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Aos 78 anos, pedagoga aposentada volta à ativa para presidir Lar dos Velhinhos

Cyonéa Ramos tornou-se a primeira mulher e também a primeira moradora à frente da instituição beneficente fundada em 1906 em Piracicaba

Lar dos Velhinhos
Cyonéa Ramos, 81 anos, que deixou seu dia a dia de aposentada para assumir, em 2013, como voluntária, a presidência do Lar dos Velhinhos de Piracicaba. Crédito: Rosana Vasconcellos/QSocial

São 450 moradores da terceira idade, 215 funcionários, uma área de cerca de 15 hectares (aproximadamente 20 campos de futebol) e um orçamento mensal de R$ 700 mil _ que nem sempre fecha.

Foi para encarar esse desafio que Cyonéa Ramos, 81, deixou seu dia a dia de aposentada para assumir, em 2013, como voluntária, a presidência do Lar dos Velhinhos de Piracicaba, município a 160 km de São Paulo.

Com isso, ela conquistou dois pioneirismos: tornou-se a primeira mulher e também a primeira moradora a presidir a instituição beneficente fundada em 1906.

Há 19 anos a pedagoga mora em um dos 130 chalés construídos na área da instituição e que servem como uma das fontes de recursos para manter os pavilhões destinados a acolher cerca de 200 idosos carentes e desamparados _ os abrigados, “motivo da existência do Lar”, segundo Cyonéa, e que recebem seis refeições diárias, remédios, roupas, atendimento médico e recreação.

Os interessados nos chalés adquirem o usufruto vitalício do imóvel, que volta a pertencer ao Lar após a morte do morador. Existem também flats e pavilhões destinados aos pagantes e que ajudam a reforçar o orçamento da instituição.

Cyonéa saiu de São Paulo rumo ao interior para acompanhar uma irmã mais velha, que ficou totalmente dependente após um AVC. Antes disso, viu a casa esvaziar, com a morte, em poucos anos, do pai, da mãe, de outra irmã e de uma tia, que dividiam o mesmo imóvel e de quem ela cuidou até o fim.

“O custo em São Paulo estava alto e era tudo muito longe para levar minha irmã para exames, atividades. Comecei a procurar algo no interior, mas eu dizia que queria um lugar sem muros, sem grades. Todo mundo achava engraçado eu querer isso. Até que um dia uma amiga viu uma reportagem sobre o Lar na TV e me ligou: ‘Aquele lugar que você quer existe’.”

“Na mesma semana vim conhecer e gostei de cara”, diz, sobre os imóveis espalhados pela imensa área verde, com mangueiras e pés de jaca carregados e gansos que passeiam soltos.

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Um ano depois a irmã morreu, mas Cyonéa já tinha caído de amores pelo Lar e decidiu ficar. “Aqui foi muito bom pra ela e melhor ainda pra mim.”

 

“Quando me aposentei, aos 52 anos, as pessoas me diziam: ‘Você é louca de parar’. Eu dizia: ‘Eu vou viver, respirar e topar o que aparecer’”

 

 

Cyonéa conta que aceitou o cargo de presidente porque não apareciam candidatos para substituir o dirigente anterior que, pelo estatuto, não podia mais ser eleito, após oito mandatos. “Eu conhecia bem as necessidades do Lar, gosto daqui e acho que vale a pena trabalhar para isso, então aceitei.”

Lar dos Velhinhos
Crédito: Rosana Vasconcellos/QSocial

Na prática, Cyonéa apenas saiu dos bastidores, pois começou a trabalhar pelo Lar assim que chegou. A primeira empreitada foi ajudar a revitalizar uma gruta que havia no terreno, trabalho que durou um ano.

Depois vieram a recuperação da capela, a construção de um barracão para lixo reciclável, a instalação de uma fábrica de fraldas _ onde um grupo de idosos trabalha voluntariamente.

“Aqui sempre precisa fazer alguma coisa. E é preciso arranjar o dinheiro, não é só ter a ideia. Tem que fazer tudo, porque o Lar não tem dinheiro.” Nessas horas, ela sai pedindo doações aos moradores pagantes. E as pessoas sempre ajudam, diz.

Ao mudar para o outro lado do balcão, como presidente da instituição, a dificuldade só mudou de escala. “O problema grande que a gente tem é a falta de dinheiro. O resto, os probleminhas que aparecem todos os dias, de manhã até a tarde, são facilmente resolvidos. Agora, quando precisa fechar a folha [de pagamento], pagar fornecedores, aí a coisa pega.”

Com o fim da sua gestão se aproximando, em março, Cyonéa diz não ter planos, a não ser aproveitar os pequenos prazeres, como ler um livro debaixo de uma árvore ou simplesmente ficar em casa.

“Quando me aposentei, aos 52 anos, as pessoas me diziam: ‘Você é louca de parar’. Eu dizia: ‘Eu vou viver, respirar e topar o que aparecer’. Eu fiz isso um tempo e agora vou fazer de novo.”

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