Home > estilo de vida > Preconceito em relação à idade pode reduzir motivação

Preconceito em relação à idade pode reduzir motivação

preconceito
Daisy Daisy/Shutterstock

A AARP é provedora deste conteúdo

Há quase 50 anos, Robert N. Butler criou o termo ageísmo para descrever o preconceito contra pessoas mais velhas, a velhice e o envelhecimento como “a forma de intolerância que agora tendemos a ignorar”. Algo mudou nessas cinco décadas?

No Reino Unido e em toda a Europa, estabelecemos que o ageísmo é a forma de preconceito mais comumente sofrida 1,2. De fato, em 28 países avaliados no European Social Survey (ESS) de 2008-2009, a maior parte dos entrevistados (34%) relatou ter sentido preconceito em relação à idade, mais do que os que devido ao gênero (24%) ou raça/etnia (16%) 2.

Apesar desta evidência clara de que o ageísmo é um problema significativo da sociedade, uma revisão que realizamos para o UK Government Office for Science revelou que esse tipo de preconceito é surpreendentemente pouco pesquisado3.

Por exemplo, uma busca do termo “ageísmo” no Google Acadêmico produziu muito menos resultados do que as para “sexismo” ou “racismo”. Embora o volume de pesquisas em relação à idade tenha aumentado ao longo dos últimos 45 anos – assim como a de outros tipos de preconceito –, o envelhecimento ainda está muito atrasado em volume absoluto.

preconceito

preconceito

Este artigo destaca algumas das consequências negativas menos conhecidas dos estereótipos da idade que permeiam a sociedade. Mas, em primeiro lugar, examina alguns dos processos psicológicos subjacentes à idade que os idosos podem enfrentar, revelando como as pessoas usam e aplicam os rótulos “velhos” e “jovens”.

Quem você está chamando de velho?

Em muitas culturas, o curso de vida é geralmente segmentado por limiares de idade para marcar mudanças como participação na educação, no trabalho e na paternidade. São marcadores sociais importantes e fatores de organização na sociedade, que são reforçados por legislação, normas e costumes.

Mas eles podem variar entre culturas e países (como idade de votação ou de aposentadoria). No entanto, uma implicação importante desses limiares é que eles fornecem um sistema de categorização que cria imediatamente potencial de generalização, estereótipos e discriminação. Explica-se: quando as pessoas categorizam os outros, elas psicologicamente exageram as semelhanças entre os membros de uma categoria e as diferenças dos de outras.

“As estimativas sobre as idades em que a juventude termina e em que a velhice começa revelam que as percepções das pessoas sobre esses limites variam de acordo com a idade delas”

No caso da idade, a aplicação desses limiares provavelmente reforçará a percepção de que todas as “pessoas idosas” compartilham características estereotipadas similares. Uma descoberta inicial importante de nossa pesquisa foi estabelecer a variabilidade e a fluidez nas definições de “velhice” e “juventude”. Por exemplo, as estimativas dos entrevistados do ESS sobre as idades em que a juventude termina e em que a velhice começa revelam que as percepções das pessoas sobre esses limites variam de acordo com a idade delas.

Combinada a essa tendência psicológica de mudar os limites de idade à medida que envelhecemos, também descobrimos que as percepções das pessoas sobre eles diferiram muito em diferentes países europeus (figura 3). Por exemplo, no Reino Unido, é provável que uma pessoa seja considerada “velha” quando atinge os 59 anos de idade; na Grécia, uma pessoa normalmente não seria considerada velha até os 68 anos.

preconceito

Isso sugere que estruturas ou normas culturais fortes também afetam essas percepções. Atualmente, estamos investigando o que impulsiona essas diferenças nacionais, tendo já descartado explicações em termos de expectativa de vida, idade de aposentadoria, desigualdade e produtividade 4. O que é claro é que mesmo a categorização mais simples – como jovem ou idoso – é fortemente afetada pela própria idade, em conjunto com o contexto social.

Não perca nenhuma matéria. Cadastre-se e receba em seu e-mail.

“Os estereótipos negativos mais comuns em relação a adultos mais velhos estão ligados à competência – uma vez que o funcionamento físico e cognitivo supostamente diminui com a idade”

Pena que você atingiu a velhice

As categorias de idade são mais do que rótulos – também são imbuídas de significados negativos e positivos que denotam status e poder. São ainda associadas a estereótipos e expectativas, que constituem a base do preconceito e da discriminação.

Os estereótipos negativos mais comuns em relação a adultos mais velhos estão ligados à competência – uma vez que o funcionamento físico e cognitivo supostamente diminui com a idade.

Outras percepções comuns são que idosos não têm criatividade; que são incapazes de aprender novas habilidades, improdutivas e um fardo para a família e a sociedade; e que estão doentes, frágeis, dependentes, assexuados, solitários e socialmente isolados.

Já os estereótipos positivos comuns definem as pessoas mais velhas como sábias, generosas, amigáveis, virtuosas, experientes, leais e confiáveis.

Contudo, é improvável que essas imagens positivas sejam suficientes para prevenir a discriminação. Isto ocorre porque há uma percepção mista de que as pessoas mais velhas são menos competentes (negativas), mas calorosas e amigáveis (positivas) – e elas geram reações emocionais que resultam em uma forma paternalista de preconceito, na qual são mais suscetíveis a pena e proteção.

Consequências dos estereótipos da idade

A inevitabilidade do envelhecimento significa que os estereótipos que uma vez foram focados em “outros” idosos se aplicam a si mesmo. Essa autoestereotipagem faz com que as pessoas restrinjam seus horizontes porque se veem como “muito jovens” ou “muito velhas” para ter certas atividades ou papéis. Isso também podem ter um impacto prejudicial na autoimagem, na confiança, na autoestima, na saúde e nas habilidades de um indivíduo.

Algumas de nossas experiências exploraram as consequências do medo ou de ameaça que as pessoas sentiam quando confirmavam um estereótipo de idade negativa (um fenômeno bem pesquisado conhecido como ameaça de estereótipo).

“Previmos que a mera inclusão da comparação com “mais jovens” seria suficiente para invocar estereótipos de velhice e para produzir ansiedade quanto ao baixo desempenho”

Nessas pesquisas, as pessoas de 60 anos de idade ou mais foram convidadas a completar um teste cognitivo (como os de matemática ou memória). No entanto, para a metade dos participantes, fizemos uma ameaça de estereótipo simplesmente dizendo que seu desempenho seria comparado com o de participantes mais jovens.

Previmos que a mera inclusão da comparação com “mais jovens” seria suficiente para invocar estereótipos de velhice e para produzir ansiedade quanto ao baixo desempenho.

Em quatro estudos, descobrimos que a ameaça reduziu significativamente a performance em comparação às condições de controle (em que os participantes foram informados de que seriam comparados com “outros”). Essa diferença foi parcialmente explicada pelo aumento dos níveis de ansiedade dos participantes em relação às ameaças 5.

Esses efeitos se estendem até à força física. Em outro estudo de participantes de 67 anos de idade ou mais, descobrimos que a ameaça reduziu sua firmeza (medida por um dinamômetro de mão) em até 50% 6.

Recentemente, realizamos uma revisão meta-analítica de todos os estudos disponíveis de ameaça estereotipada com base na idade. Isso demonstrou que o efeito dela no desempenho dos idosos é confiável e robusto 7.

Este achado tem implicações práticas significativas em diversos domínios, porque muitas das tarefas medidas são usadas como indicativas da habilidade e da funcionalidade física e cognitiva de um indivíduo. Por exemplo, sempre que um idoso é submetido a uma seleção ou teste de diagnóstico (médico ou seleção ocupacional), comparações de idade implícitas ou diretas podem prejudicar seu desempenho.

A ameaça baseada na idade é apenas um exemplo das formas em que os estereótipos de idade podem ter consequências. Em outro estudo, nós (e outros, como Levy et al., 1999-2000) descobrirmos que desencadear estereótipos de velhice negativos, mesmo fora da percepção consciente da pessoa, pode ser suficiente para reduzir sua motivação para uma vida mais longa.

No entanto, o ponto mais amplo é que o preconceito baseado na idade é um desafio substancial para a sociedade, bem como para indivíduos, e é uma área que deve ser cada vez mais priorizada para pesquisa e intervenção.

Se você quiser saber mais sobre nossa pesquisa, visite http://eurage.com ou nosso blog em https://grouplab.wordpress.com/.

Referências

1) D. Abrams, T. Eilola, and H. Swift, “Attitudes to Age in Britain 2004–08,” Department of Work and Pensions, Research Report No. 599. Crown, 2009.

2) D. Abrams, P.S. Russell, M. Vauclair, and H. Swift, Ageism in Europe: Findings from the European Social Survey (London: Age UK, 2011).

3) D. Abrams, H.J. Swift, R.A. Lamont, and L. Drury, “The Barriers to and Enablers of Positive Attitudes to Ageing and Older People, at the Societal and Individual Level” Foresight Government Office for Science, accessed 2015, https://www.gov.uk/government/uploads/system/uploads/attachment_data/file/454735/gs-15-15-future-ageing-attitudes-barriers-enablers-er06.pdf.

4) D. Abrams, C-M. Vauclair, and H. Swift, “Predictors of Attitudes to Age in Europe,” Department of Work and Pensions, Research Report No. 735. Crown, 2011.

5) H.J. Swift, D. Abrams, and S. Marques, “Threat or Boost? Social Comparison Affects Older People’s Performance Differently Depending on Task Domain,” Journal of Gerontology B: Psychological & Social Sciences (2013). doi: 10.1093/geronb/gbs044.

6) H.J. Swift, R. Lamont, and D. Abrams, “Are They Half as Strong as They Used to Be? An Experiment Testing Whether Age-Related Social Comparisons Impair Older People’s Hand Grip Strength and Persistence,” British Medical Journal Open (2012). doi: 10.1136/bmjopen-2012-001064.

7) R.A. Lamont, H.J. Swift, and D. Abrams, “A Review and Meta-Analysis of Age-Based Stereotype Threat: Negative Stereotypes, Not Facts, Do the Damage,” Psychology & Aging (2015). doi: 10.1037/a0038586.

 

Sobre a autora

Pesquisadora da Escola de Psicologia da Universidade de Kent, Hannah J. Swift centra-se no estudo do envelhecimento e de atitudes em relação à idade e aos estereótipos de idade. Também é membro da EURAGE, que contribuiu para o desenho e análise do módulo “ageísmo” no European Social Survey.

Clique aqui e leia o artigo original.

Copyright © 1995-2016, AARP. Todos os direitos reservados.

Conheça nossos serviços gratuitos de requalificação profissional e aproveite.

Aproveitar agora

Leia Também