Pode chamá-los de nerds que eles adoram. Afinal, não há nada de errado com isso. Muito pelo contrário. Se, antes, o termo servia para estereotipar aquelas pessoas muitas vezes mais introspectivas, que viviam às voltas com gibis e livros de ficção científica, é possível dizer que, hoje em dia, elas definitivamente conquistaram o mundo. Ganharam uma denominação mais “gourmetizada”: geek. E até uma data para desfraldarem ainda mais alto sua bandeira: o Dia do Orgulho Nerd, comemorado em 25 de maio.

Nada mais justo. Por sinal, o “nerdismo” torna-se transformador não apenas para quem o assume como estilo de vida mas também para aqueles que o rodeiam.

Dia do Orgulho NerdThina Curtis caracterizada como Mulher-Morcego; Crédito: Reprodução/Facebook/thina.curtis 

Que o diga a professora Thina Curtis, de 44 anos, de Santo André, na Grande São Paulo. Há mais de 20 anos ela optou por trabalhar com arte-educação baseada em quadrinhos e fanzines – publicações não oficiais produzidas por fãs de temas como ficção científica, música e cinema.

“Tudo o que faço hoje é baseado em situações pelas quais eu também passei”, conta. “Eu sofri muito bullying na escola porque não me encaixava nos perfis que eram padrão. Eu era e sou muito alta e magra e sempre gostei de ler. Era muito tímida, e essa talvez fosse minha defesa.”


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Como profissional, Thina atua principalmente com jovens das periferias. “AS HQs [histórias em quadrinhos] são incríveis na educação e em projetos sociais”, afirma. “Trabalhei por muitos anos na Fundação Casa e usava os quadrinhos porque os meninos e meninas não sabiam ler. Eu e eles, juntos, criávamos as histórias. Eles ilustravam e eu escrevia, junto com algum dos jovens que tivesse mais aptidão para tal.”

E, para quem pensa que ler ou fazer essas historinhas é uma forma de viver em um mundo de fantasia, Thina explica que não é bem assim que a coisa funciona. “Ao bolar as HQs, sempre proponho algo próximo da realidade das pessoas que estiverem participando das oficinas e dos trabalhos”, ressalta. “O objetivo é dar a eles uma possibilidade, diria até que um portal para adentrarem.” Sim, é de inclusão social que a professora fala.

Mas quem é esse tal de nerd, afinal? Quais as suas características? Na definição de Thina Curtis, “é uma pessoa que, em primeiro lugar, gosta muito de ler e pesquisar, de tecnologias e muita informação”.

Agarrados ao futuro

Por sinal, esse é o perfil do técnico de informática da Receita Federal Douglas Camillo-Reis, de 54 anos. “Desde criança sou fã de ficção científica”, afirma ele. “O primeiro livro que comprei foi ‘2001 – Uma Odisseia no Espaço’, de Arthur C. Clarke. E, claro, o seriado Star Trek [Jornada nas Estrelas] capturou minha atenção e afeição desde a primeira vez que o assisti.”

Em 1986, logo que foi fundado o Clube da Frota Estrelar Brasileira, que reúne aficionados pelo seriado, Douglas correu para se juntar a essa trupe. E costuma se vestir a caráter nas convenções que a organização realiza. “Elas trazem novidades das produções, palestras sobre temas ligados aos roteiros, produções culturais derivadas do universo Star Trek e até mesmo a apresentação, aqui no Brasil, de atores originais da série”, descreve.

Dia do Orgulho NerdDouglas Camillo-Reis, fã do universo Star Trek; Crédito: Renato Stockler  

Ele participa também de um grupo do Facebook, o Ficção Alpha, que promove cultura por meio da ficção. “Nossas iniciativas já reuniram fãs de toda São Paulo em auditórios da Livraria Saraiva e diversas bibliotecas públicas”, diz. “Nesses locais, também arrecadamos alimentos para doação a instituições de caridade.”

Surge então, nesse depoimento, mais uma prova de que ser nerd ou geek não é apenas brincadeira. Embora, claro, seja inegável que quem veste a carapuça e se assume como tal guarde uma criança dentro de si. O que não deixa de ser, na visão de Douglas Camillo-Reis, uma característica positiva.

“A essência de pertencer a esse grupo é preservar em si a capacidade de se surpreender com o novo, abraçá-lo e criar um futuro com ele e a partir dele”, confabula. “Gente que não consegue se desprender do passado, dos meios e modos que se tornam obsoletos, se ressentem do movimento que não querem ou não podem acompanhar. Por vezes, esse entusiasmo é chamado de ‘coisa de criança’, mas há aspectos da criança em cada um de nós que vale a pena preservar.”


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Diante dessa reflexão, já podemos até considerar que o nerd é uma espécie de super-herói. Um com as garras bem afiadas para capturar novidades. Por falar nisso, Alexandre Claudino da Silva, de 44 anos, que é bilheteiro do Teatro Frei Caneca, em São Paulo, mostra-se bem preparado nesse sentido. Afinal de contas, ele costuma se vestir de Wolverine, personagem da Marvel Comics que possui três garras retráteis de osso em cada mão.

E, na pele desse personagem, seus atos são de fato heroicos. Há cerca de cinco anos, Alexandre usa sua caracterização para visitar pacientes de instituições como Graacc (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer), Hospital das Clínicas de São Paulo, Beneficência Portuguesa e AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente).


Dia do Orgulho NerdAlexandre Claudino incorpora o Wolverine em ações sociais; Crédito: Instagram/@alewolverine 

Foi nesta última, aliás, que ele conseguiu um de seus feitos mais grandiosos e que costuma narrar com emoção – com a voz de um dublador, trabalho que já realiza esporadicamente e no qual pretende se especializar.

“Ao me ver, uma criança fez menção de vir em minha direção, e no mesmo instante a mãe começou a dizer que o pequeno não conseguia andar sozinho”, diz. “Não deu tempo nem de ela terminar a frase e o garotinho já tinha chegado perto de mim. Foi a primeira vez na vida que ele caminhou sem o apoio de ninguém. É algo que mostra o poder transformador de um personagem.”

Dia do Orgulho Nerd: a origem

A escolha da comemoração do Dia do Orgulho Nerd tem sua razão de ser. Foi em um 25 de maio, o de 1977, que se deu a estreia do primeiro filme da série Star Wars, ou Guerra nas Estrelas. A data também marca o Dia da Toalha, homenagem dos fãs da série O Mochileiro das Galáxias ao seu autor, Douglas Adams.

Para Adams, a toalha é um dos objetos mais importantes na bagagem dos viajantes do espaço, e isso por seus múltiplos usos – pode ser usada como agasalho, lençol improvisado, bandeira e até arma de luta quando molhada. Tudo depende de quão longe pode ir a imaginação – mas sempre estabelecendo paralelos bem reais com o mundo que a cerca.


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