“Você culpa seus pais por tudo... São crianças como você.” É a letra de “Pais e Filhos”, da banda Legião Urbana, que vem à cabeça da consultora em hotelaria Morjana Dantas, 54 anos, quando ela faz um retrospecto de vida, sobretudo depois de voltar a morar com os pais ao pedir demissão de um emprego em uma rede de hotéis, em 2012.

Esse tipo de retorno às origens tem se tornado mais comum nos tempos atuais. A extensão da longevidade, muitas vezes, reaproxima pais e filhos, que passam de novo a viver sob o mesmo teto por circunstâncias diversas. E, em um contexto de maturidade de ambos os lados, transformar-se uma oportunidade preciosa de aprofundar as relações e rever acontecimentos do passado.

No entanto, para que a experiência seja realmente enriquecedora para todos, é necessário observar alguns princípios para a boa convivência. Quem retornou à casa dos pais conta quais são os dilemas e os segredos  para viver em harmonia.


Visita ou moradora?

Logo que voltou à casa dos pais, 20 anos depois de tê-la deixado para trilhar seus próprios caminhos, Morjana não fazia ideia de o quão transformadora seria a experiência. “No começo, foi difícil”, afirma ela. “Eu pedia licença até para abrir a geladeira, até o dia em que minha mãe me disse: ‘Agora aqui também é a sua morada, o que na verdade nunca deixou de ser’.”

Porém, ela diz que, embora já se sinta mais à vontade em seu “novo” ambiente doméstico, preferiu não assumir as rédeas do controle da gestão do lar. “Essa função ainda é da minha mãe”, diz, como quem sabe que, dessa maneira, evita estresses desnecessários devido a eventuais diferenças de ponto de vista. No entanto, seu apoio é efetivo e decisivo quando se trata de cuidar do pai.

Afinal, a volta de Morjana esteve relacionada a um aneurisma e dois AVCs sofridos por ele há 18 anos. “Meu pai estava separado de minha mãe à época e morou um tempo com minha avó”, conta. “Porém, há 12 anos, os dois tornaram a viver juntos.”


Proximidade ou distância?

A convivência trouxe agradáveis surpresas, segundo Morjana. “Passei a conhecer muito mais os meus pais”, afirma. “Consegui ver o quanto tinha deles. E através deles passei a me conhecer melhor também. Eles estão mais amenos, menos críticos e mais abertos a abordar temas que antes pareciam proibidos.”

“Resgatei o amor que tinha por ele”

Em sua opinião, principalmente a convivência com o pai – hoje com 78 anos; a mãe tem 76 – foi transformadora. “Eu e ele tivemos uma relação muito conflituosa durante minha adolescência”, desenvolve. “Hoje ele me dá muito carinho. Passamos a conversar sobre coisas do passado, dos tempos da minha infância. Eu resgatei o amor que tinha por ele naquela época, e só agora percebo o quanto seus conselhos para mim eram sábios. Ele só queria o meu melhor.”


Cuidados ou cuidadores?

A convivência harmoniosa em sua “nova” casa também requereu o entendimento de que, ainda que adultos, os filhos não deixam de ocupar esse lugar na percepção dos pais. “Eles se preocupam quando saio e chego mais tarde, por exemplo”, conta. “Mas, ao mesmo tempo que percebe que está sendo controlado, você também controla e se preocupa com eles. E, no final das contas, é gostoso saber que alguém se importa com a gente de verdade, é um carinho, um afeto.”


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Desenterrar a mágoa ou deixar pra lá?

Essa proximidade, que faz com que os papéis se confundam, também traz à tona dores do passado. “É a hora de cuidar de pendências emocionais”, pondera o jornalista e radialista Bruno Cesar Boisson, 57 anos, que se especializou em pesquisa social de opinião da terceira idade pela Universidade Aberta da Terceira Idade da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

Bruno pôde colocar em prática seus conhecimentos sobre longevidade – ele também é assessor da Associação de Cuidadores de Idosos do Rio de Janeiro – quando retornou para o ninho materno em 2000 e nele permaneceu por seis anos, até 2006, quando sua mãe, então viúva, morreu, aos 75 anos, um ano e meio após ser diagnosticada com Alzheimer.

“É o momento de obter um perdão ou de se redimir de algo. Isso só é possível quando se mora junto, não é proporcionado por visitas ocasionais. Para o filho, também é a chance de estar presente para não ter depois qualquer tipo de remorso por sua ausência.”


Ceder ou confrontar?

Com a mãe, o jornalista pôde retomar assuntos que haviam “ficado para trás” e que antes pareciam “inatingíveis”. “Ela até me cobrou de um tempo na juventude em que eu viajava muito e ficava pouquíssimo em casa”, diz. “É como se eu pudesse compensar aquela distância de outrora com a reaproximação durante a velhice dela.”

“Eles fazem chantagem emocional para conseguir acolhimento”

Há de se ressaltar, contudo, que é uma fase da vida dos pais que apresenta comportamentos característicos que precisam ser entendidos pelos filhos para não haver conflitos. “Há situações em que eles fazem chantagem emocional para conseguir maior acolhimento”, afirma ele. “Houve uma vez em que entrei no quarto da minha mãe e ela estava pedindo socorro, mas não estava acontecendo nada de mais. Ela usou aquele recurso para me sensibilizar porque queria atenção.”

O bom senso para diferenciar reais necessidades de uma estratégia motivada pela carência é fundamental nesse tipo de convívio. Em uma madrugada, por volta das 3h30, a mãe de Boisson voltou a chamá-lo de seu quarto. Dessa vez, estava de fato passando mal.

“Acionei uma equipe de atendimento médico, mas eles não conseguiram salvá-la. Ao menos, tentei socorrê-la, fiz tudo o que pude na ocasião. Não sei como seria a minha vida depois disso se eu estivesse longe quando ela morreu.”


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