Elas são as verdadeiras “selvagens das motocicletas”, fazendo uma alusão ao título de um filme dos anos 1980 dirigido por Francis Ford Coppola. Afinal, encararam um desafio a quatro rodas – duas em cada moto – que cruzou estradas brasileiras e estadunidenses ao longo de 115 dias, ou quase quatro meses. Ana Pimenta, de 52 anos, e Ana Sofia, de 48, percorreram 28 mil quilômetros a bordo de suas Harley-Davidson. E com uma causa ligada à saúde feminina como norteadora.

De Porto Alegre a Milwaukee, nos EUA. E passando por “pit stops” escolhidos a dedo, em um número equivalente à quantidade de dias. Os 115 pontos de parada da viagem foram estrategicamente selecionados a partir da paixão que uniu as duas “Anas”: a marca americana centenária de motocas. Um dos objetivos da dupla era visitar 115 concessionárias da Harley até chegar à festa de aniversário da empresa em sua cidade-sede, Milwaukee, o que aconteceu no final de agosto do ano passado.

Para entender melhor como surgiu a ideia dessa jornada, precisamos dar uma ré no tempo. Vamos aportar, inicialmente, na mocidade das duas aventureiras, época em que seu amor pelas Harley-Davidson foi desperto.

Muitas aventuras na Harley-Davidson

“Aconteceu quando eu estudei [hotelaria e turismo] na Califórnia e havia uma loja da marca mais ou menos perto dos lugares que eu frequentava”, conta Ana Sofia. “Sempre gostei de moto e da Harley, mas não tinha o contato real com ela, uma vez que quase não havia modelos da empresa no Brasil. Nos EUA, comecei a frequentar a loja, e a paixão foi crescendo.”

Ana Pimenta, por sua vez, diz que conheceu a Harley na adolescência, quando se encantou com uma matéria de jornal que falava sobre o estilo de vida dos adeptos da marca, que inclui o jeito de se vestir e o discurso libertário de quem pega a estrada em busca de aventuras.

“Eu já gostava de moto, mas, quando vi a Harley, foi paixão à primeira vista”, afirma. E tão intensa que direcionou até seus rumos profissionais: logo ela foi trabalhar em uma loja de motos e hoje é dona de uma.

aventuras na Harley-Davidson

E foi justamente no estabelecimento em que Pimenta trabalhava que as estradas das duas Anas se cruzaram pela primeira vez. A cidade era São Paulo. O ano: 1996. Sofia fora comprar uma Harley para a mãe – só depois iria adquirir uma para si mesma. Pimenta era a vendedora. “Uma mulher como cliente era algo raro”, diz. Nascia ali, então, já no primeiro contato, uma amizade duradoura. E uma parceria que rendeu muitos quilômetros de rodagem.

Há cerca de 20 anos, as duas viajam juntas e já estiveram em lugares como Atacama, Cuba e Argentina. Atualmente, são também colegas de trabalho em mototurismo. Mas o maior desafio sobre rodas foi mesmo The Ride 115, assim batizado o projeto de percorrer 115 concessionárias até chegar à festa de aniversário de 115 anos da Harley-Davidson em Milwaukee.

“Eu queria comemorar meus dez anos de término da quimioterapia, por conta de um câncer de mama”

“A gente sempre falou em fazer uma viagem longa, só nós duas, tipo expedição, porque sempre viajamos com clientes ou amigos”, diz Ana Pimenta. Sofia, por sua vez, tinha uma razão a mais para botar o pé na estrada em busca de novos horizontes. “Eu queria comemorar meus dez anos de término da quimioterapia, por conta de um câncer de mama. Em 2017, quando vimos que o aniversário de 115 anos da Harley-Davidson seria em 2018, caiu a ficha de que tinha que ser essa a viagem, e nesse ano.”

Os preparativos duraram cerca de um ano. Era preciso definir o roteiro das 115 concessionárias, por exemplo. Uma vez planejado o percurso, Ana Pimenta e Ana Sofia partiram de Porto Alegre em 19 de maio de 2018. E, até chegarem a Milwaukee no final de agosto, não faltaram de fato muitas emoções, e de diversas naturezas.

Muita calma nessa hora

A começar com a greve de caminhoneiros que assolou o Brasil e com a qual se depararam nas proximidades de Curitiba. “A rodovia estava toda fechada, e ali ajudou muito o fato de sermos mulheres”, conta Ana Pimenta. “Os grevistas nos deixaram passar aos gritos de ‘Abre, abre que é mulher’. No dia seguinte, porém, quando tentamos deixar a cidade, não conseguimos e tivemos que voltar e ficar por lá mais alguns dias. A sorte é que havíamos reservado uma semana de respiro no cronograma, justamente para imprevistos como esse.”

aventuras na Harley-Davidson

As intempéries também foram marco na trajetória. Os termômetros a bordo variaram seus dígitos entre os -3°C na Serra do Rio do Rastro, em Santa Catarina, e 45°C nos territórios de deserto em Nevada, nos EUA. Teve ainda furacão, esse já na volta.


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“Pegamos a passagem do Florence, na Carolina do Norte, com muita chuva e vento forte”, diz Pimenta. Em outro trecho, saindo de São Francisco, na Califórnia, depararam-se com um incêndio na mata próxima da rodovia. “Tivemos que parar e ficar um dia numa cidade por ali, eu tenho rinite alérgica e mal conseguia respirar. Na manhã seguinte, as motos estavam cobertas de cinzas”, descreve.

Falando nas motocas, elas também deram algum trabalho extra, mais especificamente a de Ana Pimenta. “Ela quebrou duas vezes”, diz a aventureira. “Na primeira, o problema foi na bomba de óleo, e sorte que estávamos em Las Vegas, cidade para a qual já havíamos programado uma parada para manutenção na concessionária local da Harley.”

aventuras na Harley-Davidson

O segundo contratempo foi devido a uma descarga na bateria, o que aconteceu perto de um cenário de desenho animado – o Parque Nacional de Yellowstone, que serviu de inspiração para o parque habitado pelo urso Zé Colmeia nas criações de Hanna-Barbera. No caso real das duas amigas, quem teve de correr atrás de ajuda e resgate para a moto arriada foi a Ana Sofia.

Por falar em urso, Pimenta conta que quase atropelou um filhote – seria o Catatau? –, no Tenessee. “A princípio pensei que fosse um cachorro. Quando vi que era um urso, queria parar pra vê-lo melhor, mas a Ana Sofia me disse: ‘Que parar o quê, vamos embora que a mãe deve estar por perto!’”

O único motorista de Uber da cidade: um senhor de 80 anos

O contato com os humanos pelo caminho também enriqueceu a experiência, segundo Ana Pimenta. Ela se recorda com especial carinho de um motorista em uma cidadezinha no alto de Nevada. “Tivemos que parar nessa cidade porque ventava demais. Resolvemos chamar um Uber para ir a um restaurante jantar e descobrimos que só havia um por ali, um senhor de mais de 80 anos que, conforme nos disseram, só trabalhava quando tinha vontade. No caso, demos sorte, porque ele nos atendeu. E ainda foi muito simpático, contou a história de sua vida, que havia se separado e tal.”

Cidades pequenas, por sinal, foram deliberadamente escolhidas para o roteiro da viagem. “Queríamos desbravar lugares pouco conhecidos”, justifica Pimenta. No restaurante mencionado, ela diz ter se sentido em um típico filme americano que retrata essas localidades menores. “Todo mundo se conhecia, criando um clima bastante familiar, e os móveis eram de época”, detalha. A dupla, aliás, pernoitou também em um hotel em que o famoso bandido Butch Cassidy costumava se hospedar.

Em sua cruzada de celebração, as Anas distribuíram pulseiras com a temática do Outubro Rosa, campanha de luta contra o câncer de mama. “Encontramos durante a viagem muitas pessoas que tinham câncer ou que haviam perdido alguém da família por causa da doença”, diz Pimenta.

aventuras na Harley-Davidson

Um desses casos em particular as comoveu mais. Em uma das concessionárias da Harley-Davidson, uma vendedora que as recebeu começou a chorar assim que as duas contaram que uma das motivações do projeto se relacionava com o câncer de mama. “Ela havia recebido naquele dia a notícia de que sofria da doença. Ficamos sem reação quando nos disse isso.”

Tristezas à parte, o sonho americano das duas motociclistas se tornou realidade depois de 28 mil quilômetros e muitas histórias na garupa. Eventuais dores ficaram mesmo em segundo plano – a de uma hérnia de disco inclusive, problema que incomoda Ana Pimenta há oito anos.

Mas nada que pudesse impedi-la de domar sua Harley em um roteiro que se pode dizer como sendo de cinema. “Faríamos tudo de novo, exatamente da mesma forma”, complementa Sofia. Não temos dúvida disso, meninas. Vocês provaram que são mesmo as verdadeiras “selvagens das motocicletas”.

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