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“As pessoas estão mais tristes”, diz fundador dos Doutores da Alegria

Para Wellington Nogueira, caminho para felicidade é a conexão com os outros e com você mesmo

Doutores da Alegria
Wellington Nogueira, fundador dos Doutores da Alegria; crédito: Luciana Dantas/divulgação

Para Wellington Nogueira, 56 anos, a violência contra crianças aumentou, os desafios da área da saúde estão iguais ou piores do que os do começo da década de 90, e os brasileiros estão mais tristes. Mas o fundador da ONG Doutores da Alegria vê contrapontos em tudo – e consegue enxergar caminhos mesmo em cenários nebulosos. “Eu ainda acredito que a gente pode instituir uma cultura de alegria. Não é de ficar rindo que nem tonto, mas se conectar com o outro”, diz.

O exemplo e a inspiração vêm dos hospitais, onde ele lidera o trabalho que utiliza a arte do palhaço para intervir junto a crianças, adolescentes e outros públicos em situação de vulnerabilidade e risco social. E de sua história: “Fazendo terapia e procurando me conhecer melhor, vi que tinha capacidade e vontade de pegar essa tristeza e transformar em alegria”.

Leia, a seguir, trechos da entrevista.

Profissionalmente, qual é a diferença entre 1991, quando você começou com os Doutores da Alegria, e 2016?

Ah, tem várias. A maior delas é que, quando comecei, era um deserto. O conceito que eu ouvia nos hospitais era que o mais importante era dar bom tratamento. Hoje, cada vez mais, vejo essa instituição hospitalar se desafiar para dar um atendimento que contemple não só o tratamento, mas a relação com os profissionais de saúde.

A segunda diferença é que os desafios da área da saúde continuam iguais ou maiores em muitos casos. Porque, infelizmente, o investimento na saúde pública é aquém do necessário, e ainda existe o problema da má gestão.

Agora, tem outro aspecto, que é o que a gente está estudando: todo o nosso trabalho é pautado pela delicadeza das relações familiares. Mas hoje em dia você está buscando essa delicadeza e essa suavidade, e as crianças estão com o celular filmando, fotografando.

A tecnologia está impactando o trabalho?

Antes, tinha uma plateia que estava ajudando a gente a criar uma cena. Hoje, tem uma plateia em que uma parte ajuda a criar o encontro e outra parte documenta. A gente tem que estar muito presente e ser muito hábil para estabelecer essa conexão, e a criança ficar tranquila de deixar a interação com a máquina para interagir com o palhaço.

Nesses 25 anos, as pessoas estão mais felizes ou mais tristes?

Neste momento, as pessoas estão mais tristes. Isso vem também por conta dos últimos acontecimentos que a gente tem visto no Brasil, os rumos que a nação acabou tomando. Mas eu ainda vejo um povo com esperança, que vai procurando se adaptar ou sobreviver. E que vai fazendo isso com… não vou dizer com alegria, mas força de vida.

“Eu ainda acredito que a gente pode instituir uma cultura de alegria. Não é de ficar rindo que nem tonto, mas se conectar com o outro”

Como imagina o Dr. Zinho [personagem de Wellington] daqui a 10 anos? 

[Risos] Imagino o Dr. Zinho dando aulas. O que eu aprendo e uso dentro do hospital está dando certo fora dele. Então, deixa compartilhar com todo mundo, porque está dando resultado. Eu ainda acredito que a gente pode instituir uma cultura de alegria. Não é de ficar rindo que nem tonto, mas se conectar com o outro.

Um dos grandes desafios da gente, hoje, até para um viver mais sustentável, é confiar na simplicidade, onde menos é mais e onde você tem chance de habitar ainda mais o presente. A gente precisa ensinar mais, compartilhar mais.

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Profissionalmente, qual é seu maior orgulho?

É ver como essa ideia se expandiu. Aqui no Brasil, existem 724 iniciativas semelhantes aos Doutores da Alegria, que fazem parte de uma rede de cooperação que a gente criou. Meu maior orgulho é que há muito tempo os Doutores da Alegria não é meu, mas de uma nação que se apropriou desse trabalho e que está ajudando a ir para o seu próximo passo.

Doutores da Alegria
Wellington Nogueira, fundador dos Doutores da Alegria; crédito: Luciana Dantas/divulgação

“A falta de dignidade pela qual o público tem que passar para poder ter acesso à saúde pública de qualidade é ainda algo que me decepciona, me revolta”

E sua maior decepção?

A falta de dignidade pela qual o público tem que passar para poder ter acesso à saúde pública de qualidade ainda é algo que me decepciona, me revolta e me faz pensar que as coisas não mudaram tanto nesses 25 anos. A gente pode fazer mais.

Casos que despertam a sua emoção – de muita alegria ou tristeza – ainda são comuns?

Ô! Todo o santo dia. Existem histórias que inspiram e que fazem pensar no privilégio de estar perto de crianças tão incríveis. Recentemente, uma das que a gente visita há 13 anos manifestou a vontade de ver a lua. Ele respira por aparelhos e, teoricamente, não pode sair da UTI.

Que valor tem você viabilizar para ele ver a lua uma vez na vida? Todo mundo se mobilizou e foi feito um luau à noite, com toda a equipe, para garantir que esse menino não correria risco. Sem saber, era uma noite de superlua – e ele viu a mais bela lua que ele poderia ter visto. Não tem como olhar a vida do mesmo jeito depois disso.

Pessoas com mais de 60 anos também precisam de besteirologista?

Sim. Não tem contraindicação para idade nenhuma. É incrível o impacto positivo que a arte pode trazer para dentro do hospital. Ela resgata o humano, a oportunidade do encontro.

Como imagina a ONG no futuro? Em 10 anos?

Vejo os Doutores da Alegria como uma grande central de alegria, um lugar voltado para produzir organizar e disseminar essa cultura – que é estar presente, escutar, olhar para o outro e pensar quantas opções existem para que possamos viver encontros saudáveis de nós com nós mesmos e de nós com os outros.

“Como a gente vem cultivando um analfabetismo relacional, se uma criança não reage como a gente queria que ela reagisse, a gente põe um ponto final nesse desafio batendo, maltratando”

O mundo está menos empático?

A gente está vivendo situações mais extremas – e no extremo a gente parte para a agressão de um jeito muito exacerbado. E como a gente vem cultivando um analfabetismo relacional, se uma criança não reage como a gente queria que ela reagisse, a gente põe um ponto final nesse desafio batendo, maltratando.

Você é uma pessoa mais alegre ou mais triste?

Olha, eu vivi muita tristeza na vida. Mas, fazendo terapia e procurando me conhecer melhor, vi que tinha capacidade, vontade de pegar essa tristeza e transformar em alegria. Ainda acredito que vivo mais pela alegria, pelo riso, por não ter medo do meu ridículo, do que me lamentando, reclamando. Quem sabe eu possa inspirar mudanças.

Besteirologistas se aposentam?

[Risos.] Acho que não. Porque a bobagem, a bobice abunda na vida e no olhar desses artistas. Então a gente está sempre encontrando uma maneira de continuar aquilo que a gente faz melhor.

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