As dificuldades aumentam lentamente e, de repente, um filho percebe que se dedica mais a cuidar dos pais do que seus irmãos. O ressentimento se instala. A relação começa a se deteriorar e afeta todos os envolvidos – inclusive, os genitores.

É o que acontece em muitas famílias, inclusive na do publicitário Marcos Paulo Andrade de Araújo, 41 anos. Ele diz cuidar sozinho do pai, José, 86 anos, e da mãe, Hilda, 81 anos, que sofrem de Parkinson.

De segunda a sexta, durante o dia, o casal fica em uma instituição especializada. À noite e nos fins de semana, estão sob os cuidados do caçula. Apesar de morarem na mesma região da capital paulista, Marcos afirma que os irmãos – um de 57 e uma de 51 – se recusam a ajudá-lo.

 “Você mora junto, não paga aluguel, não tem filho, não tem despesa... É mais ou menos o que eu ouço”, desabafa Marcos, revelando que tentou conversar várias vezes, sem sucesso. “Profissionais do serviço social e da área médica tentaram dialogar e não adiantou. Nem os meus pais eles quiseram ouvir.”

Não são raras as situações de conflito entre filhos cujos pais precisam de cuidados. Mas há formas de buscar a convivência harmoniosa e evitar soluções extremas, segundo a psicóloga Simone Bracht Burmeister, 49 anos, autora do livro “Família e Pessoa Idosa: Reflexão e Orientação” (Editora Sinodal). Confira, a seguir, as dicas da especialista.


Cuidar dos pais idosos: irmãos precisam saber dividir

1. Comece pelo diálogo

O primeiro passo é reunir todos os irmãos e conversar. Se os pais estiverem lúcidos, em condição de opinar, também devem ser envolvidos na tomada de decisão. Foi o que fizeram Antonio, 87 anos, e Isabel, 82 anos, que escolheram morar com a filha Isabel Aparecida Silva Ruiz, 64 anos, em São Paulo. “Eu gosto de cuidar, sou viúva e não tenho filhos. Isso facilita”, conta a primogênita.

2. Comunique sempre

É comum filhos que estão próximos aos pais resolverem pendências do dia a dia, como levar para fazer exames, e não contarem aos irmãos. Mas, quando a situação se agrava, as dificuldades aumentam e os irmãos são pegos de surpresa. “Isso pode causar mágoa e ressentimento, como também falta de interesse em ajudar”, explica Simone.

Isabel tem três irmãos (João, 58 anos, Francisco, 55 anos, e Dolores, 53 anos) que moram em outras cidades e não têm como auxiliar no dia a dia. Mas, quando o caso é mais grave, ajudam de alguma forma. “Procuro sempre comunicar que meus pais vão passar por consulta médica, o que o médico falou, como eles estão”, comenta.


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3. Divida tarefas, multiplique cuidados

Alguns filhos podem ser superprotetores, cuidadores em excesso ou centralizadores. Eles assumem tarefas, não dão abertura para os outros e, depois, ficam ressentidos porque ninguém ajuda. “A conversa desde o início é importante para que ninguém se sobrecarregue e para evitar que comecem a aparecer divergências, problemas e conflitos”, reforça Simone.

4. Ponha as finanças à mesa

Nem sempre os pais têm condições financeiras de bancar tratamentos, home care, cuidadores 24 horas ou instituições de longa permanência. Nesse caso, uma dica da especialista, que trabalha com psicoterapia de adultos e idosos e também com familiares de idosos dependentes, é que os filhos levem em conta a renda de cada um na hora de dividir os gastos. “De repente, quem mora mais longe pode compensar a distância contribuindo mais na parte financeira”, sugere ela.

5. Deixe às claras

Há famílias que formalizam a divisão de responsabilidades em contrato e existem também as que não acham necessário. De toda forma, colocar as tarefas em pauta pode ser uma saída para cuidar dos pais sem dor de cabeça. Esse contrato pode ser jurídico ou simplesmente um e-mail ou uma planilha criada pelos próprios irmãos para organizar os papeis de cada um e administrar os afazeres.

6. Defina um ponto de contato

Imagine como é para um cuidador ou para o gestor de uma instituição de longa permanência receber diferentes orientações, pedidos e cobranças de dois, três ou quatro filhos. Estabeleça um ponto de contato, no qual apenas um deles faça a intermediação da relação. Com isso, é possível evitar desconfortos familiares e desencontros de informação.

7. Esteja perto, mesmo longe

Com tantos recursos que facilitam a comunicação, a distância não impede de contribuir com o cuidado dos pais. Chamar um irmão ou mesmo os pais num aplicativo de conversa faz a diferença. O ideal é “que os filhos distantes não tenham uma postura distante”, ressalta Simone. E completa: “Fazer esse papel de escuta ameniza bastante a sobrecarga de quem está no cuidado constante”.

8. Saiba que pouca afinidade não é desculpa

Quem tem menos afinidade com os pais pode se responsabilizar por atividades burocráticas, como fazer a contabilidade mensal, realizar pagamentos e conduzir contratos de locação ou venda de imóveis. Enquanto isso, os filhos com vínculo afetivo mais forte cuidam de situações que exijam proximidade, como levar ao médico. Qual será o papel de cada um para cuidar dos pais pode ser definido com conversa.

9. Peça ajuda

Nem sempre a conversa será fácil e tranquila. Podem surgir dificuldades e conflitos. Nesses casos, Simone diz que a família deve reconhecer que não está conseguindo resolver e buscar um profissional. Podem ser um psicólogo, um assistente social, o médico que trata o idoso ou, se for o caso, um advogado. “No Brasil, a cultura é de que roupa suja se lava em casa, e as pessoas acham que não podem pedir ajuda a terceiros. Não permita que o conflito aumente os ressentimentos e o rancor”, aconselha.

10. Desenvolva sua competência emocional

Quem nunca achou que um irmão era mais favorecido ou protegido pelos pais? Na infância, isso é comum. Em geral, quando a pessoa amadurece ou tem filhos, entende melhor como tudo funciona. Mas nem sempre. Há casos em que o indivíduo ressentido se afasta da família, o que dificulta muito na hora de cuidar dos pais. Para evitar isso, o segredo é não guardar rancor e externar os sentimentos, em vez de carregá-los por anos, sugere a especialista.


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