Imagine a cena: você mora só e, por isso, recebe, semanalmente, a visita de representantes do governo que desejam obter informações sobre suas condições de saúde. Achou estranho? Pois essa é a realidade de idosos que vivem sozinhos em Pequim. O objetivo, segundo o departamento municipal de assuntos civis da capital chinesa, é melhor atender às necessidades do envelhecimento da população com mais de 60 anos de idade.

Quem tem mais de 80 anos terá prioridade, assim como quem cuida de dependentes com algum tipo de deficiência. Pequim tem 3,5 milhões de habitantes com mais de 60 anos de idade, dos quais 9,8% vivem sós.

Neste ano, ao menos 50 mil pessoas serão visitadas, informa a Xinhua, agência de notícias oficial do governo da China. O governo encontrou nesse recurso uma forma de lidar com a falta de residências de longa permanência voltadas aos mais velhos.

Mas até que ponto visitas a idosos que vivem sozinhos servem como medidas de proteção sem prejudicar a privacidade do indivíduo? Interferências por parte do Estado ou da família, por exemplo, devem sem feitas levando em conta as condições da pessoa, segundo Claudia Filó, presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).

Ela explica que, se é alguém que tem autonomia – capacidade de decidir sobre sua vida e seus interesses – e independência – possibilidade de fazer o que quer –, não há por que haver controle. “Se o idoso é frágil ou semifrágil e não tem uma rede de apoio adequada, o Estado e/ou a família devem se preocupar com ele”, opina.

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Essa perda de funcionalidade faz parte do envelhecimento saudável, também chamada de senescência, explica Guilherme Affonso, psicólogo especializado em neuropsicologia pelo Instituto do Hospital das Clínicas de São Paulo.  Durante esse processo natural, intervenções na rotina, ou seja, na privacidade do idoso, só devem ser feitas quando a perda da funcionalidade afetar as tarefas práticas e básicas.

“Quando atividades como manipular o caixa eletrônico ou o celular, bem como comer ou tomar banho, se tornam prejudicadas, aí há necessidade de uma interferência realmente direta. Mas, ainda assim, deve ser feita de maneira adequada e paciente, com uma equipe composta por neurologista, psiquiatra, neuropsicólogo e geriatra”, explica ele. Dessa maneira, completa Affonso, “podemos ver a interferência de forma positiva”, já que ela tem como objetivo reduzir riscos à vida e à saúde de idosos que vivem sozinhos.

Limites e violência

Por outro lado, o respeito à privacidade é recomendável, independentemente do grau de fragilidade. “Ficar só ao menos um pouco é aconselhável. Afinal, o que nos define como cidadãos é o direito à individualidade. É o respeito por nosso tempo e espaço”, avalia Affonso. “É necessário delimitar fronteiras sobre o que é meu e quem eu sou e o que/quem é o outro. A quebra disso é uma violência da própria definição do que somos e do que pertence a nós”, destaca.

“A invasão e quebra dos direitos de idosos autônomos, independentes e hígidos são caracterizadas como violência”

As consequências dessa violência podem, inclusive, agravar o quadro de fragilidade ou levar a pessoa a um cenário de depressão ou de falta de interesse pelo seu próprio cotidiano. “Devemos fazer de tudo para que os idosos com os quais convivemos se mantenham autônomos e independentes, avaliando o custo-benefício das interferências. A invasão e quebra dos direitos de idosos autônomos, independentes e hígidos são caracterizadas como violência e devem ser denunciadas na Delegacia do Idoso e no Ministério Público”, explica Filó.

Denúncias de violência ou violação de direitos dos idosos podem ser feitas pelo Disque 100. Esse é o principal canal de comunicação da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos.

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