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Ele encontrou um jeito incrível para tirar seu pai da depressão

O economista Rubens Augusto Junior criou a Patroni ao ouvir dos médicos que o pai poderia morrer

depressão
Rubens Augusto Junior na sede da empresa, na zona sul de São Paulo; crédito: Ormuzd Alves

Rubens Augusto havia perdido o emprego – tinha então 50 anos. Era década de 1980, com inflação galopante e desemprego nas alturas. Sem encontrar trabalho, passava os dias de pijama em casa. Até ter um infarto. “Disseram que o problema dele era emocional, que era uma depressão por causa da ausência de atividade”, lembra o filho, Rubens Augusto Junior, hoje com 58 anos. 

Os médicos alertaram que o patriarca poderia ter um novo infarto. “Não tive outra alternativa senão abrir um negócio próprio para colocar meu pai em atividade outra vez”, afirma o filho. Nascia aí a Patroni, uma rede de pizzaria que hoje conta com 204 unidades em todo o Brasil. Agora, ele prepara terreno para futuramente passar o bastão para os três filhos. O maior orgulho? “Primeiro, ter feito meu pai feliz. Segundo, ter criado meus filhos, que seguiram o nosso exemplo – meu e do meu pai.” 

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva ao Instituto de Longevidade Mongeral Aegon. 

Como era o relacionamento com seu pai antes de vocês abrirem a pizzaria? 

Antes de casar, eu morava com ele. Eu trabalhava, ele trabalhava, e a gente se encontrava em casa. Era uma pessoa muito rígida, muito séria. Era um trabalhador de mão cheia.  

[Éramos] corintianos roxos os dois. Todo domingo a gente almoçava junto e assistia ao jogo do Corinthians. [Risos] 

Como percebeu que ele tinha entrado em depressão após perder o emprego? 

Primeiro, ele ficava de pijama o dia inteiro. A gente via que ele estava chateado. De repente, teve um infarto. Os médicos conseguiram reverter. Disseram que o problema dele era emocional, que era uma depressão por causa da ausência de atividade. 

Eu trabalhava na Cesp [Companhia Energética de São Paulo], na diretoria financeira, e não conseguia arrumar emprego para ele. Foi em 84, com crise do petróleo, desemprego enorme, inflação de 85% ao mês. Uma recessão muito profunda.  

Os médicos disseram que ele estava com uma depressão muito grande. Poderia vir a ter outro infarto. Não tive outra alternativa senão abrir um negócio próprio para colocar meu pai em atividade outra vez. 

Eu era economista, só sabia mexer com números. Mas tinha um hobby de fim de semana: fazer pizza. Todo mundo adorava. Falei: “Vou fazer uma pizzaria para viagem”.

Na época, não existia nem a palavra delivery. Eu não tinha dinheiro suficiente. Reuni dois cunhados que tinham um pouquinho de dinheiro e resolvemos fundar a Patroni [patrões, em italiano], em novembro de 1984.

“Nossa, ele chorou, chorou, chorou. Não acreditava. Falei: ‘É verdade, pai’” 

Como seu pai reagiu? 

Nossa, ele chorou, chorou, chorou. Não acreditava. Falei: “É verdade, pai”. A partir daí, ele nem dormia à noite. Não saía do ponto, acompanhou a reforma o tempo inteiro. Ou seja: vida, alegria, prazer. Era outra pessoa. 

E você, como reagiu? 

Muito feliz, né? Só que aquilo precisava dar certo. Nos bairros do Paraíso, da Vila Mariana e dos Jardins, que era nossa área de atuação, tinha só um delivery de pizzas em 84. Imagina que as pessoas que queriam comer pizza em casa tinham que ir às pizzarias, ficar nas filas homéricas esperando a pizza, pegar e levar para casa. Era um trabalho danado. 

Decolou com muito esforço, sacrifício, dedicação. Eu saía da Cesp às 6 horas da tarde e ia para lá. Distribuía folheto no bairro inteiro – eu, meu pai e meu cunhado. Depois, corria para a pizzaria para fornear a pizza, porque não dava para contratar um forneiro. Tive que aprender a fazer profissionalmente. Meu pai coordenava a saída de pizza, arrumava as bicicletas.  

Rubens Augusto Junior e Rubens augusto, na sequência; crédito: divulgação
Rubens Augusto Junior e Rubens Augusto, respectivamente; crédito: divulgação

O relacionamento de vocês se alterou depois disso? 

Fui conhecendo melhor o meu pai, com mais profundidade. Claro que tivemos alguns arranca-rabos, que é natural, né? Eu fui vendo aquele homem de verdade. Era um leão. Não media esforços para realizar tudo aquilo que tinha que fazer. 

“Começamos a bater recordes de vendas. Quando terminava o dia, nós nos abraçávamos” 

Qual foi o momento mais marcante para você? 

Começamos a bater recordes de vendas. Quando terminava o dia, nós nos abraçávamos. Isso foi muito marcante: o sucesso e nossa confraternização a cada recorde de entrega de pizza. 

Qual foi a principal lição que você aprendeu com ele? 

Todas as que eu carrego até hoje: honestidade, dignidade, caráter e muita força de trabalho. Não desistir jamais. 

Até 1997, ele ficou à frente do negócio com você? 

Ficou. Ele coordenava todos os trabalhos na pizzaria até eu chegar. Aí eu assumia a operação. Eu falava: “Pai, vai embora para casa”. Ele dizia: “De jeito nenhum, vou ficar até o fim”. Ele pôde comprar o primeiro carrinho dele… Passava nos amigos e dizia: “Olha o carro que eu consegui comprar com o emprego que o meu filho me arrumou”.  

Em 1997, você perde o pai e o sócio… 

Exatamente. Nós tínhamos três lojas. E aí surgiu um convite para uma praça de alimentação em um shopping de Santo André [na Grande São Paulo].  Mostrei o projeto e corria lágrima do olho dele.  

Dia 8 de junho de 97, meu cunhado faleceu aos 37 anos. Ele era sócio. 52 dias depois, meu pai faleceu com um derrame cerebral. Fiquei sozinho e tinha que tomar uma decisão: continuava na Cesp e vendia as lojas ou saía da Cesp e tocava a Patroni. Foi o que eu fiz. 

“Me senti perdido, sozinho. Meu pai era tudo pra mim.” 

Como você lidou com isso? 

Foi muito difícil, muito duro. Me senti perdido, sozinho. Meu pai era tudo pra mim. Fiquei sozinho e sou sozinho até hoje. Nunca mais quis ter um sócio. 

Hoje seus filhos trabalham com você? 

Meu filho começou em 1998, aos 15 anos de idade. Minha outra filha começou em 2000, também aos 15 anos de idade. Meu filho me pediu para trabalhar e eu falei: “Você não sabe fazer nada, né? E só tem meio período, né? Então você vai entrar como ajudante de cozinha para carregar lenha, lavar prato e lavar chão. E vai ganhar meio piso da categoria, porque está trabalhando meio período”.  

Eu sabia que meus filhos tinham que começar daquela forma para ir aprendendo e passando por cada estágio, até chegar à diretoria. E foi o que aconteceu com os dois. Meu filho se formou em economia e hoje é diretor de marketing. Minha filha se formou em direito e trabalha na área jurídica. A caçula tem 20 anos e que está fazendo nutrição. Fizemos um novo cardápio, que lançamos neste mês, e ela participou de metade dele, na linha light. 

Você é um pai coruja? 

Muito. Tenho orgulho dos meus filhos. A herança que recebi do meu pai, de trabalho, honestidade, garra, determinação, acho que meus filhos herdaram de mim.  

Como é trabalhar com eles? 

Ahhhhh, tem uns conflitos de geração no meio. Mas é importante. Eu escuto muito, porque é a visão da nova geração. Nós temos que modernizar, aprimorar, evoluir com o tempo. 

“Era possível comprar um bife por semana. E minha mãe falava que não gostava de carne, para que esse bife sobrasse para mim” 

 Sua visão de família mudou com todos trabalhando juntos? 

Sempre trabalhei pela minha família. Trabalhava 14 horas por dia, para que eles não passassem pelo que eu passei. Passamos fome, eu, meu pai, minha mãe e minha irmã.  

 Na infância? 

Sim, meu pai já havia estado desempregado. E nós não tínhamos o que comer dentro de casa. Era possível comprar um bife por semana. E minha mãe falava que não gostava de carne, para que esse bife sobrasse para mim. Depois que ganhei dinheiro e levava nos rodízios, aí eu vi como ela não gostava de carne… Ela adorava carne. Era uma dificuldade enorme.  

Do que mais se orgulha? 

[Pausa.] Primeiro, ter feito meu pai feliz. Segundo, ter criado meus filhos, que seguiram o nosso exemplo – meu e do meu pai. 

Do que se arrepende? 

Eu me arrependo um pouco, mas sem ter outra alternativa, de não ter visto meus filhos crescerem, de não ter ficado com minha esposa o quanto gostaria de ter ficado. Tive medo de expor minha família à miséria, como acabei passando. 

Mas conversando com meus filhos, eles dizem que nunca me sentiram ausente. Não sei se falam isso para me agradar ou se é verdade.  

Você pensa em se aposentar? 

Penso, opa! Mas no momento certo, quando meus filhos estiverem capacitados para assumir a empresa. 

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