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Medicina X espiritualidade: oncologista explica como as duas coisas devem andar juntas

Criador de núcleo de espiritualidade na Beneficência Portuguesa de São Paulo, o oncologista Felipe Moraes fala sobre a retomada do tema em hospitais

Blend Images/Shutterstock
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Houve um tempo em que espiritualidade e cuidados em saúde estavam intimamente ligados. Mas o avanço na medicina e na ciência fez com que os dois âmbitos se descolassem. “Houve, nos nossos centros de saúde, a diluição da espiritualidade. A gente baniu esse tema”, avalia o oncologista Felipe Moraes, criador de núcleo de espiritualidade na BP – Beneficência Portuguesa de São Paulo. Aos poucos, diz ele, o tema volta a ocupar espaço na área de saúde. “Não estamos preocupados em justificar milagres ou de propor curas milagrosas ou de falar de experiências pós-morte, mas em valorizar a espiritualidade como um componente do ser humano.”

Leia abaixo os principais trechos da entrevista exclusiva ao Instituto de Longevidade Mongeral Aegon.

 

O que é espiritualidade?

O conceito, na literatura científica, tem variação grande. No âmbito religioso, cada religiosidade tem sua definição e a forma de interpretação baseada no conceito de sagrado. Para nós, no âmbito de saúde e da assistência ao paciente, ela interessa enquanto definição de uma busca por sentido e significado e de uma conexão com o transcendente. Trata-se de um aspecto da humanidade que se refere a como o indivíduo se vê e expressa seu significado de propósito. É a maneira como ele vivencia sua conexão com o transcendente.

 

Qual é a diferença entre espiritualidade e religiosidade?

Espiritualidade e religiosidade são coisas distintas. Espiritualidade é essa busca por sentido e significado a partir de uma conexão com algo que se considere sagrado. Religião é uma construção multidimensional, que inclui crenças, comportamentos, rituais e cerimônias e que tem um componente particular e comunitário. Religiosidade, por sua vez, é a forma como o indivíduo vive sua religião.

 

Não estamos preocupados em justificar milagres ou de propor curas milagrosas ou de falar de experiências pós-morte, mas em valorizar a espiritualidade como um componente do ser humano”

 

Por que a espiritualidade é tratada como tabu na medicina?

Por vários motivos. Um deles é o despreparo das pessoas que falam sobre o tema.

É tabu também porque tem uma subjetividade maior do que o habitual no meio acadêmico. O tipo de artigo científico, de discussão e de literatura tem um viés e um olhar um pouco mais humano, menos “exatóide”, do que é a maioria da literatura médica em geral.

Em terceiro lugar, é o receio que os colegas e formadores de opinião têm de falar sobre o tema e cair em outras questões, como charlatanismo, curandeirismo, proselitismo. O receio de, ao abordar esse tema, cair em alguma armadilha.

O que queremos quando falamos de espiritualidade é [abordar] como a equipe multiprofissional de saúde pode ajudar a lidar com temas como o sentido da vida, a culpa em relação a Deus ou as questões religiosas que estejam pendentes – como as relacionadas ao perdão, ao propósito, ao significado.

Esse tem que ser o olhar para a espiritualidade: a partir de uma ação técnica-assistencial. Não estamos preocupados em justificar milagres ou de propor curas milagrosas ou de falar de experiências pós-morte, mas em valorizar a espiritualidade como um componente do ser humano.

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Muitas vezes, em nossos pacientes doentes ou em pessoas que se aproximam de uma idade mais avançada, em que a questão da morte começa a ficar mais presente, [a espiritualidade] é uma preocupação importante. Aos 70 anos, suas preocupações começam a ficar diferentes. Acabam incluindo morte, significado da vida, Deus e fé.

 

Como identificar a necessidade desse paciente?

Existem formas de fazer isso de forma objetiva e organizada. Existem anamneses, perguntas e questionários que a gente pode utilizar. Existem questionários de qualidade de vida, de avaliação de espiritualidade. São validados na literatura. Na maioria das vezes, esses temas já estão presentes na conversa.

Diante de um paciente adoecido, é frequente que ele questione por que isso está acontecendo. Não se trata de depressão ou ansiedade. É uma pergunta mais profunda, que toca o íntimo do que a pessoa acredita. “Por que isso está acontecendo comigo? Qual é o propósito? Deus fez isso comigo por quê?” Muitas perguntas já aparecem em nossas anamneses habitualmente, mas são relegadas a segundo plano ou não são avaliadas de forma objetiva.

 

Não se trata de falar com o paciente sobre Deus, mas treinar a conversa para identificar problemas e poder encaminhá-los”

 

Qual é o papel da equipe quando essas perguntas aparecem?

Isso é o mais importante. O outro tabu que a gente tem ao discutir esse tema é a ideia de que ao nos prepararmos para debater espiritualidade, a gente tenha necessariamente que oferecer um ponto para o paciente. Nosso papel não é dar respostas necessariamente, mas é, de repente, encaminhar essas demandas a líderes religiosos, capelões hospitalares, psicólogos ou, a depender do nosso treinamento, levar o paciente à reflexão.

 

Qual é o benefício de tratar desse tema?

É algo que mais tem documentado na literatura. O maior escore de qualidade de vida está associado ao maior score de espiritualidade, mostrando uma relação entre eles. Uma espiritualidade mais sadia diante de uma situação de doença faz com que as pessoas vivam suas dificuldades com mais qualidade de vida.

Segundo ponto: A espiritualidade vivida em um contexto saudável e em sintonia com assistente de saúde pode ser um mecanismo de suporte para a situação vivida.

 

Além de saber ouvir o paciente o que mais é preciso para estar preparado?

É necessário treinamento da escuta para estar atento a determinados tipos de conversa, determinadas questões. É uniformizar – não exatamente definir um padrão, mas fazer essa abordagem de maneira objetiva, programática.

Não se trata de falar com o paciente sobre Deus, mas de treinar a conversa para identificar problemas e poder encaminhá-los. Infelizmente, no Brasil ainda temos pouquíssimas iniciativas ou centros que nos preparam para isso.

 

“Não demonizaria a figura do médico. É um tema muito novo na assistência em saúde como um todo”

 

A comunidade médica não olha para a própria espiritualidade?

Não demonizaria a figura do médico. É um tema muito novo na assistência em saúde como um todo. É uma questão mais ampla do sistema de saúde.

Num rápido retrospecto, os hospitais tinham um vínculo muito grande entre a questão da espiritualidade e o cuidado de saúde. Geralmente, o líder religioso era o curandeiro.

Com o avanço da medicina e da ciência, essas coisas descolaram. Houve, nos nossos centros de saúde, a diluição da espiritualidade. A gente baniu esse tema. Ninguém fala sobre isso. Ninguém fala com seriedade sobre isso no âmbito assistencial.

 

A universidade tem dado mais atenção a esse tema?

Eu acredito que sim. Nos últimos dois ou três anos, tem havido aumento de eventos sobre esse tema, surgido mais formadores de opinião e pessoas preparadas para falar disso.

 

O que é um milagre na medicina?

O milagre tem uma interpretação da pessoa que vivenciou uma experiência que considera sobrenatural. A questão do milagre é sempre muito pessoal e muito delicada. A academia, obviamente, não deve emitir juízo sobre isso.

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