Os sinais em geral aparecem do lado de fora: acúmulo de lixo, “coleção” de cães ou gatos, desleixo com a aparência. Mas as causas que levam à autonegligência, condição em que a pessoa, por falta de cuidado próprio adequado, ameaça a própria saúde ou segurança ou a de terceiros, vêm de dentro – e invariavelmente estão ligadas à solidão.

Enfrentar essa questão não é fácil, e as dificuldades já começam na hora de caracterizar o quadro. “Ele ainda é muito pouco percebido e identificado no Brasil”, afirma Marília Viana Berzins, doutora em saúde pública, especialista em gerontologia e presidente do Olhe – Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento.

Isso acontece porque essa recusa ou esse fracasso ao cuidar de si pode estar associado a disfunções, como a depressão ou o Alzheimer, mas nem sempre: há ocasiões em que se trata simplesmente de um estado decorrente de uma vida de reclusão.

Para suprir a falta de contato humano, essas pessoas adotam animais de estimação em grande número – “já encontrei quem tivesse até 50 gatos”, afirma Marília – ou passam a guardar coisas sem utilidade, como jornais, roupas e latas velhas, que se espalham por toda a casa e deixam o morador até mesmo sem espaço para dormir.


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Os pertences começam a preencher emocionalmente os lugares não ocupados por companhias de fato, na ausência de amigos, familiares ou cônjuges. Essas pessoas, então, tornam-se acumuladoras, e a precariedade com que armazenam uma grande quantidade do que podemos chamar de lixo costuma chamar a atenção dos vizinhos – e a gerar a proliferação de ratos e baratas no local, além de causar risco de incêndio.

Nas situações que envolvem eventuais maus-tratos a bichos, é mais fácil haver uma intervenção para a retirada deles, mas nem sempre a Justiça autoriza essa ação. No caso dos 50 felinos, por exemplo, o juiz não permitiu que fossem resgatados.

Quando não existe a presença de animais, torna-se ainda mais complicado encontrar uma solução para ajudar. Embora a falta de cuidado próprio coloque em xeque sua higiene – a do corpo, a das roupas e a da casa –, a saúde – quando deixa de ir ao médico ou de tomar remédios – e as finanças – contas deixam de ser pagas –, uma providência em geral demanda a concordância e a boa vontade da pessoa em questão.

“Muitos nem abrem a porta quando percebem a chegada de uma ajuda especializada”

“Muitos nem abrem a porta quando percebem a chegada de uma ajuda especializada”, diz Marília. “Tampouco distinguem qualquer coisa de errado no modo como vivem. Alguns até têm bastante dinheiro, como uma senhora portuguesa muito solitária que encontrei certa vez. Ela não tomava banho, não penteava o cabelo e não ia ao médico, mas não por falta de recursos financeiros.”

O fato é que a falta de cuidado próprio configura um caso de saúde pública, segundo Marília, que também é estudiosa da violência contra idosos e organizou o livro “Rompendo o Silêncio: as diversas faces da violência na velhice” (Editora Martinari). Em sua percepção, as mulheres são mais afetadas que os homens. Uma das razões para isso é que, quando enviúvam, muitas não buscam um novo parceiro, enquanto eles estão mais propensos a uma nova união.

Relação de confiança

Em geral, é necessário acionar um profissional da saúde pública ou da assistência social para lidar com a condição. Claudia Fló, presidente do Departamento de Gerontologia da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), lembra que a denúncia pode ser feita por qualquer pessoa pelo serviço federal do Disque 100, por se tratar de caso de violência. Ministério Público, conselhos municipais do Idoso ou da Saúde e a Vigilância Sanitária também podem ser convocados. “Mas eles não têm poder de polícia para uma invasão”, ressalva. Esse tipo de intervenção só é viabilizado por meio de ação na Justiça.

“As pessoas que sofrem desse mal se afastam de parentes e amigos ou são abandonados por eles”

Como assistente social, Marília prefere a estratégia do jeitinho. “Quando me aproximo de uma situação dessas, nem uso branco ou algum uniforme que já de cara provoque uma reação negativa da pessoa”, diz. “Bato à porta, com calma, e tento dialogar até estabelecer uma relação de confiança.”

Confiança, por sinal – ou a falta dela –, é um conceito que permeia a incidência da autonegligência. “As pessoas que sofrem desse mal se afastam de parentes e amigos ou são abandonados por eles”, afirma a presidente do Olhe. Fortalecer esses laços ao longo da vida, assim, é um antídoto contra esse quadro, de acordo com Claudia.

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