoqueiro o fará, não sem um toque de ironia, quiçá de despeito, porque fofoqueiro que se preza sempre tempera suas palavras com sarcásticas ilações bem temperadas. Eu, hein? E vai ficar bravo com você, caso não se digne cair na dele. Ou dela, claro. Detestam discordantes e não ouvem os senões alheios.

À festa de aniversário de 75 anos de uma querida tia minha, esteve presente um americano. Texano puro, rico pra dedéu. Além disso, alegre e bem educado. Essa minha tia, trajando um tailleur rosa pink, todo bordado com lantejoulas e canutilhos brilhantes, não parava quieta. De cá pra lá e vice-versa, toda faceira supervisionava tudo. Vivaz e feliz em seus saltos altíssimos, daqueles de moer os pés, circulava por entre os animados convidados.

Num dado momento, num dos corredores, roçou o texano uma vez mais. O dito cujo não resistiu e passou-lhe a mão no roliço traseiro. Ah, pra quê? As mulheres da família uniram o buzz ao fluzz. O maior você viu o que eu vi?! rolou solto por mais de duas horas naquela festa! Pensei comigo tivesse a mesma idade e estivesse na sua condição, bem que quereria um texano desses na minha vida! Esqueci dizer que ela era viúva havia muitos anos.

Fui considerada chata e sem moral por todas as rodinhas de fofoca das mulheres que não tinham o que de melhor fazer naquela festa. Os homens riram muito. Até seus filhos riram. Enquanto dançamos muito, permaneceram sentadas e extremamente indignadas, mas comendo do bom e do melhor. Espantoso, que essa fofoca durou anos! Enquanto isso, ela trocou o texano por um africano e, depois, por um italiano, vivendo feliz até o fim de sua vida. Sempre falando bem do único marido com quem teve quatro filhos.

O bom da fofoca é contar e recontar. Os fofoqueiros constroem uma rede sólida de espalhar notícias. Confiáveis, até certo ponto e, desconfiáveis em quase sua totalidade. Histórias espantosas e histórias doces, essas últimas quase sempre facilmente transmutadas em causos que vão de sórdidos a asquerosos. O que faço agora é contar fofoca? Não. É uma homenagem.

Trata-se, simplesmente, da linda história de uma mulher que viveu feliz. E escrevi porque nós nos amávamos e senti agora uma enorme saudade dela.

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