Quem vê a desenvoltura, a força e a flexibilidade de Vera Marques nas aulas de pole dance custa a acreditar que, no próximo mês de abril, ela vai comemorar 65 anos. Muitas de suas alunas no Estúdio Dança e Atitude, em São Paulo, sofrem para acompanhar seus movimentos de acrobacias, giros e travas – mesmo tendo metade da sua idade.

Mas essa é só mais uma das conquistas no currículo da paulistana, que coleciona excelentes lembranças e algumas experiências ruins, como o câncer maligno que precisou encarar, três décadas atrás. Tanto naquela época como agora, a motivação que a alimenta diariamente é uma só: seu amor pelos esportes. "Me ajudou a superar muitos desafios”, diz.

A ligação de Vera com os exercícios começou cedo. Ela foi campeã de ginástica olímpica ainda na adolescência, colecionou troféus em atletismo, competia em natação, dedicou-se à dança… Não é de se estranhar que tenha abandonado a faculdade de Psicologia para se dedicar à de Educação Física.

Com diploma em mãos, fez carreira na área. Na década de 80, deu aulas de aeróbica na televisão, no programa TV Mulher, durante sete anos – cinco na Rede Globo e dois na extinta TV Manchete.

A rasteira da saúde

aulas de pole dance

Vera tinha 33 anos e estava se separando do marido quando foi surpreendida por dores fortes. Cerca de dez dias depois, encontrava-se numa mesa de cirurgia, por causa de um câncer maligno no canal do reto – logo ela, a pessoa mais saudável de uma família em que todos fumavam e/ou estavam acima do peso, sem qualquer histórico para a doença. Foi surpresa geral.

"Meu ex-marido, que é meu amigo até hoje, foi muito companheiro e não queria seguir com a separação, mas me mantive firme, porque já estava decidido na minha cabeça", conta. Os médicos da época diziam que Vera não conseguiria seguir com a vida que levava, dedicando-se intensamente ao esporte. 

Eles acreditavam que ela teria muita dificuldade para se exercitar. "Eu falei: 'Vou resgatar minha vida até onde for possível!'. E aí a coisa foi indo, devagarinho, e retomei minha vida completamente. Passei muitos momentos difíceis durante essa trajetória de recuperação, mas todos foram superados", comemora.

Sua paixão pelas atividades físicas foi a arma na luta pessoal. O esporte a ajudou a seguir adiante, a se adaptar de novo e reorganizar sua vida. Tão logo se recuperou da cirurgia, ela e o filho Bruno se mudaram para Milão.

Como conta, foi tudo meio "na cara e na coragem". Deu tudo certo, felizmente. Ela seguiu sua carreira em terras italianas, mas há aproximadamente dez anos decidiu voltar para o Brasil – o filho continuou na Europa onde, inspirado pela mãe, hoje atua como "personal trainer".aulas de pole dance

O contato com o pole dance

Em 2010, instalada novamente em São Paulo, Vera buscava algo diferente para incrementar seu trabalho: "Já tinha feito de tudo na vida com relação a esporte: fui ex-atleta, tinha dado aula de dança, de jazz, de hip hop; dei aula de tudo que se pode imaginar em uma academia – step, spinning, postural. Estava procurando um novo estímulo".

Perto da sua casa havia um estúdio que oferecia aulas de pole dance. Foi paixão instantânea. "Na primeira aula, entendi que aquilo era o que eu queria, porque tinha a parte acrobática, que eu gostava na minha ginástica olímpica; tinha a parte de dança, que também trabalhei, e havia todo esse trabalho do muscular e da mente de uma maneira intensa", descreve.


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Um ano mais tarde, a proprietária do estúdio quis abrir mão do negócio. Vera e sua professora à época, Mari Mague, assumiram-no como sócias. "Foi por acaso que o pole dance entrou na minha vida. E acabou virando a minha vida", resume.

Desafio x preconceito

Com todo seu histórico esportivo, encarar a combinação de dança e ginástica nas barras não foi um bicho-de-sete-cabeças. O desafio maior foi enfrentar a descrença que envolvia as aulas de pole dance. Frequentemente, ela era questionada sobre por que investir nesse ramo, já que havia só dois ou três espaços do gênero na capital.

Quase uma década depois, apesar de toda a expansão, com estúdios pipocando lá e cá, o preconceito continua envolvendo a dança (mesmo que em menor grau), classificando-a como algo vulgar. "Ainda existem pessoas com pensamento pequeno, que esqueceram de abrir os horizontes para enxergar um mundo novo, diferenciado. Na verdade, a vulgaridade está na cabeça de cada um", opina Vera.

Tudo porque, além dos vários benefícios físicos que o pole dance proporciona, ele trabalha a questão da sensualidade, o que acaba sendo motivo para avaliações preconceituosas.

Os benefícios das aulas de pole dance

A professora, entretanto, lembra que a prática tem inúmeras facetas. Em seu estúdio, por exemplo, é explorada uma pegada mais "fitness" (ali também há aulas de "flying", um trabalho postural em suspensão; pole chair dance, que combina coreografia de pole dance e chair dance; e flexibilidade).

Entre os benefícios físicos, o pole dance trabalha bastante os membros superiores e inferiores, o abdômen e o glúteo. É menos eficiente na parte cardiorrespiratória, a não ser que o treino seja um pouco mais avançado, com coreografias mais intensas.

Todo mundo consegue encarar uma aula? A princípio, sim. Talvez uma pessoa com idade mais avançada jamais alcance o mesmo desempenho que Vera, que há mais de 50 anos se dedica a esportes diversos.

"Mas nada impede que alguém comece a qualquer momento, porque é lúdico, é divertido e ótimo para pessoas com alegria de viver", recomenda. As únicas "exigências" são: ter boa vontade e persistência, o que vale para qualquer prática, certo?

Aconteceu com Vera e provavelmente acontece com todos os praticantes: o pole dance trabalha a autoestima, faz a pessoa amar mais o próprio corpo, provocando mudanças positivas de hábitos. "Você aprende a se respeitar, a se amar, a dizer 'hoje eu não consigo fazer isso, amanhã eu consigo'", ilustra a professora.

Por isso, ela enxerga a dança nas barras como uma forma bastante educadora de encarar a vida – o que também ocorre com outras modalidades. "O esporte me ajudou muito na hora em que tive de superar os meus problemas, porque quem pratica qualquer esporte tem que aprender a ter vitórias com humildade e ter derrotas com persistência, com garra", diz.

Consciência corporal e gratidão

Vera nunca viu a idade como fator limitante para nada em sua vida. É claro, toma algumas precauções. "Evito alguns movimentos para não ter nenhum problema, porque alguns deles têm muita extensão de tronco e eu não tenho mais uma coluna vertebral de 20 anos e, sim, de quase 65 anos. Então é algo fisiológico, da anatomia do meu corpo. E, se acontecer alguma coisa, minha recuperação é mais demorada, mas isso é só precaução", pontua.

Parar de se exercitar é algo que não faz parte dos planos dela. Diferentemente, ela sabe que precisa seguir fortalecendo a musculatura: "Quando uma pessoa faz 60 anos, não precisa parar de se mover e se tornar sedentária. Mesmo que seja caminhar, fazer alguns exercícios mais leves, nadar, um alongamento mais básico, o importante é não parar".

Quanto às aulas de pole dance, Vera também não tem planos definidos, mas acredita que vá encontrar uma nova atividade quando não se sentir mais à vontade ensinando outras mulheres a dançarem nas barras. "É engraçado imaginar uma velhinha dando aula de 'pole dance'", brinca.

A verdade é que ela é uma pessoa que pensa no futuro, mas se preocupa muito mais em viver o presente. "Todas as vezes que eu projetei o meu futuro, a vida mudou e deu outras voltas e nada do que eu planejei funcionou", reconhece.

O olhar positivo da professora é outro segredo que ela adota na vida. "Se tenho um problema, eu não foco nele, mas nas soluções. Tudo o que enfrentei até hoje me deu muita tarimba, digamos assim, para ir levando a vida. Cada problema é um problema, e ele tem que ser encarado pelo que ele é, com pesos e medidas justas para cada coisa, sem aumentar nem se subestimar."

Tanto que ela se diz realmente grata e abençoada por ter passado por tudo o que viveu, inclusive o câncer. "Embora possa parecer difícil as pessoas entenderem, quando digo isso é porque essa experiência me trouxe uma amplitude imensa, uma outra visão da vida, do mundo. Foi fechada uma porta, mas se abriram milhares de janelas e eu me considero uma pessoa muito abençoada – não por ter ficado doente, mas por ter encarado como eu a encarei."

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