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“A esperança está na coletividade”, diz empreendedor social de ONG do sertão

Aos 54 anos, José Dias Campos se dedica a transformar terra seca em área produtiva

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O empreendedor social José Dias Campos, do Cepfs – Transformando o Sertão; crédito: Renato Stockler

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. A afirmação, de Euclides da Cunha no livro “Os Sertões”, diz muito sobre o empreendedor social José Dias Campos que, aos 54 anos, se dedica a transformar terra seca em área produtiva, melhorando a vida de quem mora no semiárido nordestino.

Este paraibano de Teixeira já passou fome. Enganava o ronco do estômago mastigando folhas do umbuzeiro, árvore típica do Nordeste. Enfrentou o trabalho duro do sisal ainda menino, aos 8 anos, para ajudar no sustento da família. Adolescente, perdeu o pai.

“Muitas das vezes, não conseguia enxergar bem as letras, devido ao cansaço”

“Não tive muita oportunidade para brincar nem estudar. Só fui começar a estudar já jovem. Trabalhava durante o dia e estudava à noite”, lembra. E completa: “Muitas das vezes, não conseguia enxergar bem as letras, devido ao cansaço”.

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O empreendedor social José Dias Campos, do Cepfs – Transformando o Sertão, no semiárido paraibano; crédito: Renato Stockler 

Mas nem tudo era tristeza. “Principalmente em noite que tinha lua, depois do estudo, resolvia brincar um pouco nos terreiros”, lembra o coordenador-executivo do Cepfs – Transformando o Sertão (Centro de Educação Popular e Formação Social).

As noites de dedicação aos livros deram resultado. Com o apoio de amigos, que fizeram vaquinha para que ele se matriculasse na faculdade, graduou-se em ciências econômicas. Em vez de fazer como grande parte dos que saem do interior para se formar e acabam migrando para a capital, Zé Dias, hoje casado, pai de três filhos e avô da Ana Júlia, decidiu ficar no sertão e fazer ali a sua mudança.

O trabalho do Cepfs é focar o micro para atingir o macro. Ou, nas palavras do empreendedor, “potencializar os conhecimentos locais das comunidades atendidas para desenvolver o sertão de maneira sustentável e sustentada”.

Isso se dá de várias formas. Há treinamento para a construção de cisternas e sobre agricultura orgânica, orientação sobre como criar um banco de sementes (a comunidade colabora com a doação de grãos, que são divididos na época de semear e devolvidos quando chega a hora da colheita) e também no gerenciamento de Fundos Rotativos Solidários (tipo de banco em que associados colaboram com valores que, depois, em decisão comunitária, serão emprestados a quem tiver necessidade, sem juros).

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O empreendedor social José Dias Campos, do Cepfs – Transformando o Sertão sobre uma cisterna; crédito: Renato Stockler

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A manutenção de todo esse trabalho da ONG, porém, depende de financiamento. A crise político-econômica por que passa o Brasil fez minguar o apoio que vinha do governo federal, assim como os do exterior também rarearam – e o Cepfs teve de se adequar à nova realidade.

“Toda a infância e a adolescência de muita dificuldade me fizeram enxergar que a solidariedade é que possibilita vencer os obstáculos. Tenho a convicção de que a esperança está na coletividade”

Foi necessário reduzir a equipe (de 18 para 6 integrantes) e também o alcance (entre 2003 e 2016, 954 famílias foram beneficiadas só pelos Fundos Rotativos e 91.110 pessoas, atendidas por alguma das capacitações da ONG; hoje são cerca de 100 famílias), mas não a esperança. “Toda a infância e a adolescência de muita dificuldade me fizeram enxergar que a solidariedade é que possibilita vencer os obstáculos. Tenho a convicção de que a esperança está na coletividade. Apesar da crise, estamos de pé!”

A experiência de abrir uma torneira e ela estar seca traumatiza, mas também ensina. O sertão da Paraíba passa por um período de estiagem atualmente, e, segundo Zé Dias, há pontos positivos no cenário. A situação, em sua análise, fortalece o agricultor, pois gera autonomia e capacidade de gestão, “e é isso é o que nos move”.

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Sertanejo leva água em carro de boi pelo semiárido paraibano; crédito: Renato Stockler

“Houve famílias que colheram um pouco do que plantaram, outras perderam quase tudo. Não choveu o suficiente para fazer água nos reservatórios maiores. Mas isso comprova que a estratégia de estruturar as propriedades da agricultura familiar com cisternas para o consumo humano e para a produção de alimentos é um caminho eficiente porque, mesmo chovendo pouco, as famílias conseguem captar água para uma parte do ano.”

O trabalho desenvolvido pelo Cepfs vem sendo premiado desde 2005, quando uma feira de experiências em inovação social organizada pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) e pela Fundação W.K. Kellogg, no Chile, reconheceu o valor do projeto Convivência com a Realidade Semiárida – Promovendo o Acesso a Água, Solidariedade e Cidadania. Depois disso, vieram mais 25 prêmios, destaques, menções honrosas e selos oferecidos por organizações do Brasil e do exterior.

“Acreditar em nossos resultados e em nossas tecnologias sociais é o combustível que me alimenta, o que me faz continuar lutando incansavelmente para conseguir novos patrocinadores ou apoiadores”, afirma.

Para conhecer mais o trabalho de Zé Dias e do Cepfs, visite o site www.cepfs.org.

 

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José Dias Campos, do Cepfs – Transformando o Sertão, que trabalha para promover o fortalecimento dos agricultores no semiárido; crédito: Renato Stockler

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